sexta-feira, fevereiro 27, 2026

O Poder do "Deixa eu dizer": O que está por trás da frase?


A expressão "Deixa eu dizer..." é um fenômeno linguístico curioso. No papel, ela solicita permissão; na prática, ela é um comando de autoridade.

​Muitas vezes, ouvimos essa frase vindo de pessoas que já possuem o microfone, o cargo ou o silêncio da sala. Ninguém as está interrompendo, mas o "deixa eu dizer" surge como um abre-alas verbal.

Por Enéas Bispo 

Quando alguém usa essa expressão sem estar sofrendo uma interrupção real, ela está exercendo funções que vão muito além da etiqueta:

​1. A Demarcação de Território

​Mesmo quando o espaço de fala está garantido, o falante pode sentir a necessidade de reafirmar o domínio sobre o assunto. O "deixa eu dizer" funciona como uma cerca invisível: "A partir de agora, a verdade que importa é a minha". É um aviso de que o que vem a seguir não é apenas uma opinião, mas um veredito.

​2. A Preparação do Impacto (O "Pausa Dramática")

​Psicologicamente, essa frase serve para criar expectativa. É um recurso retórico para silenciar o ruído mental dos ouvintes e focar a atenção no que será dito. É como se a pessoa estivesse dizendo: "Pare tudo o que você está processando, porque o ponto crucial vem agora."

​3. A "Falsa Modéstia" ou Atenuação de Conflito

​Curiosamente, a expressão pode ser uma tentativa (inconsciente ou não) de suavizar uma fala agressiva ou autoritária. Ao pedir "licença" para falar algo que ela já vai falar de qualquer jeito, o indivíduo tenta parecer menos impositivo, transformando uma imposição em um suposto pedido de consentimento.

​O Paradoxo do Lugar de Fala

​O ponto mais interessante ocorre quando essa expressão é usada por quem já detém o poder na conversa (o chefe, o professor, o especialista).

  • No Silêncio: Se ninguém está impedindo a fala, o "deixa eu dizer" revela uma certa ansiedade do falante em ser validado.
  • Na Hierarquia: Pode ser uma ferramenta de interrupção preventiva. A pessoa "pede" para dizer antes mesmo que alguém pense em questioná-la.
  • Nota: Existe uma diferença clara entre o "deixa eu dizer" de quem é constantemente silenciado (um ato de resistência) e o de quem já tem a voz (um ato de domínio).


    ​O Significado Oculto: Traduzindo a Expressão

    O que a pessoa diz

    O que ela realmente quer dizer

    "Deixa eu dizer..."

    "Preste atenção, o que eu vou falar é definitivo."

    "Deixa eu te falar uma coisa..."

    "Vou corrigir sua percepção agora."

    "Não, mas deixa eu dizer..."

    "Sua premissa está errada e eu vou estabelecer a certa."

    O Caminho já está Livre

    ​A expressão "Deixa eu dizer..." é menos sobre o direito de falar e mais sobre o peso da palavra. É um sinalizador de importância que, ironicamente, revela tanto a força quanto a insegurança de quem fala. Quando a frase aparece em um ambiente onde o caminho já está livre, ela serve como o "toque de trombeta" antes do anúncio real.

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

A Vetements e o Luxo do "Ops!"


Por Enéas Bispo 

A moda de luxo sempre flertou com o absurdo, mas a Vetements acaba de elevar a temperatura — literalmente. A marca, conhecida por transformar o cotidiano banal em fetiche de consumo, lançou uma camisa branca minimalista com uma estampa que simula uma marca de ferro de passar queimado. O preço? Mais de mil dólares.

​O que para qualquer mortal seria motivo de choro e uma ida rápida à seção de panos de chão, na etiqueta da Vetements vira "item de colecionador". Mas a pergunta que não quer calar é: estamos diante de um manifesto artístico ou de um teste de QI para milionários?

​A Estética do Erro: Arte ou Escárnio?

​Para os defensores da marca, a peça é puro suco de ironia pós-moderna. Vivemos em uma era de perfeição digital filtrada; exibir o erro — o "acidente doméstico" — seria uma forma de humanizar a alta moda. É o ready-made de Duchamp aplicado ao guarda-roupa: se o artista diz que o mictório é arte, a marca diz que o descuido é luxo.

​Por outro lado, há quem veja nisso o ápice do vazio criativo. Quando uma marca vende uma simulação de destruição por um valor que pagaria o aluguel de uma família média, o debate deixa de ser estético e passa a ser sociológico.

  • A Provocação: A Vetements sabe que vai gerar memes. O barulho nas redes sociais é o verdadeiro produto.
  • O Marketing de Choque: No mercado de luxo atual, o pior pecado não é ser feio, é ser invisível.

​O Luxo da Conveniência (para quem não limpa a própria casa)

​Existe um componente de classe inegável nessa peça. O "look queimado" só é cool para quem nunca teve que se preocupar com o custo de repor uma camisa de trabalho estragada.

Perspectiva

O que enxerga

O Crítico de Arte

Uma crítica ao perfeccionismo e à efemeridade do consumo.

O Consumidor "Hypebeast"

Um símbolo de status que grita: "Eu entendo a piada interna".

O Público Geral

Um deboche descarado com o valor do dinheiro.


Quem está rindo por último?

​A Vetements não vende camisas; ela vende a reação que você terá ao ver alguém usando essa camisa. Se você achou ridículo, o marketing deles funcionou: você está falando sobre eles.

​No fim das contas, a "camisa queimada" é o espelho perfeito de um mercado que valoriza mais o conceito (ou a audácia) do que a utilidade. Se a moda é uma forma de expressão, essa peça diz claramente: "Eu posso pagar caro para parecer que falhei".

​"A moda é o que você adota quando não sabe quem você é." — E se a sua identidade custa mil dólares e vem com marca de chamuscado, talvez o ferro não tenha queimado apenas o tecido, mas o bom senso coletivo

Galaxy Unpacked 2026: O Nascimento do Smartphone que Pensa e Age por Você


Por Enéas Bispo 

O mundo da tecnologia parou ontem, 25 de fevereiro, em San Francisco. O Galaxy Unpacked 2026 não foi apenas mais um lançamento de hardware; foi o marco zero da Era da IA Agentic. A Samsung apresentou ao mundo a linha Galaxy S26 (S26, S26+ e Ultra) e os novos Buds4, mas a verdadeira estrela não tinha corpo físico: era a inteligência que agora vive dentro deles.

​Se 2024 e 2025 foram os anos em que aprendemos a conversar com chatbots, 2026 é o ano em que o seu celular começa a trabalhar de verdade para você.

​O que é a IA "Agentic" e por que ela muda tudo?

​Até agora, a IA nos nossos bolsos era reativa: você pedia uma tradução, ela traduzia. Você pedia para apagar um objeto na foto, ela apagava.

​Com a linha Galaxy S26 e a integração profunda do Google Gemini, a Samsung introduziu os Agentes Autônomos. A diferença é brutal:

  • Proatividade: O sistema não espera o seu comando para tudo. Ele entende o contexto.
  • Ação Multitarefa: Se você recebe um e-mail sobre um voo atrasado, a IA Agentic pode sugerir (ou até rascunhar) uma remarcação no hotel e avisar seus contatos via WhatsApp, tudo em segundo plano.
  • Execução Real: É a transição do "Diga-me como fazer" para o "Deixe que eu faço por você".

​Os Protagonistas: S26, S26+ e S26 Ultra

​Embora a alma seja o software, o corpo da linha S26 recebeu upgrades de respeito para suportar tamanha demanda de processamento:

Modelo

Destaque Principal

Galaxy S26

Compacto com o novo chip focado em NPU (Processamento de IA).

Galaxy S26+

O equilíbrio perfeito entre bateria gigante e tela imersiva.

S26 Ultra

Chassi em titânio refinado e o sensor de câmera que utiliza IA para prever o movimento do objeto.

Galaxy Buds4: Seus ouvidos com superpoderes

​Os novos fones não servem apenas para música. Eles atuam como a interface de voz dos agentes de IA, com cancelamento de ruído adaptativo que prioriza sons importantes do ambiente de forma inteligente, agindo como um "filtro da realidade".

​O Veredito: O Fim da Era dos Apps?

​Estamos vendo o início de uma mudança de paradigma. A Samsung e o Google estão sinalizando que, no futuro, você não precisará abrir cinco aplicativos diferentes para organizar um jantar. O seu Galaxy S26 será o seu concierge digital.

​O evento em San Francisco deixou claro: a corrida agora não é mais por quem tem mais megapixels, mas por quem tem o assistente mais capaz de tirar tarefas chatas das costas do usuário.

​"O Galaxy S26 não é apenas um smartphone; é o primeiro companheiro digital que realmente entende o valor do seu tempo."

O que você achou dessa nova fase da Samsung? Acha que a IA Agentic vai facilitar sua vida ou te assusta um pouco? Comenta aqui embaixo!


quarta-feira, fevereiro 25, 2026

O Charme Atemporal do Alfa Romeo Giulietta Spider: Um Ícone de Estilo e Engenharia


Por Enéas Bispo 

Se existe um carro que define a elegância italiana dos anos 50 e 60, esse carro é o Alfa Romeo Giulietta Spider. Com suas linhas fluidas e proporções perfeitas, ele não é apenas um veículo, mas uma obra de arte que ajudou a consolidar a Alfa Romeo como a marca preferida de quem buscava performance com sofisticação.

​O Modelo e seu Pedigree

​Lançado originalmente em 1955, o Giulietta Spider (série 750D) nasceu de uma demanda quase exclusiva do mercado americano. Max Hoffman, o lendário importador de carros europeus nos EUA, convenceu a Alfa Romeo de que um roadster baseado no cupê Giulietta Sprint seria um sucesso absoluto.

​O pedigree deste carro é nobre: o design leva a assinatura da Pininfarina. Enquanto o modelo Sprint (cupê) foi desenhado pela Bertone, a versão conversível foi entregue às mãos de Battista "Pinin" Farina, que criou uma carroceria tão harmoniosa que permanece atual até hoje. Sob o capô, ele trazia um motor de 1.3 litros (1290cc) com duplo comando de válvulas no cabeçote — uma joia mecânica para a época.

​Repercussão no Lançamento: O "Queridinho" da Mídia

​Quando chegou ao mercado, a recepção foi eufórica. A mídia especializada da época ficou impressionada com a agilidade do carro. Ao contrário dos roadsters britânicos, que eram conhecidos por serem "brutos", o Giulietta Spider era refinado, dócil e extremamente técnico.

  • Pela Mídia: Revistas como a Road & Track elogiaram a precisão da direção e o som inconfundível do motor Alfa, descrevendo-o como um carro que "parece muito maior e mais potente do que realmente é".
  • Pelos Compradores: Foi um sucesso comercial imediato, especialmente entre a elite de Hollywood e a juventude dourada da Europa. O Spider tornou-se um símbolo de status e liberdade, sendo presença garantida nas estradas da Riviera Francesa e nas colinas de Beverly Hills.

​O Conceito Atual entre Colecionadores

​Hoje, o Giulietta Spider é um dos modelos mais desejados no mercado de antigomobilismo mundial. Hoje, ele ocupa o posto de "Blue Chip" (investimento seguro) entre colecionadores.

  1. Valorização: Exemplares bem conservados ou restaurados seguem em curva de alta. As versões Veloce (mais potentes) são as mais raras e podem ultrapassar facilmente os US$ 100.000 em leilões internacionais.
  2. Experiência de Direção: Diferente de muitos clássicos que são "duros" de dirigir, o Giulietta Spider é valorizado por ser um carro de uso real. É leve, confiável e proporciona uma conexão mecânica pura entre motorista e estrada.
  3. Presença em Eventos: É um convidado de honra em eventos de prestígio, como o Concorso d’Eleganza Villa d’Este e a Mille Miglia.

​Padrão Ouro

​O Alfa Romeo Giulietta Spider é a prova de que o bom design é eterno. Seja pela sua história nas pistas, sua origem nos estúdios da Pininfarina ou pelo simples prazer de dirigir com o vento no rosto, ele continua sendo o padrão ouro para qualquer entusiasta da marca do Biscione.

A Cultura da Eficiência: O Orçamento Base Zero (ZBB) na Ambev


Por Enéas Bispo 

No cenário corporativo global, poucas estratégias de gestão financeira são tão emblemáticas quanto a implementação do Zero-Based Budgeting (ZBB), ou Orçamento Base Zero, pela Ambev. Mais do que uma ferramenta contábil, o ZBB consolidou-se como o pilar de uma cultura organizacional voltada à meritocracia e à disciplina de capital extrema.

​A Lógica do "Reset" Anual

​A premissa do ZBB rompe com o modelo tradicional de orçamento incremental. Enquanto a maioria das companhias projeta seus gastos baseando-se no histórico do ano anterior mais a inflação, a Ambev estabeleceu uma nova métrica: todo custo começa do zero.

​Nesta metodologia, não existem "direitos adquiridos". Se uma área pretende despender R$ 1,00, a liderança deve justificar detalhadamente como esse investimento gera retorno direto para o negócio ou agrega valor ao cliente final.

​O Fim do "Sempre Foi Assim"

​A implementação do ZBB na Ambev serviu como um antídoto contra a inércia corporativa. Argumentos comuns no mercado foram terminantemente banidos do vocabulário da companhia:

  • Vício de Histórico: "Sempre foi feito dessa forma" deixou de ser uma justificativa válida.
  • Benchmarking Passivo: "A concorrência investe assim" perdeu espaço para a análise crítica de ROI (Retorno sobre Investimento).

​A diretriz é clara e pragmática: se a despesa não agrega valor estratégico, o destino é o corte. Sem exceções, sem protecionismos.

​Desafiando o Status Quo do Talento

​A adoção de uma política de custos tão austera não passou sem críticas. Especialistas de mercado questionaram a capacidade da companhia em atrair e reter profissionais de alto nível sob um regime de "escassez planejada" e ausência de benefícios suntuosos.

​A resposta da Ambev a esse ceticismo tornou-se uma lição de marca empregadora:

"O talento de alta performance não é atraído por privilégios periféricos ou excessos corporativos. O talento de verdade busca impacto, autonomia e, acima de tudo, resultado."

​Ao vincular a economia de custos à possibilidade de investimentos agressivos em expansão e bonificações meritocráticas, a companhia inverteu a lógica. Ela não atraiu quem queria conforto, mas sim quem desejava ser dono do negócio.

​Eficiência como Vantagem Competitiva

​O ZBB transformou a eficiência operacional em uma vantagem competitiva sustentável. Ao manter a estrutura enxuta, a Ambev garantiu agilidade para investir onde realmente importa: inovação, logística e mercado. A lição que fica para o ecossistema corporativo é que o rigor financeiro, quando alinhado a uma cultura forte, não limita o crescimento — ele o potencializa.

terça-feira, fevereiro 24, 2026

O Universo é um Garçom Mudo: Ele apenas anota o pedido e entrega


Por Enéas Bispo 

Imagine que você entra em um restaurante luxuoso, senta-se à mesa e o garçom se aproxima. Ele não sugere o prato do dia, não questiona suas escolhas e não julga se você está pedindo algo nutritivo ou um banquete de calorias vazias. Ele apenas posiciona o bloco de notas, observa sua intenção e se retira para a cozinha.

​Essa é a metáfora perfeita para a nossa relação com a realidade. Frequentemente, tratamos o universo como um juiz severo ou um mestre benevolente, mas a verdade é mais pragmática: o universo é um garçom mudo.

​O Bloco de Notas da Intenção

​O "pedido" que fazemos ao universo não é composto apenas por palavras sopradas ao vento ou orações formais. O garçom mudo lê uma linguagem mais profunda: a frequência da sua intenção.

  • O que você foca, expande: Se você passa o dia reclamando da escassez, o garçom anota "escassez" e volta com uma bandeja cheia de boletos e imprevistos.
  • A clareza é a moeda: Pedir "qualquer coisa" no menu da vida resulta em experiências genéricas e insatisfatórias. O universo não interpreta ambiguidades; ele replica padrões.

​A Cozinha da Manifestação

​Diferente de um serviço de fast-food, a entrega do universo segue o tempo de preparo da "cozinha cósmica". Muitas vezes, o pedido demora porque estamos pedindo algo complexo que exige uma reestruturação da nossa própria realidade.

​O erro comum é cancelar o pedido por impaciência. Quando você começa a duvidar ("Isso nunca vai acontecer"), o garçom risca o pedido anterior e anota o novo: "O cliente prefere a frustração". E é exatamente isso que ele entrega.

​As Regras do Restaurante Cósmico

​Para dominar a arte de fazer pedidos, é preciso entender a etiqueta desse estabelecimento:

Etapa

Ação do Cliente

O Papel do Universo

O Pedido

Definir metas com clareza e emoção.

Anotação passiva (sem julgamento).

A Espera

Manter a postura de quem já sabe que o prato vem.

Organização das sincronicidades.

A Entrega

Estar presente e atento para receber.

Entrega exata do que foi vibrado.

Cuidado com o que você murmura

​O garçom mudo tem uma audição impecável para o seu diálogo interno. Se você diz "Eu quero ser rico", mas sua mente murmura "Eu sou incapaz", o garçom anota a vibração da incapacidade, pois ela é a mais honesta.

​O universo não distingue entre o que você quer e o que você é. Ele simplesmente espelha o seu estado de ser atual. Se você se sente abundante agora, ele traz mais abundância. Se você se sente injustiçado, ele traz mais motivos para a indignação.

​"O universo não responde ao que você deseja, ele responde ao que você ressoa."

​Causa e Efeito 

​Entender que o universo é um garçom mudo retira de nossos ombros o peso do vitimismo. Não há ninguém "lá fora" tentando te punir ou te sabotar. Existe apenas uma mecânica de causa e efeito, onde a sua atenção é o formulário de pedido.

​Ao fechar este artigo, olhe para a sua vida atual. Ela é o prato que está sobre a sua mesa agora. Se o sabor não te agrada, não adianta reclamar com o garçom — ele apenas cumpriu a ordem. Respire fundo, mude a vibração e faça um novo pedido.

domingo, fevereiro 22, 2026

Há um Pomar Escondido no Coração da Semente: A Metáfora do Potencial Latente


Por Enéas Bispo 

O universo, em sua infinita complexidade, revela seus maiores mistérios nas formas mais diminutas. A frase poética, imortalizada pelo poeta Raimundo Asfora, "E há um pomar escondido no coração da semente", não é apenas uma imagem lírica; é uma profunda metáfora filosófica que personifica a essência do potencial latente, da promessa de abundância e do processo inexorável de transformação. Este ensaio propõe-se a desdobrar o significado desta poderosa imagem, explorando-a como um paradigma para o desenvolvimento humano, a concretização de projetos e a natureza da esperança.

A Realidade Biológica como Paradigma Filosófico

A semente, em sua materialidade, é o ponto de partida literal para o pomar. Biologicamente, ela contém o código genético completo, o projeto arquitetônico de toda a árvore, dos frutos e, por extensão, do pomar inteiro. O contraste entre a casca dura e inerte e a vasta complexidade que ela abriga é a primeira lição da metáfora: o potencial é frequentemente desproporcional ao seu invólucro inicial. O pomar não é algo que será adicionado à semente; é algo que está contido nela, aguardando as condições ideais para se manifestar.

"Mas como existe remédio no veneno da serpente na virgem flor inocente há um desejo contido. E há um pomar escondido no coração da semente."
— Raimundo Asfora 

O pomar, neste contexto, simboliza a plenitude e a realização. É a visão de futuro que justifica o esforço presente. A semente, por sua vez, é o presente humilde, a ideia embrionária, o primeiro passo. A existência do pomar não é uma possibilidade remota, mas uma certeza programada, desde que o processo de germinação seja iniciado. Este processo exige um ato de rendição e sacrifício por parte da semente, que precisa se romper e se desfazer de sua forma original para que a vida contida possa emergir.

O Pomar como Metáfora do Potencial Humano

Transpondo a imagem biológica para a esfera da existência humana, a semente representa o indivíduo em seu estado inicial, carregado de talentos, capacidades e um propósito único. Cada pessoa, independentemente de sua origem ou circunstância atual, carrega em si a "semente" de uma vida plena, de um "pomar" de realizações.O desafio reside na manifestação desse potencial. O pomar não brota por mágica; ele requer o cultivo. As condições externas — o solo, a água e o sol — encontram seus análogos no ambiente humano:

Elemento do Cultivo
▪︎Semente
▪︎Solo Fértil 
▪︎Água 
▪︎Luz do Sol
▪︎Tempo

Análogo no Desenvolvimento Humano

▪︎Potencial Inato, Talento
▪︎Ambiente, Cultura, Família, Sociedade
▪︎Conhecimento, Aprendizado Contínuo
▪︎Propósito, Visão, Esperança
▪︎Persistência, Paciência, Processo

Significado

▪︎O projeto de vida, o DNA de quem se pode ser.
▪︎O contexto que nutre ou sufoca o crescimento.
▪︎A nutrição essencial que permite a expansão.
▪︎A energia e o foco que direcionam o crescimento.
▪︎A maturação necessária para que o fruto apareça.

Observe: A ausência de qualquer um desses elementos pode impedir a germinação, transformando o potencial em esterilidade. O pomar escondido exige ação deliberada e autocuidado para que a semente não permaneça apenas uma promessa, mas se torne uma realidade palpável.

A Esperança e a Transformação

Finalmente, a metáfora da semente é um poderoso símbolo de esperança e fé no futuro. Plantar uma semente é um ato de otimismo radical, pois implica a crença de que, apesar da incerteza e da pequenez do começo, a abundância virá. A semente não tem garantia de que o pomar se concretizará — ela pode ser comida, o solo pode ser pobre, a chuva pode falhar —, mas ela age com base na promessa contida em seu núcleo.

Em um mundo que frequentemente valoriza o resultado imediato e visível, a semente nos ensina a respeitar o processo invisível. O trabalho mais importante ocorre no escuro, sob a terra, onde a semente se desintegra para dar lugar à raiz. A verdadeira transformação é silenciosa e interna, preparando a estrutura para o crescimento que será visto por todos.

O "pomar escondido no coração da semente" é, portanto, um chamado à introspecção e à ação. É um convite para reconhecermos o vasto potencial que carregamos e para nos comprometermos com o cultivo das condições necessárias para a sua manifestação. O pomar não é um destino distante, mas a consequência inevitável de uma semente que ousou se romper e crescer.

Referências:
Asfora, R. (2015). Há um pomar escondido no coração da semente. Blog da Apoesc. Disponível em: http://apoesc.blogspot.com/2015/08/ha-um-pomar-escondido-no-coracao-da.html

sábado, fevereiro 21, 2026

BYD - A Gigante Invisível que Fabrica de iPhones a Trens e Semicondutores


Por Enéas Bispo 

Se você pensa que a BYD é "apenas mais uma marca de carros elétricos", você está vendo apenas a ponta do iceberg. Enquanto o mundo observa seus sedãs e SUVs dominarem as ruas, nos bastidores, a gigante chinesa opera como um dos maiores e mais complexos conglomerados de tecnologia do planeta.

​Com uma força de trabalho que já ultrapassa 900 mil funcionários globalmente — incluindo um exército de mais de 145 mil engenheiros — a BYD não compra tecnologia; ela a cria.

​1. O "Cérebro" por Trás do seu Smartphone

​Muitos não sabem, mas a divisão BYD Electronics é uma das maiores fabricantes de componentes eletrônicos do mundo. A empresa é uma peça-chave na cadeia de suprimentos da Apple, sendo responsável pela montagem de iPads e componentes de iPhones. Além da Apple, marcas como Samsung, Xiaomi e Huawei dependem das linhas de produção da BYD para dar vida aos seus dispositivos.

​2. Independência em Semicondutores

​Em um mundo que sofreu com a escassez de microchips, a BYD saiu na frente. Através da BYD Semiconductor, a empresa projeta e fabrica seus próprios chips de potência (IGBT), sensores e circuitos integrados. Essa autonomia permite que a marca continue produzindo mesmo quando outras montadoras globais precisam paralisar suas fábricas por falta de componentes.

​3. O Ecossistema de Energia "Do Sol ao Carro"

​A BYD é a única empresa do mundo que domina todo o ciclo da energia limpa:

  • Geração: Produz painéis solares de alta eficiência.
  • Armazenamento: Líder mundial em baterias de ferro-lítio (LFP), incluindo a famosa tecnologia Blade Battery.
  • Mobilidade: De patinetes a caminhões pesados, passando por ônibus elétricos e empilhadeiras.

​4. Além do Asfalto: O SkyRail

​A mobilidade urbana da BYD também flutua. O SkyRail é o sistema de monotrilho da empresa, projetado para resolver o trânsito em metrópoles. No Brasil, essa tecnologia já está sendo implementada em projetos como o VLT de Salvador e a Linha 17-Ouro de São Paulo.

​5. O Brasil como Hub Estratégico

​A chegada da BYD ao Brasil não é apenas comercial. Com a inauguração do complexo industrial em Camaçari (BA) em 2025, a empresa transformou o antigo polo da Ford em uma "Fábrica dos Sonhos", com capacidade para gerar até 20 mil empregos e produzir veículos híbridos e elétricos adaptados ao mercado nacional (incluindo tecnologia flex).

Setor de Atuação

O que a BYD produz

Eletrônicos

Montagem de iPhones, iPads e componentes para Samsung/Xiaomi.

Energia

Painéis solares e sistemas de armazenamento doméstico/industrial.

Transporte

Carros, ônibus, caminhões e monotrilhos (SkyRail).

Tecnologia

Semicondutores, sistemas de IA e baterias de última geração.

Tá Tudo Dominado

​A BYD não quer apenas vender carros; ela quer controlar a infraestrutura do futuro. Ao dominar a fabricação de chips, a química das baterias e a montagem de eletrônicos de consumo, ela se tornou um ecossistema quase impossível de ser ignorado pela concorrência.

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Tatiana Sampaio: A Cientista por trás da Descoberta Que Pode Devolver Movimentos a Humanos


Por Enéas Bispo*

Por décadas, a medicina operou sob um dogma quase imutável: lesões na medula espinhal eram definitivas. Uma vez rompidos os circuitos nervosos que conectam o cérebro ao resto do corpo, a paralisia era considerada um caminho sem volta. No entanto, o trabalho incansável da bióloga brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está reescrevendo essa história.

​Sua descoberta — a polilaminina — não é apenas um avanço acadêmico; é uma promessa de autonomia para milhões de pessoas em todo o mundo.

​A Persistência de 30 Anos

​A trajetória de Tatiana Sampaio é um exemplo de "ciência de longo prazo". Há cerca de 30 anos, ela iniciou seus estudos sobre as lamininas, proteínas fundamentais que compõem a matriz extracelular (a "cola" que sustenta nossas células). Na época, descobriu quase por acaso que uma forma específica dessa proteína, extraída da placenta humana, possuía propriedades regenerativas únicas.

​O desafio era imenso: como transformar uma proteína instável em algo que pudesse ser aplicado no corpo humano? Tatiana conseguiu sintetizar em laboratório a polilaminina, uma versão organizada da proteína que funciona como uma "ponte" ou um "andaime" para neurônios.

​Como Funciona a Polilaminina?

​Diferente de outras abordagens que tentam usar células-tronco de forma isolada, a polilaminina foca no ambiente da lesão. Quando ocorre um trauma na medula, o corpo cria uma cicatriz que impede os neurônios de se reconectarem.

​A polilaminina, aplicada via injeção diretamente no local da lesão, atua de três formas principais:

  1. Guia para Neurônios: Ela cria uma malha física que orienta os axônios (as extensões dos neurônios) a crescerem na direção correta.
  2. Redução da Inflamação: Ela modula o ambiente químico da lesão, diminuindo a barreira inflamatória que impede a cura.
  3. Estímulo Celular: Ela "avisa" aos neurônios maduros — que normalmente não cresceriam mais — que é hora de se regenerarem.

​Resultados que Impressionam o Mundo

​Embora a ciência exija cautela, os resultados práticos obtidos até agora são emocionantes. Em casos de uso experimental e judicial, pacientes com lesões graves (paraplégicos e tetraplégicos) apresentaram melhoras significativas.

​Relatos indicam que alguns pacientes recuperaram o controle do tronco, sensibilidade em órgãos internos (como a bexiga) e até movimentos parciais de membros que estavam paralisados há anos. No início deste mês (fevereiro), a Anvisa autorizou o início oficial da Fase 1 dos estudos clínicos em humanos, um marco histórico que valida a segurança da substância e abre caminho para sua futura comercialização.

​Ciência Brasileira: Entre o Brilho e a Resistência

​A história de Tatiana Sampaio também é um manifesto sobre a importância da ciência nacional. A pesquisa foi desenvolvida nos laboratórios da UFRJ, em parceria com o laboratório farmacêutico brasileiro Cristália e com apoio de agências como a FAPERJ.

​Apesar do sucesso, a cientista frequentemente destaca as dificuldades enfrentadas, como a perda de patentes internacionais por falta de verbas em períodos de cortes na educação. Sua resiliência, contudo, manteve o projeto vivo. Aos 59 anos, Tatiana é hoje um dos nomes mais fortes para representar o Brasil em premiações internacionais de peso, como o Prêmio Nobel, devido ao impacto humanitário de sua descoberta.

​O Futuro da Medicina Regenerativa

​Com o início dos testes clínicos coordenados pela UFRJ, a expectativa é que a polilaminina possa, em poucos anos, tornar-se um tratamento padrão. Além das lesões medulares, o potencial da substância para tratar outras doenças do sistema nervoso, como o Mal de Parkinson ou o Alzheimer, já começa a ser vislumbrado no horizonte científico.

​Tatiana Sampaio não descobriu apenas uma molécula; ela devolveu o direito de sonhar a quem acreditava que nunca mais voltaria a sentir o próprio corpo. Sua descoberta prova que, com investimento e dedicação, a ciência brasileira tem o poder de mudar o curso da humanidade.

​*Este artigo destaca o impacto da pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, cujo trabalho foi destaque na Forbes Mulher.

quarta-feira, fevereiro 18, 2026

O Abismo entre o Código e o Direito


Por Enéas Bispo 

☂Existe uma crença comum de que o Direito e a Moral caminham de mãos dadas, mas a história e a prática jurídica nos mostram o contrário. Lei é norma posta; Justiça é valor. Enquanto a primeira é um instrumento de controle social criado pelo Estado, a segunda é um ideal ético que busca dar a cada um o que lhe é devido.

​Quando o Estado falha em alinhar esses dois conceitos, ele não apenas comete erros técnicos, mas perpetra injustiças institucionalizadas.

​O Estado e o Erro Institucionalizado

​O erro estatal ocorre quando a máquina pública prioriza a forma (o cumprimento seco da lei) em detrimento do conteúdo (o bem comum e a equidade). Muitas vezes, o Estado utiliza a legalidade como um escudo para justificar atos de opressão, ineficiência ou desigualdade.

  • Punitivismo Seletivo: Leis que são aplicadas com rigor para certas camadas sociais e ignoradas para outras.
  • Burocracia como Barreira: Normas que impedem o acesso a direitos fundamentais, como saúde e moradia, sob o pretexto de "falta de previsão orçamentária".

​Exemplos de "Leis Injustas" pelo Mundo

​Ao redor do globo, governos já utilizaram — e ainda utilizam — a lei para validar atrocidades. Aqui, a lei foi a ferramenta do crime estatal:

  1. Leis de Nuremberg (Alemanha Nazista): Eram leis perfeitamente válidas dentro do ordenamento jurídico da época, mas que institucionalizaram o racismo e o extermínio. Provam que algo ser "legal" não o torna remotamente aceitável.
  2. Apartheid (África do Sul): Um sistema de segregação racial sustentado por um robusto arcabouço legislativo que determinava onde as pessoas poderiam morar e trabalhar com base na cor da pele.
  3. Leis de Tutela Masculina (Arábia Saudita): Durante décadas, leis restringiram (e algumas ainda restringem) o direito de ir e vir das mulheres, exigindo permissão de um tutor masculino para atos básicos da vida civil.

​O Cenário Brasileiro: A Lei que Exclui

​No Brasil, o descompasso entre lei e justiça frequentemente se manifesta na desigualdade estrutural:

  • O Auxílio-Reclamação vs. O Salário Mínimo: Enquanto a Constituição Federal prega a dignidade da pessoa humana, temos um sistema de benefícios e "penduricalhos" para a elite do funcionalismo público que contrasta com a realidade da maioria da população. É legal, mas é justo?
  • A Lei de Drogas (Lei 11.343/2006): Embora o texto não defina uma quantidade exata para diferenciar usuário de traficante, a aplicação da lei acaba sendo subjetiva. Na prática, a mesma quantidade de substância pode tornar um jovem rico "usuário" e um jovem periférico "traficante". O critério legal é vago, gerando uma injustiça sistêmica.
  • Despejos e Direito à Propriedade: Muitas vezes, a lei protege a propriedade nua e crua de terrenos improdutivos em detrimento do direito social à moradia de famílias vulneráveis, gerando conflitos onde a legalidade vence, mas a justiça social perde.

​O Papel da Sociedade

​A justiça deve servir como o filtro crítico da lei. Um magistrado ou um cidadão que segue a lei de forma cega, ignorando as consequências humanas e éticas, torna-se cúmplice de um sistema mecânico. Como disse o jurista Gustav Radbruch após a Segunda Guerra: "A lei extremamente injusta não é lei".

​O erro do Estado começa no momento em que ele esquece que a lei deve ser um meio para alcançar a justiça, e não um fim em si mesma.