O Sena corria indiferente sob a Pont Neuf, como sempre fez, mas para Eve, aquelas águas não eram mais um espelho de melancolia romântica. Eram apenas hidrogênio e oxigênio seguindo um caminho que ela não pretendia mais trilhar.
Paris tem essa mania de se vender como um abraço eterno, mas Eve sentia o aperto de um torniquete.
Por Enéas Bispo
Naquela manhã de cinza pálido, o ar carregava o cheiro de manteiga queimada e asfalto úmido — o perfume oficial das promessas não cumpridas. Eve não arrumou as malas com a delicadeza de quem planeja voltar. Ela as socou com a fúria silenciosa de quem corta amarras.
- Os Laços: As agendas cheias de nomes que soavam como música, mas pesavam como chumbo.
- Os Monumentos: A Torre Eiffel, que outrora parecia um farol, agora não passava de um esqueleto de ferro vigiando sua estagnação.
- Os Sabores: O confit de canard, o vinho encorpado de Bordeaux, o queijo que derretia na boca — tudo aquilo agora tinha o gosto metálico da obrigação.
O Som do Silêncio
Enquanto caminhava em direção à Gare du Nord, vozes se ergueram. Eram os protestos dos "amigos" de galeria, os clamores dramáticos de amantes que confundiam posse com paixão, os apelos da própria cidade que sussurrava em cada esquina: "Ninguém deixa Paris e sai ileso".
Eve não ouviu. Ou melhor, ouviu e escolheu o vácuo.
Não houve o "olhar para trás" cinematográfico. Não houve a lágrima furtiva ao ver o Sacré-Cœur sumindo no horizonte. Para ela, a cidade luz tinha acabado de queimar a última lâmpada. O toque daqueles que tentaram retê-la pelo braço deslizou por sua pele como se ela estivesse untada em desapego.
A Liberdade é um Trem em Movimento
Ao sentar-se na poltrona do trem, o estalo das portas fechando foi o som mais bonito que ouviu em décadas. Não era apenas uma partida; era uma exorcização.
Paris ficava para trás com seus museus empoeirados de memórias e suas ruas que exigiam uma elegância que lhe exauria a alma. Eve Daut não estava fugindo; ela estava, finalmente, ocupando o próprio espaço.
Pela janela, o borrão cinza da capital deu lugar ao verde cru do campo. Ela fechou os olhos. Pela primeira vez, o oxigênio não tinha gosto de croissant, nem de fumaça, nem de passado. Tinha gosto de nada. E o nada, para Eve, era o começo de tudo.