segunda-feira, julho 27, 2026

Kid Abelha voltou, e o Brasil parou pra cantar junto: por dentro do fenômeno "Eu Tive Um Sonho"


Por Enéas Bispo 

Tem retorno que é só nostalgia embalada em confete. E tem retorno que reacende uma geração inteira, atravessa uma segunda e ainda flerta com uma terceira. É esse o caso do Kid Abelha em 2026. Depois de treze anos de silêncio nos palcos grandes, Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato reapareceram juntos, e o Brasil simplesmente não conseguiu ficar parado.

A turnê batizada "Eu Tive Um Sonho" estreou em junho, no Rio de Janeiro, na Farmasi Arena, e desde então tem cruzado o país deixando um rastro de plateias emocionadas, cartazes com frases de refrões antigos e famílias inteiras cantando a plenos pulmões — avós, pais e filhos, cada um com sua própria lembrança colada em cada música. Não é força de expressão: a própria banda tem falado que a proposta nunca foi só reviver o passado, mas usar essa energia acumulada para fazer algo vivo, atual, dançante.

O trio de volta ao centro do palco

Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato retomaram a parceria depois de um hiato que já parecia definitivo. A cantora afirmou que a ideia central do reencontro é justamente promover um encontro entre gerações diferentes de fãs — inclusive aqueles que conheceram a banda anos depois, pela internet, sem nunca terem visto um show ao vivo. O setlist, mantido em segredo até a estreia, foi um dos maiores desafios da produção: como caber décadas de hits em uma única noite sem deixar ninguém de fora?

A resposta, pelo visto, funcionou. A banda soma milhões de ouvintes mensais só no streaming, prova de que a ausência dos palcos nunca significou esquecimento. A rota da turnê passa por praticamente todas as regiões do país — São Paulo, Salvador, Brasília, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis — com encerramento previsto para outubro, em Belo Horizonte.

O que dizem os fãs

Conversamos com quem esperou anos por esse momento.

Isadora Sereno, de Campina Grande (PB), guardou a expectativa por mais de uma década: "Eu cresci ouvindo minha mãe cantar Kid Abelha em casa, então pra mim isso nunca foi 'música antiga', sempre foi trilha sonora de família. Quando anunciaram a volta, chorei no meio da cozinha. Não é exagero dizer que essa turnê é um resgate afetivo coletivo."

Altair Dutti, de Curitiba, cidade que recebe um dos shows da turnê, já organiza a ida com um grupo de amigos que se conheceram justamente por causa da banda: "A gente se encontrou numa comunidade de fãs online há uns cinco anos, só trocando figurinha sobre discos e shows antigos. Agora vamos todos juntos, ao vivo, coisa que a gente jurava que não ia mais acontecer. É tipo fechar um ciclo."

Marcos Cintra, de Manaus, destaca a distância como parte da emoção: "Nunca teve show do Kid Abelha por aqui do jeito que a gente sempre quis. Saber que existe uma chance real de ver Paula Toller cantando ao vivo de novo é surreal. Já separei dinheiro pra viajar se precisar."

Três histórias, três cidades, um mesmo fio condutor: a sensação de que algo que parecia definitivamente arquivado voltou a pulsar.

O olhar da crítica

A repercussão entre jornalistas e colunistas de música tem sido, de forma geral, calorosa. O consenso apontado por veículos que cobriram a estreia é de que a turnê acerta ao equilibrar nostalgia com vitalidade cênica — shows pensados não como um museu de sucessos, mas como uma celebração viva, com arranjos atualizados e uma banda visivelmente à vontade em cima do palco. Também se comenta bastante o aspecto multigeracional das plateias, tratado como um dos grandes trunfos comerciais e afetivos do retorno: não é incomum ver famílias inteiras — de diferentes idades — dividindo o mesmo canto, o mesmo pulo, a mesma letra decorada.

Há, claro, quem questione se um projeto desse tipo consegue sustentar o interesse por uma turnê inteira que atravessa o Brasil inteiro, ou se o impacto tende a diminuir fora do eixo Rio-São Paulo. Mas, até aqui, a resposta do público parece falar mais alto que qualquer ressalva.

Um sonho que virou turnê, e agora é palco

Se o nome escolhido para a turnê é "Eu Tive Um Sonho", a realidade tem sido ainda mais concreta: casas cheias, gerações se cruzando nas plateias e uma legião de fãs espalhados de Campina Grande a Manaus, passando por Curitiba, provando que Kid Abelha nunca foi só uma banda dos anos 80 e 90 — é, até hoje, um ponto de encontro.

segunda-feira, julho 20, 2026

Gasolina com 32% de Etanol (E32): Quais os Riscos para o Motor e Componentes do Carro?


Por Enéas Bispo

A gasolina comercializada no Brasil passou a conter cerca de 32% de etanol anidro (mistura conhecida como E32). Essa proporção maior de álcool tem como objetivo reduzir a dependência de combustíveis fósseis, diminuir emissões poluentes e valorizar a produção nacional de etanol. No entanto, o aumento do teor de etanol traz implicações importantes para o funcionamento e a durabilidade dos automóveis.

Este artigo explica de forma didática os principais efeitos nocivos da E32 no motor e em outros componentes, quem são os veículos mais afetados e como minimizar os riscos.

Por Que o Etanol Pode Ser Problemático?

O etanol é um álcool derivado da cana-de-açúcar (no Brasil) com características químicas diferentes da gasolina pura:

Higroscópico: Absorve umidade do ar facilmente.
Solvente potente: Dissolve sujeira, vernizes e alguns materiais.
Menos energético: Tem cerca de 30% menos poder calorífico que a gasolina.
Corrosivo: Reage com certos metais, especialmente na presença de água.

Essas propriedades geram impactos quando a concentração sobe para 32%.

Principais Implicações Nocivas

1. Corrosão em Componentes Metálicos

O etanol, ao absorver água, forma uma mistura mais condutiva e ácida. Isso acelera a corrosão em:

Tanque de combustível, bomba de combustível, linhas de alimentação e injetores.
● Pistões, anéis de pistão e válvulas (o pistão costuma ser o mais afetado).
● Peças de alumínio, zinco, cobre e latão.

Consequência prática: Oxidação interna, formação de depósitos e redução da vida útil dessas peças. Em casos graves, pode levar a falhas na bomba ou entupimento de injetores.

2. Degradação de Borrachas, Plásticos e Vedações

O poder solvente do etanol causa:

Inchamento, ressecamento, endurecimento ou fissuras em mangueiras, juntas, O-rings e selos.
Vazamentos de combustível e perda de pressão no sistema.

Veículos mais antigos (pré-2005 ou com componentes não compatíveis com etanol) são os mais vulneráveis.

3. Separação de Fases e Água no Combustível

Quando o etanol absorve água em excesso, ocorre a separação de fases: uma camada rica em água/etanol (corrosiva) fica no fundo do tanque. Se aspirada, causa danos imediatos à bomba e injetores. Isso é pior em carros que ficam muito tempo parados.

4. Entupimentos e Depósitos

O etanol “limpa” depósitos antigos do tanque e sistema, mas esses resíduos podem entupir filtros, injetores e passagens estreitas.

5. Alterações no Desempenho e Consumo

● Aumento de consumo: Geralmente entre 2% e 6% (ou mais), devido à menor energia por litro.
● Dificuldade de partida a frio, marcha lenta instável e possível perda de potência.
● Funcionamento mais quente do motor em alguns casos, acelerando desgaste.

6. Impactos no Óleo do Motor

O etanol pode diluir o óleo lubrificante, reduzindo sua proteção e favorecendo formação de borra e corrosão interna.

Quais Veículos São Mais Afetados?

● Carros antigos e carburados: Alta vulnerabilidade.
● Veículos exclusivamente a gasolina importados (especialmente com injeção direta ou turbo de mercados com baixa mistura de etanol).
● Modelos pré-2015 com manutenção atrasada.
● Motos carburadas: Marcha lenta irregular e partidas difíceis.

Veículos flex-fuel modernos são projetados para altas concentrações e geralmente lidam bem com E32, graças aos sensores e calibração eletrônica. No entanto, manutenção em dia continua essencial.

Benefícios e Perspectiva Equilibrada

Apesar dos riscos, testes oficiais no Brasil indicam que, em veículos recentes e bem mantidos, os impactos são limitados. O etanol melhora a octanagem (reduzindo detonação) e diminui algumas emissões poluentes. O desafio está no equilíbrio entre vantagens ambientais/econômicas e a compatibilidade com a frota existente.

Como Proteger Seu Veículo?

● Mantenha a manutenção em dia (filtros, mangueiras, velas).
● Use aditivos estabilizadores de combustível, especialmente em carros pouco usados.
● Mantenha o tanque sempre cheio para reduzir condensação.
● Prefira postos de confiança.
Inspecione periodicamente mangueiras e vedações.
Para veículos antigos: considere peças compatíveis com etanol ou uso ocasional de aditivos anti-corrosivos.

Fique Atento 

A gasolina E32 não é “inimiga” dos motores modernos flex, mas representa um risco real para veículos mais antigos ou não preparados. Conhecer esses efeitos ajuda o motorista a adotar cuidados preventivos, evitando gastos maiores com reparos.

Ficar atento aos sintomas (aumento de consumo, dificuldades de partida, marcha irregular) e realizar manutenções preventivas é a melhor forma de conviver com o etanol elevado na gasolina brasileira.

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Atenção》》》》 Artigo informativo baseado em pesquisas técnicas e relatos do setor automotivo. Consulte sempre o manual do seu veículo e um mecânico especializado para orientações específicas.

quinta-feira, julho 16, 2026

O homem que trocou o breaking news pelo terroir


|Por Enéas Bispo 

Há vozes que a gente reconhece antes de olhar para a tela. A de Renato Machado era uma delas. Entrava pela manhã na casa dos brasileiros com a compostura de quem já tinha visto o mundo — e visto mesmo: cobriu a Guerra das Malvinas, testemunhou Chernobyl à distância de um continente, esteve em Paris quando o terror bateu à porta do Charlie Hebdo. Passou por Londres como correspondente, por Jornal Nacional, Jornal da Globo, RJTV, Bom Dia Brasil. Quatro décadas dizendo ao país o que estava acontecendo lá fora, com aquela dicção que parecia ensaiada e não era: era apenas respeito pelo ofício.

Mas o jornalismo, para quem o exerce direito, não é só notícia. É também escuta, curiosidade, sensibilidade para o que dura depois que a manchete passa. E Renato Machado descobriu, em algum ponto da estrada — talvez entre um plantão e outro, talvez numa tarde livre na Provença —, que havia outra linguagem que também valia a pena traduzir: a dos vinhos.

Não foi um hobby de aposentado entediado. Foi extensão do mesmo olhar repórter, só que virado para dentro da taça. Em 2014, ainda na ativa, levou as câmeras da Globo para os vinhedos franceses e voltou com uma série sobre a Provença que não falava só de uvas: falava do mistral que varre os Alpes e protege as vinícolas, da mesa, da paisagem, do jeito como um território inteiro pode estar dissolvido dentro de uma garrafa. Quem cobre guerra sabe reconhecer o que é frágil e precisa de cuidado. Talvez por isso ele tenha entendido tão bem uma videira.

Quando deixou a Globo, em 2021, não desapareceu — trocou de plataforma, não de vocação. Continuou contando histórias, agora nas redes, agora sobre rótulos e regiões, viagens e boas mesas. Em 2024, fechou o círculo com um documentário sobre aquela mesma Provença que o havia seduzido dez anos antes. Não era mais breaking news. Era memória, era gosto, era tempo — a matéria de que são feitas as crônicas, e da qual ele, sem talvez planejar, virou também um pequeno personagem.

Morreu nesta quinta-feira, aos 83 anos, no Rio de Janeiro. Fica a voz que abriu tantas manhãs. Fica também a lição, menos óbvia, de que uma vida de notícias urgentes pode desembocar, com sorte e bom gosto, numa taça servida devagar. Que ele descanse onde o vento seja parecido com o mistral — e que, se houver mesa lá, tenha vinho bom e conversa longa.

quarta-feira, julho 15, 2026

Como o Quartzo Democratizou o Tempo e Redesenhou a Alta Relojoaria

         Seiko Quartz Astron|1969

Por Enéas Bispo 

Por séculos, o tempo foi um artigo de luxo. Controlar as horas com precisão milimétrica exigia uma engenharia mecânica de complexidade monumental: dezenas de engrenagens de metal sob a tensão de uma mola e o ajuste microscópico de eixos apoiados sobre rubis autênticos para mitigar o atrito. Ter um relógio de pulso confiável antes do final dos anos 1960 não era apenas uma decisão prática, mas um símbolo de status e poder aquisitivo inacessível à maioria.

​Essa dinâmica de exclusividade ruiu no dia 25 de dezembro de 1969, quando a fabricante japonesa Seiko apresentou ao mundo o Seiko Quartz Astron. Ao substituir o coração mecânico dos relógios por um cristal de quartzo e um circuito integrado alimentado por uma bateria, a empresa deu início à maior disrupção da história da horologia.

O Coração de Quartzo: A Tecnologia que Desbancou o Rubi


Para entender a magnitude dessa mudança, é preciso olhar para a física por trás do mineral. O quartzo (SiO_2) possui uma propriedade física notável chamada piezoelectricidade. Quando recebe uma corrente elétrica de uma pequena bateria, o cristal passa a vibrar a uma frequência extremamente alta e constante (geralmente 32.768 vezes por segundo). Um microchip divide essas oscilações para gerar um impulso elétrico exato por segundo.

​Essa simplicidade genial teve consequências profundas na arquitetura dos relógios:

  • Precisão Absoluta: O quartzo alcançou uma precisão cerca de 100 vezes maior do que a dos melhores e mais caros relógios mecânicos da época.
  • O Fim do Protagonismo do Rubi: Nos relógios mecânicos tradicionais, as inscrições no mostrador indicando o número de joias (como 17 Jewels ou 21 Jewels) eram o selo de nobreza da peça. Esses rubis funcionavam como mancais para suavizar o atrito implacável do metal contra o metal. Com o quartzo, as dezenas de engrenagens em movimento contínuo evaporaram. O rubi perdeu o protagonismo funcional e a fabricação tornou-se drasticamente mais barata e simples.

Da Patente Aberta à Democratização do Tempo

​Embora a tecnologia fundamental do quartzo tenha sido criada em 1927 pelos cientistas Warren Marrison e J.W. Horton (nos Laboratórios Bell), o equipamento era grande e limitado a laboratórios. A genialidade da Seiko e de seus concorrentes na década de 1960 foi a miniaturização do sistema para caber em uma caixa de pulso.

​Em vez de monopolizar a invenção para reter lucros bilionários em royalties, a Seiko tomou a decisão histórica de abrir as patentes do seu oscilador de quartzo em formato de diapasão.

​Essa decisão estratégica teve duas faces:

  • Para a Sociedade: Foi um ato de enorme impacto social. A padronização mundial barateou os custos de produção em escala global, descentralizou o controle do tempo e o colocou de forma acessível no pulso da classe trabalhadora.
  • Para a Indústria Tradicional: Gerou a famosa "Crise do Quartzo" entre as décadas de 1970 e 1980. O mercado foi inundado por modelos baratos e precisos, levando centenas de manufaturas tradicionais suíças à falência e extinguindo milhares de postos de trabalho artesanais.

​O Retorno ao Topo: O Quartzo no Mercado de Luxo

​Apesar da produção em massa ter associado o quartzo a relógios descartáveis de plástico durante os anos 1980, a alta relojoaria contemporânea resgatou o mineral, elevando-o ao status de obra-prima. Hoje, o quartzo de luxo divide-se em vertentes admiráveis:

  1. Ícones de Design e Elegância: Grifes lendárias como a Cartier utilizam movimentos de quartzo em modelos históricos, como o Cartier Tank, permitindo caixas extremamente finas, leves e de manutenção quase nula, perfeitas para o uso diário.
  2. Alta Relojoaria de Precisão (HAQ): A divisão de luxo Grand Seiko desenvolveu o célebre Calibre 9F, um movimento de quartzo montado inteiramente à mão, com compensação térmica, regulado para apresentar um desvio máximo de apenas 10 segundos por ano.
  3. Engenharia de Vanguarda: Relojoeiros independentes de altíssimo luxo, como F.P. Journe com a linha Élégante, criaram circuitos inteligentes de quartzo que entram em modo de suspensão para economizar energia e ajustam os ponteiros sozinhos ao menor movimento do pulso, custando dezenas de milhares de dólares.

​O quartzo provou que a precisão não precisa ser escrava da complexidade mecânica tradicional. Ao transformar o mineral mais comum em um mestre do tempo, a tecnologia moldou o mundo moderno, provando que a verdadeira inovação reside em tornar o extraordinário acessível a todos.

sexta-feira, julho 10, 2026

O Verde que Não Cabe no Frasco


Por Enéas Bispo 

Há garrafas que guardam vinho, e há frascos que guardam tempo. O de Henry Jacques é da segunda espécie — um bloco de cristal lapidado como se fosse pedra preciosa, tampa facetada, um fio de corrente dourada enlaçando o gargalo como uma joia esquecida no pescoço de alguém importante. Dentro, um líquido verde-oliva, quase fosforescente, sobe até a metade do vidro com a densidade de quem sabe seu próprio valor.

Não é por acaso que a casa se recusa a chamar aquilo de "perfume" sem mais. Fundada em 1975 por Henry e Yvette Cremona nos arredores de Grasse — capital histórica da perfumaria francesa desde o século XVII —, a maison nunca fabricou águas-de-colônia apressadas. Trabalha com elixires e essências puras, sem diluições que aliviem a intensidade. Enquanto o mundo do perfume migrou para grandes tanques industriais e fórmulas replicáveis, a Henry Jacques manteve os pés na terra — literalmente: cultiva quase quatro hectares de rosas Centifolia na região de La Motte, regadas pelo rio da propriedade, aradas por cavalos, colhidas à mão. Cada quilo de essência custa uma safra inteira de pétalas.

O frasco que se vê aqui carrega a assinatura de outro artesão: Christophe Tollemer, arquiteto e diretor artístico da casa, responsável por desenhar cada flacon como uma peça única, depois executada por cristaleiros de família. Não há linha de produção — há gesto, repetido com a paciência de quem não tem pressa de vender.

Por isso talvez o mais curioso não seja o cheiro que esse líquido esconde, mas o que ele promete antes mesmo de ser aberto: a ideia de que luxo, na sua forma mais antiga, não é abundância — é raridade. É a rosa que levou cinco anos para florescer, o cristal que um artesão recusou lapidar até encontrar as mãos certas, o gesto de destampar um frasco como quem abre um cofre.

Talvez por isso essas garrafas pareçam sempre um pouco tímidas em sua opulência: sabem que o verdadeiro luxo nunca precisa gritar. Basta esperar, quieto, sobre a prateleira, que alguém reconheça o que custou para chegar até ali.

terça-feira, julho 07, 2026

Benedito Ruy Barbosa — o homem que fez da terra brasileira um palco, e do palco, um pedaço de chão para todos nós


Por Enéas Bispo 

Ele partiu hoje.

Mas antes de partir, plantou. Plantou histórias como quem planta lavoura: fundo, com paciência, esperando a estação certa para florescer na tela de milhões de casas brasileiras. Nasceu em Gália, interior de São Paulo, filho de jornalista, neto do sertão, e desde cedo aprendeu que a vida do caboclo, do imigrante, do homem que lavra a terra com as próprias mãos, também merecia ser contada com a dignidade de uma ópera.

Começou pelo teatro, com Fogo Frio, e logo a televisão o chamou — e ele respondeu com um Brasil inteiro. Escreveu sobre irmãos que não se conheciam, sobre anjos disfarçados de vagabundos, sobre imigrantes italianos que atravessaram o oceano com uma mala e um sonho. Deu nome e rosto ao Pantanal antes que o Pantanal virasse destino turístico — fez dele personagem, fez dele lenda, fez dele espelho da alma brasileira.

Renasceu com Renascer. Ensinou o país a cantar com O Rei do Gado. Levou Terra Nostra além das fronteiras. E, quando a saúde vacilou, passou a pena adiante — para as filhas, para o neto — porque sabia que uma boa história é maior do que quem a escreve, e merece continuar viva mesmo quando o autor descansa.

Não escreveu para a elite. Escreveu para a cozinha, para a sala, para quem chegava cansado do trabalho e encontrava, na tela, um retrato do próprio Brasil: rural, sofrido, teimoso, mas sempre com esperança guardada no bolso do avental.

Hoje, o roteirista da vida real também escreveu seu último capítulo. Mas como em toda boa novela sua, sabemos que isso não é o fim — é apenas o momento em que a história muda de mãos, e o Brasil, comovido, vira mais uma página.

Obrigado, Benedito. Pela terra que você nos ensinou a amar, e pelas histórias que ainda vão nascer, porque você as plantou fundo demais para morrerem com você.

terça-feira, junho 30, 2026

X Encontro da Família Freitas com Festival Cancioneiro de Zé Marcolino


Está fechada a lista de 240 participantes do X ENCONTRO DA FAMÍLIA FREITAS, que celebrará os 150 anos do casamento de Adolfo Mayer e Joaquina de Freitas. O evento contará ainda com o 1° Festival Cancioneiro de Zé Marcolino, que terá a participação especial do cantor Chico Arruda, responsável por interpretar as músicas mais conhecidas do grande artista sumeense.

Observe a Natureza, Tudo Nela é Recomeço!


Por Enéas Bispo 

Olhe ao redor, detenha o passo aflito,Contemple a terra, o céu, o chão sagrado.Há uma lição num sussurrar bendito,Em cada canto vivo e preservado.

Observe a natureza em sua calma:Tudo nela é constante recomeço.A folha seca que se entrega à lama Garante à nova flor o seu berço.

Os Ciclos da Terra

  • O Sol que morre ao fim do horizonte Renasce em ouro na manhã seguinte.
  • A Fonte que seca no estio ardente Volta a jorrar na chuva reluzente.
  • A Árvore que o inverno despe inteira Não chora a veste que o chão abraçou; Espera o tempo, firme e altaneira, E em primavera verdejante acordou.

Nada se perde, tudo se renova,A própria morte é o ensaio da vida.A lagarta que rasteja Acorda em asa, livre e colorida.

Se a dor cansar ou o mundo parecer avesso,Faça uma pausa e olhe para fora:Na natureza, tudo é recomeço,E sempre há tempo de romper a aurora.

quinta-feira, junho 25, 2026

Terra em Convulsão - Terremoto na Venezuela e Tremores no Japão São Coincidência ou Sinal de Algo Maior?


Por Enéas Bispo 

Ontem, o mundo foi sacudido por eventos sísmicos devastadores em dois cantos opostos do globo. A Venezuela foi atingida pelo terremoto mais potente em mais de um século: um sismo de magnitude 7,5 ocorrido apenas 40 segundos após um tremor precursor de magnitude 7,2, deixando ao menos 164 mortos e 971 feridos.  Do outro lado do mundo, um terremoto de magnitude 7,2 atingiu o norte do Japão na manhã de hoje, atingindo a rara categoria "upper 6" na escala sísmica japonesa na cidade de Hashikami, província de Aomori, com tremores suaves também sentidos em Tóquio. A proximidade temporal desses dois eventos naturalmente levanta uma pergunta: há alguma conexão entre eles?

A resposta da ciência é clara: não há correlação direta. A coincidência está na data, não na origem — cada terremoto ocorreu em áreas conhecidas pela intensa atividade sísmica, onde a tensão entre placas tectônicas vem se acumulando há décadas ou até séculos. No caso da Venezuela, o país está localizado sobre o limite entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul, cuja interação gera movimentos frequentes ao longo do território nacional, especialmente em áreas próximas a sistemas de falhas como o de Boconó, considerado um dos mais importantes do país. Já o Japão, está situado no chamado Círculo de Fogo do Pacífico, uma das regiões onde fortes terremotos têm sido repetidamente registrados nos últimos meses. Trata-se de dois cenários geologicamente independentes, cada um com sua própria dinâmica de acúmulo e liberação de energia.

O que esses eventos têm em comum é a brutalidade dos seus efeitos e o alerta que deixam para o mundo. O Círculo de Fogo concentra cerca de 90% dos terremotos do mundo e aproximadamente 75% dos vulcões ativos da Terra, estendendo-se por cerca de 40 mil quilômetros ao redor das bordas do Oceano Pacífico, passando pela costa oeste das Américas, Alasca, Japão, Sudeste Asiático e Nova Zelândia. A maioria dos episódios de tremores do mundo acontecem nas bordas das placas tectônicas, onde as rochas da crosta terrestre sofrem grandes esforços que se acumulam ao longo do tempo até que a força é tão grande que as rochas quebram, liberando uma enorme quantidade de energia em forma de ondas sísmicas. Quando dois grandes sismos ocorrem no mesmo dia em regiões diferentes, não é sinal de que a Terra "acordou" de forma sincronizada — é simplesmente o ritmo normal e implacável da geologia planetária, que não pede permissão nem aviso prévio.

segunda-feira, junho 15, 2026

Romário x Fernanda Gentil: climão ao vivo na Copa virou polêmica — mas não foi bem o que parece


Por Enéas Bispo 

A estreia do Brasil na Copa do Mundo 2026 terminou em empate por 1 a 1 com o Marrocos, mas o que mais repercutiu nas redes sociais depois do apito final foi uma troca de palavras ao vivo entre o ex-jogador Romário e a jornalista Fernanda Gentil durante a transmissão da CazéTV.

Tudo começou quando Fernanda questionou Romário se o empate não teria gosto de derrota, considerando a expectativa em torno da Seleção Brasileira. A resposta do Baixinho foi direta — e atravessada: "Fernanda, quem não conhece muito de futebol vai ter esse pensamento que você tem."

O trecho viralizou rapidamente. Nas redes, muita gente interpretou a fala como uma alfinetada direta à apresentadora, acusando o ex-atacante de grosseria e machismo. Mas a história tem um segundo capítulo.

No dia seguinte, a própria Fernanda Gentil saiu a público para desmentir a versão que circulava. Ela disse que não se sentiu ofendida, que os dois se conhecem há anos e que o clima nos bastidores era de respeito. Segundo ela, Romário não estava dizendo que ela não entende de futebol — e sim que quem considera um empate como derrota não entende da dinâmica da competição.

Romário também se pronunciou e fez questão de elogiar a colega: disse que Fernanda é uma das dez pessoas do país que mais entendem de futebol e classificou o episódio como um simples desencontro de comunicação, amplificado pelo barulho e agitação do ambiente ao vivo.

Moral da história: o comentário foi ríspido, sim. Mas "humilhação" é exagero. O próprio casal do episódio — se é que dá pra chamar assim — já fez as pazes antes mesmo de o assunto esfriar.