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domingo, abril 19, 2026

O Olhar de Vidro de Brás Cubas


Por Enéas Bispo 

Desde que fechei o último volume de capa dura, o mundo lá fora perdeu a nitidez. Não que eu precise de óculos; o problema é que, depois de Machado, a gente para de confiar no que a retina entrega. A realidade virou um baile de máscaras onde o anfitrião se esqueceu de avisar que a festa acabou.

​Saio à rua e vejo a ordem. O guarda de trânsito apita, o fluxo segue, o comércio abre as portas. Mas lembro de "Pai contra Mãe" e um calafrio percorre a espinha. Sei agora que a paz social é, muitas vezes, apenas uma crosta fina sobre um pântano de barbárie. Por trás de cada terno bem cortado, pode haver um Cândido Neves caçando sua própria sobrevivência às custas do fôlego alheio. A civilização não é o oposto da crueldade; é apenas o seu disfarce mais sofisticado.

​Cruzo com um vizinho no elevador. Trocamos um "bom dia" protocolar, mas meus ouvidos estão calibrados pela "Missa do Galo". No silêncio que se segue ao cumprimento, ouço o grito do que não foi dito. O roçar do vestido de Conceição na sala de espera do desejo é mais ruidoso que o motor do elevador. Aprendi que a verdade não mora no dicionário, mas nos hiatos, nos olhares que se desviam e nas mãos que hesitam sobre a mesa de jantar.

​O Espelho da Vaidade

​No trabalho, observo os novos "Medalhões". Eles não buscam a sabedoria, mas a postura de quem sabe. Falam com a autoridade de quem domina o vazio. E quem sou eu para julgá-los? Machado me sussurrou que o parecer é o oxigênio da vida pública. Se a loucura é um conceito estatístico — como Simão Bacamarte tentou provar em "O Alienista" — talvez os sensatos sejam apenas aqueles que conseguem esconder suas obsessões sob uma camada espessa de verniz social.

​"A realidade é uma construção frágil, erguida sobre o barro do que queremos que ela seja."

​Quando o desejo aperta, recorro à "Cartomante". Vejo o mundo se dobrando para caber nas minhas vontades, ignorando os sinais óbvios de desastre. Como Camilo, subo a escada do destino acreditando que a sorte me favorece, quando, na verdade, estou apenas ouvindo o eco do meu próprio ego. O desejo é um péssimo conselheiro, mas é o único que fala a nossa língua materna.

​A Despedida do Cego

​Termino o dia olhando para o espelho. Machado não me deu um mapa para entender o Brasil ou a alma humana; ele me deu um par de lentes que mostram as rachaduras.

  • ​Sei que o amor pode brotar do proibido ("Uns Braços").
  • ​Sei que a fidelidade é uma moeda de vidro que se quebra antes mesmo de cair no chão ("Noite de Almirante").

​Ao final, a suspeita é meu novo estado de espírito. Machado de Assis não tirou a venda dos meus olhos para que eu visse o mundo; ele a tirou para que eu percebesse o quanto eu me esforçava para mantê-la amarrada. Agora, resta-me a ironia: a única certeza que carrego é a de que a evidência é a primeira das mentiras.

domingo, agosto 25, 2024

O que é um olhar de Ressaca?


Por Enéas Bispo 

Um olhar de ressaca é uma expressão literária que descreve um olhar intenso, hipnotizante e cheio de mistério. Ele é comparado à força de uma onda que se retira da praia nos dias de ressaca, arrastando tudo para dentro.

Características de um olhar de ressaca:

 ● Intensidade: Um olhar que parece penetrar na alma.
 ● Mistério: Um olhar que esconde segredos e provoca curiosidade.
 ● Sedução: Um olhar que atrai e fascina.
 ● Força: Um olhar que parece ter o poder de controlar e manipular.

Origem:

A expressão "olhos de ressaca" tornou-se famosa graças ao romance "Dom Casmurro" de Machado de Assis, onde o personagem Bentinho descreve os olhos de Capitu com essa metáfora.

Significado:

O significado exato de um olhar de ressaca pode variar dependendo do contexto, mas geralmente ele evoca sensações de:
 ▪︎ Desejo: O desejo de descobrir o que se esconde por trás daquele olhar.
 ▪︎ Incerteza: A incerteza sobre as verdadeiras intenções da pessoa que possui esse olhar.
 ▪︎ Perigo: A sensação de estar sendo puxado para um lugar desconhecido e perigoso.

Experiência que Envolve:

Um olhar de ressaca é mais do que apenas um olhar, é uma experiência que envolve todos os sentidos e provoca uma profunda impressão em quem o recebe.

segunda-feira, junho 24, 2024

A Injustiça Eterna: A Perseguição a Capitu


Por Enéas Bispo 

Em Dom Casmurro, Machado de Assis tece uma narrativa que, a princípio, parece ser uma simples história de amor. No entanto, a dúvida sobre a traição de Capitu se torna o cerne da trama, alimentando debates acalorados até os dias de hoje.

Mas por que essa obsessão em desvendar a verdade sobre a suposta traição? Será que a fascinação reside na busca por um veredicto definitivo, na necessidade de condenar ou absolver Capitu? Ou será que essa busca esconde algo mais profundo, um desejo de controlar a narrativa, de impor uma verdade única sobre a vida de uma personagem fictícia?

Ao expor Capitu à desconfiança e ao julgamento, Machado, mesmo que sem intenção, contribui para a perpetuação de uma cultura de linchamento moral. A personagem se torna alvo de fofocas e especulações, como se sua vida privada fosse um espetáculo a ser dissecado pelo público.

É importante lembrar que Capitu é uma personagem literária, uma criação da mente de Machado de Assis. Ela não é uma pessoa real, com seus próprios pensamentos e sentimentos. Reduzir sua complexa existência à mera questão da traição é um desserviço à obra e à própria personagem.

Ao invés de nos concentrarmos em julgar Capitu, deveríamos nos debruçar sobre a riqueza da obra de Machado. Devemos explorar os temas que ele aborda, as nuances dos personagens e a genialidade de sua escrita.

Afinal, a verdadeira traição reside naqueles que se recusam a ver a humanidade por trás da ficção, que insistem em reduzir personagens complexas a meras caricaturas.

Em vez de perseguir Capitu com julgamentos infundados, que tal celebrarmos a genialidade de Machado de Assis e a riqueza de sua obra?

quarta-feira, fevereiro 28, 2024

10 Razões Irresistíveis para se Envolver no Universo de Machado de Assis


Por Enéas Bispo 

1. Mergulhe na Essência da Literatura Brasileira: Machado de Assis, o "Bruxo do Cosme Velho", é considerado o pai da literatura brasileira. Sua obra monumental, composta por romances, contos, crônicas e peças teatrais, é a porta de entrada para a rica cultura e história do nosso país.

2. Desvende os Segredos da Alma Humana: Através de personagens complexos e psicologicamente elaborados, Machado explora os meandros da alma humana, revelando suas nuances, contradições e desejos mais íntimos. Prepare-se para se deparar com a hipocrisia, o amor, a traição, a ambição e a busca incessante pelo sentido da vida.

3. Domine a Arte da Ironia e do Humor: Machado era um mestre da ironia e do humor refinado. Sua escrita, permeada por sarcasmo e sátira, te fará rir e refletir ao mesmo tempo, aguçando seu senso crítico e sua percepção do mundo.

4. Aprimore seu Vocabulário e Estilo: A linguagem de Machado é rica, elegante e precisa. Ao ler suas obras, você terá a oportunidade de ampliar seu vocabulário e aprimorar seu estilo de escrita, tornando-se um comunicador mais eficaz.

5. Viaje no Tempo pela História do Brasil: As obras de Machado retratam a sociedade brasileira do século XIX, com seus costumes, valores e contradições. Através de seus personagens e histórias, você poderá viajar no tempo e conhecer de perto o passado do nosso país.

6. Descubra a Universalidade das Emoções: Apesar de retratar a sociedade brasileira do século XIX, as obras de Machado abordam temas universais e atemporais, como o amor, a morte, a busca pela felicidade e o sentido da vida. Seus personagens e histórias são tão reais e complexos que se conectam com os leitores de qualquer época ou lugar.

7. Encante-se com a Beleza da Literatura: A escrita de Machado é considerada uma obra de arte. Sua prosa poética, repleta de metáforas, ironia e humor, te proporcionará uma experiência literária única e inesquecível.

8. Desafie-se Intelectualmente: As obras de Machado não são apenas belas e envolventes, mas também desafiadoras. Seus romances e contos te farão pensar sobre a vida, a sociedade e o ser humano de uma maneira profunda e crítica.

9. Enriqueça seu Repertório Cultural: Ler Machado de Assis é essencial para se ter um bom repertório cultural. Suas obras são referência para a literatura brasileira e mundial, e seus personagens e frases célebres são conhecidos e apreciados por leitores de todas as idades.

10. Junte-se à Legião de Admiradores: Machado de Assis é um dos autores mais aclamados da literatura universal. Seus livros são traduzidos para diversos idiomas e lidos por milhões de pessoas em todo o mundo. Ao ler suas obras, você se junta a uma legião de admiradores que reconhecem sua genialidade e importância para a literatura.

Comece sua Jornada: Não perca tempo! Escolha um dos livros de Machado de Assis e embarque em uma jornada literária inesquecível. Descubra a riqueza da literatura brasileira, explore a complexa natureza humana e encante-se com a beleza e a genialidade de um dos maiores escritores de todos os tempos.

sábado, maio 09, 2009

Meu Caminho


Meu caminho na luz, na luz da estação que cheguei! No meu caminho encontro museus, cinemas, gente! Ruas bem cuidadas, desesperadas em sinais de gentileza. Acordei cedo e senti o cheiro de café no ar, pão fresco e quentinho, e a vida parece quase perfeita. Passo por edifícios que parece me esmagar de tão enormes, nos meus pensamentos desejos e imagens loucas, doces e sensuais. Sou um anjo mundano, terreno e caminhante. A cidade está carente de silêncio, de carinho, de luz e de uma estação liberdade. Tenho guardado fotos proibidas, lembranças de uma festa e da minha cabeça virada na esquina. Minha pele arrepia!!! Uma moça italiana passa por mim cantando, vejo a cor dos seus olhos, sinto seu cheiro, desvendo seus templos, boca barroca. Chove gotículas de luz e sinto o caminho molhado, reflexos de tudo, de gente, de edifícios, carros... Uma flor nasce no asfalto. Uma moça na janela, o céu agora fica azul, museu de línguas, quero ler Machado de Assis. Meu caminho é um labirinto, um cena de cinema sem direção. Um mar de palavras, uma ponte entre a beleza e a escuridão. Eu sou um piano pedindo para ser tocado, que coisa erótica! Meu riso no Metrô, muitas histórias em livros fechados, chego na praia e vejo muitas cenas familiares e previsíveis. Agora vejo o corpo dela nu na minha cama, mais risos, onde estamos mesmo? Na cama, eu falei? Fim de linha, campo verde, o o olho azul. Na vida tudo é cor. Meus pés estão cansados mas eu estou feliz.
Foto/Texto: Enéas Bispo de Oliveira