Por décadas, a medicina operou sob um dogma quase imutável: lesões na medula espinhal eram definitivas. Uma vez rompidos os circuitos nervosos que conectam o cérebro ao resto do corpo, a paralisia era considerada um caminho sem volta. No entanto, o trabalho incansável da bióloga brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está reescrevendo essa história.
Sua descoberta — a polilaminina — não é apenas um avanço acadêmico; é uma promessa de autonomia para milhões de pessoas em todo o mundo.
A Persistência de 30 Anos
A trajetória de Tatiana Sampaio é um exemplo de "ciência de longo prazo". Há cerca de 30 anos, ela iniciou seus estudos sobre as lamininas, proteínas fundamentais que compõem a matriz extracelular (a "cola" que sustenta nossas células). Na época, descobriu quase por acaso que uma forma específica dessa proteína, extraída da placenta humana, possuía propriedades regenerativas únicas.
O desafio era imenso: como transformar uma proteína instável em algo que pudesse ser aplicado no corpo humano? Tatiana conseguiu sintetizar em laboratório a polilaminina, uma versão organizada da proteína que funciona como uma "ponte" ou um "andaime" para neurônios.
Como Funciona a Polilaminina?
Diferente de outras abordagens que tentam usar células-tronco de forma isolada, a polilaminina foca no ambiente da lesão. Quando ocorre um trauma na medula, o corpo cria uma cicatriz que impede os neurônios de se reconectarem.
A polilaminina, aplicada via injeção diretamente no local da lesão, atua de três formas principais:
- Guia para Neurônios: Ela cria uma malha física que orienta os axônios (as extensões dos neurônios) a crescerem na direção correta.
- Redução da Inflamação: Ela modula o ambiente químico da lesão, diminuindo a barreira inflamatória que impede a cura.
- Estímulo Celular: Ela "avisa" aos neurônios maduros — que normalmente não cresceriam mais — que é hora de se regenerarem.
Resultados que Impressionam o Mundo
Embora a ciência exija cautela, os resultados práticos obtidos até agora são emocionantes. Em casos de uso experimental e judicial, pacientes com lesões graves (paraplégicos e tetraplégicos) apresentaram melhoras significativas.
Relatos indicam que alguns pacientes recuperaram o controle do tronco, sensibilidade em órgãos internos (como a bexiga) e até movimentos parciais de membros que estavam paralisados há anos. No início deste mês (fevereiro), a Anvisa autorizou o início oficial da Fase 1 dos estudos clínicos em humanos, um marco histórico que valida a segurança da substância e abre caminho para sua futura comercialização.
Ciência Brasileira: Entre o Brilho e a Resistência
A história de Tatiana Sampaio também é um manifesto sobre a importância da ciência nacional. A pesquisa foi desenvolvida nos laboratórios da UFRJ, em parceria com o laboratório farmacêutico brasileiro Cristália e com apoio de agências como a FAPERJ.
Apesar do sucesso, a cientista frequentemente destaca as dificuldades enfrentadas, como a perda de patentes internacionais por falta de verbas em períodos de cortes na educação. Sua resiliência, contudo, manteve o projeto vivo. Aos 59 anos, Tatiana é hoje um dos nomes mais fortes para representar o Brasil em premiações internacionais de peso, como o Prêmio Nobel, devido ao impacto humanitário de sua descoberta.
O Futuro da Medicina Regenerativa
Com o início dos testes clínicos coordenados pela UFRJ, a expectativa é que a polilaminina possa, em poucos anos, tornar-se um tratamento padrão. Além das lesões medulares, o potencial da substância para tratar outras doenças do sistema nervoso, como o Mal de Parkinson ou o Alzheimer, já começa a ser vislumbrado no horizonte científico.
Tatiana Sampaio não descobriu apenas uma molécula; ela devolveu o direito de sonhar a quem acreditava que nunca mais voltaria a sentir o próprio corpo. Sua descoberta prova que, com investimento e dedicação, a ciência brasileira tem o poder de mudar o curso da humanidade.
*Este artigo destaca o impacto da pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, cujo trabalho foi destaque na Forbes Mulher.