sexta-feira, outubro 09, 2026

As coisas que deixei por resolver


Por Enéas Bispo 

Há coisas que deixei por resolver e que, de vez em quando, voltam a bater à porta da memória. Conversas que não tive, palavras que engoli, despedidas que adiei, sentimentos que não compreendi a tempo e decisões que fui empurrando para um amanhã que nunca parecia chegar. Há também sonhos que ficaram pela metade, caminhos que abandonei sem entender muito bem por quê e pessoas às quais talvez eu devesse ter dito mais alguma coisa — ou simplesmente ter dito adeus.

Com o tempo, aprendi que nem tudo o que fica pendente precisa ser retomado. Algumas questões merecem uma resposta; outras, apenas a coragem de aceitar que não a teremos. Existem portas que ainda podemos abrir, mas há aquelas diante das quais precisamos aprender a não permanecer eternamente. Resolver nem sempre significa consertar, recuperar ou voltar atrás. Às vezes, significa reconhecer o que aconteceu, assumir a nossa parte, perdoar o que for possível e seguir sem carregar a obrigação de mudar o passado.

Talvez a maturidade consista justamente nisso: olhar para a própria história sem fugir dos capítulos inacabados. Admitir os erros sem fazer deles uma sentença, reconhecer as omissões sem transformar a culpa em morada e compreender que a vida não nos concede tempo suficiente para concluir tudo perfeitamente. Algumas coisas ficarão sem resposta, algumas pessoas seguirão sem saber o que significaram para nós, e algumas versões de quem fomos jamais terão a oportunidade de se explicar.

Ainda assim, é preciso seguir. Não porque tudo esteja resolvido, mas porque a vida continua acontecendo enquanto tentamos encontrar as respostas. E não quero chegar ao futuro tão ocupado com aquilo que deixei para trás que me esqueça de viver o que ainda está diante de mim.


Há pendências que pedem coragem para serem enfrentadas. Outras pedem serenidade para serem encerradas dentro de nós. O importante é aprender a distinguir umas das outras.

Afinal, não preciso resolver tudo o que passou para merecer a paz. Preciso apenas deixar de fugir daquilo que ainda posso transformar e encontrar sabedoria para aceitar aquilo que já não depende de mim.

quinta-feira, outubro 08, 2026

Jovem de Serra Branca toma posse como Analista Judiciário no TRT-2 em São Paulo


Por Enéas Bispo 

Há trajetórias que nascem de grandes oportunidades. Outras, como a de Pablo Santos de Holanda, são esculpidas passo a passo, entre livros, disciplina e a certeza de que o estudo é um caminho possível. Nesta quinta-feira, 8 de outubro, o jovem paraibano de 24 anos tomará posse como Analista Judiciário no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2), em São Paulo, depois de ser aprovado em concurso público na 24ª posição.

Nascido em Campina Grande em 11 de março de 2002, Pablo foi criado desde os primeiros anos de vida em Serra Branca, no Cariri paraibano. Foi ali, na Escola Estadual Senador José Gaudêncio, que deu os primeiros passos de uma caminhada acadêmica que mais tarde o levaria à capital do estado e, agora, à maior metrópole do país.

Exemplos que moldam destinos

Filho de Jaqueline Wedna dos Santos Ventura e Luiz Gonzaga de Holanda Neto, Pablo cresceu cercado por referências de determinação e compromisso com o serviço público. Sua mãe e seu avô, policial federal, foram a bússola que o fez enxergar nos estudos e nos concursos públicos uma estrada para construir o próprio futuro.

Ele atribui parte decisiva de sua história a esses exemplos domésticos, em especial ao da mãe, para quem a dedicação, o estudo e uma carreira erguida com esforço poderiam abrir caminho a uma vida digna e a novas oportunidades.

Entre a sala de aula e o serviço público

Concluída a educação básica, Pablo ingressou no curso de Direito da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa. Foi na graduação que sua história ganhou um capítulo precoce e marcante: antes mesmo de se formar, prestou o primeiro concurso público da vida e foi aprovado para técnico administrativo, tornando-se servidor público federal aos 21 anos.

Em vez de escolher entre a universidade e o trabalho, decidiu abraçar ambos. Dividiu a rotina entre aulas, provas, compromissos profissionais e noites de estudo, e colheu o resultado: concluiu o curso de Direito em 2025. Sem pausa para o descanso, seguiu para uma pós-graduação em Direito do Trabalho, ainda em andamento.

Um novo capítulo na capital paulista


A aprovação no TRT-2 coroa esse percurso e inaugura uma nova etapa. A mudança para São Paulo representa mais do que uma conquista profissional: é a travessia de um jovem que saiu do interior da Paraíba e, por meio do estudo, da disciplina e do trabalho, foi conquistando espaço em instituições públicas de peso.

Da pequena Serra Branca aos corredores de uma das maiores instituições da Justiça do Trabalho do país, a história de Pablo é, sobretudo, a de quem aprendeu cedo que grandes conquistas começam com pequenos passos.

Aos 24 anos, com a graduação concluída, a pós-graduação em curso, a experiência como servidor federal e uma nova carreira prestes a começar, Pablo leva na bagagem as raízes de sua terra e os ensinamentos da família. Em São Paulo, inicia mais uma etapa de uma trajetória que ainda tem muitos capítulos pela frente.

domingo, outubro 04, 2026

Anna Lorena é a juventude do Cariri que chega com força à Assembleia Legislativa da Paraíba


Texto/Foto: Enéas Bispo 

Hoje em que o sol do sertão aquecia as urnas e o povo do Cariri se mobilizava em todas as cidades, Anna Lorena Leite Nóbrega Lago, a Lorena de 39 anos, escreveu uma página nova na história política da Paraíba. Com  46 mil votos, a ex-prefeita de Monteiro conquistou uma das 36 cadeiras da Assembleia Legislativa. O número 11211 do Progressistas (PP) ecoou como um grito de representatividade: pela primeira vez, o Cariri envia uma mulher ao Legislativo estadual.

Nascida em 18 de junho de 1987 em Monteiro, Anna Lorena carrega no sangue a força da sua terra  e a teimosia de quem cresceu ouvindo que política se faz com a mão estendida. Ainda jovem, organizava arrecadações de bombons para o Dia das Crianças e se envolvia em movimentos comunitários. A passagem pela Secretaria de Assistência Social foi o divisor de águas: “Fazer política é dar a mão às pessoas para que a vida delas fique menos difícil”, costuma dizer. Em 2012, estreou como vereadora pelo PSDB. Em 2016, aos 29 anos, venceu a prefeitura de Monteiro com 11.399 votos. Em 2020, reeleita pelo PL com 11.533 votos, consolidou oito anos de gestão marcados por contas aprovadas por unanimidade no TCE-PB e por uma administração que priorizou saúde, educação e desenvolvimento regional.

Advogada, casada, mãe, ela trouxe para a campanha de 2026 a experiência de quem já administrou o maior município do Cariri e a ousadia de quem tem energia e juventude. Alinhada ao grupo do governador reeleito Lucas Ribeiro (PP), percorreu o interior defendendo saúde, desenvolvimento regional, educação e políticas para as minorias. Em cada visita — seja ao potencial turístico do Congo ou às ruas de Campina Grande no grande adesivaço de largada —, repetia: “Serei a primeira mulher do Cariri a ser deputada estadual”. E cumpriu.​

A vitória tem peso simbólico e prático. O Cariri, região historicamente sub-representada no Legislativo Estadual, ganha voz própria e feminina. Para a Paraíba, é mais um passo na renovação geracional e na valorização do interior. Em um Estado onde as grandes decisões ainda concentram-se  nos centros urbanos maiores, Anna Lorena chega como ponte: entre o Cariri e a capital, entre a gestão municipal e as leis estaduais, entre a juventude que sonha e a experiência que executa.

Hoje quando votou na UEPB Campus VI, em Monteiro, acompanhada do marido Felipe Lago e das filhas, ela falou das bandeiras que levará para João Pessoa. Agora, com a cadeira conquistada, o Cariri paraibano tem motivo para celebrar: uma de suas filhas mais jovens e determinadas sobe os degraus do Parlamento Paraibano não apenas para ocupar um espaço, mas para abrir caminhos.

quinta-feira, outubro 01, 2026

Morre Lito Sousa, o piloto e influenciador que ensinou o Brasil a voar sem medo


Por Enéas Bispo 

O especialista em aviação e youtuber Lito Sousa, nome artístico de Joselito Geraldo de Sousa, morreu nesta quinta-feira (1º de outubro de 2026), aos 59 anos, em São Paulo. A informação foi confirmada por sua esposa, Mila Seidl, em publicação nas redes sociais.

Conhecido pelo canal Aviões e Músicas, Lito conquistou milhões de seguidores ao explicar, de forma acessível e didática, o funcionamento de aeronaves e temas de segurança aérea. Seu trabalho ajudou a reduzir o medo de voar de muita gente e se tornou referência no Brasil.

Em julho de 2026, ele havia revelado o diagnóstico de câncer de próstata. Poucas semanas depois, em agosto, a família anunciou que exames confirmaram a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma enfermidade neurodegenerativa rara, progressiva e sem cura. Lito passou a receber cuidados paliativos em casa.

Nas redes, a esposa publicou uma despedida emocionada: “Um grande abraço e até o próximo voo. Foi uma honra ter viajado com você. Te amo. Sempre.”

Lito deixa um legado de conhecimento, clareza e paixão pela aviação. O Brasil inteiro se despede do grande comandante.

Família Oliveira: Paz, Raiz e a Herança de Atravessar Gerações


Por Enéas Bispo 

Alguns sobrenomes vão muito além de uma simples forma de identificação civil. Eles guardam memórias, revelam origens e carregam os sinais silenciosos daquilo que atravessa séculos. Entre as linhagens que mais profundamente traduzem essa conexão com o tempo e a terra, destaca-se a família Oliveira.

As Raízes na Tradição Ibérica

Com raízes profundamente fincadas em Portugal e na tradição ibérica, o sobrenome Oliveira nasceu da ligação intrínseca com a oliveira — árvore emblemática que molda a paisagem mediterrânea. Mais do que uma vegetação típica, a oliveira sempre foi enxergada como um símbolo vivo de cultivo, ligação com a terra e continuidade.

Simbolismo: Paz,Permanência e Fruto

Historicamente, a oliveira carrega um valor simbólico singular: ela é a representação da paz, da permanência e da fartura dos frutos. Por essa razão, carregar o sobrenome Oliveira evoca a essência das famílias que sabem criar raízes fortes, resistir às intempéries do tempo e preservar sua herança com honra.

Jornadas Sem Fronteiras

Ao longo dos séculos, ao cruzar fronteiras e mares para novos continentes, as famílias Oliveira levaram na bagagem mais do que pertences materiais; levaram o seu nome, a sua memória e um profundo sentimento de pertencimento. Da terra natal para o mundo, o sobrenome permaneceu inabalável como um verdadeiro farol de origem e herança familiar.

A Memória Transformada em Arte

Toda essa trajetória e profundidade simbólica inspiram releituras visuais e artísticas. A história do sobrenome ganha vida por meio de símbolos autorais que unem a beleza da oliveira aos valores centrais da família: Paz, Raiz e Legado. Essa é uma narrativa viva que continua sendo contada e honrada a cada nova geração.

terça-feira, setembro 29, 2026

O Mecanismo da Utopia


Por Enéas Bispo

No pulso, ele não marca apenas o transcorrer do tempo; marca uma era inteira sintetizada em latão, vidro e acrílico. Um círculo vermelho denso, da cor das bandeiras que um dia hastearam a promessa de um mundo moldado pelo suor e pela engrenagem.

​Ao olhar para a esfera do relógio, o ponteiro das horas se revela um raio estilizado, cortando os minutos com a imponência do progresso elétrico e da indústria. Já o ponteiro maior curva-se no formato exato de uma foice, cruzando-se a cada hora com as espigas de trigo douradas que se erguem no canto esquerdo. É a física da precisão relojoeira a serviço da iconografia do trabalho: o campo e a fábrica, o grão e a faísca, girando em ciclo perpétuo sobre o veludo escarlate do mostrador.

Há uma poesia quase melancólica nesse mecanismo de corda manual. Enquanto o calibre tic-taca sob a caixa cromada, lembra-nos de que o tempo soviético não era medido apenas em segundos, mas em planos quinquenais, colheitas coletivas e na marcha cadenciada do trabalho. Dar corda a este relógio é um ritual de reconexão: a cada volta na coroa, tensiona-se a mola de um tempo que pretendia ser eterno, mas que acabou guardado em vitrines de colecionadores e gavetas de memória.

​Ver a foice e o raio se encontrarem às doze horas é testemunhar a pontualidade de uma utopia congelada no pulso. O relógio continua a andar, indiferente ao fim do império que o projetou, provando que enquanto os regimes passam, a beleza do design e o curso do tempo permanecem inabaláveis.

A Teoria dos Jogos: Uma Análise Abrangente de Seus Conceitos, Funcionamento e Aplicações no Cotidiano


Por Enéas Bispo 

A Teoria dos Jogos é um campo fascinante da matemática aplicada que se dedica ao estudo de situações estratégicas, nas quais o resultado de uma escolha individual depende não apenas da própria ação, mas também das ações de outros participantes.

Desenvolvida inicialmente para compreender fenômenos econômicos e estratégias militares, sua aplicabilidade expandiu-se para uma vasta gama de áreas, incluindo biologia, ciência da computação, filosofia e, de forma crescente, para a análise de interações do dia a dia.

Este ensaio explora os fundamentos da Teoria dos Jogos, seu funcionamento e como seus princípios podem ser observados e aplicados na vida cotidiana.

O Que é a Teoria dos Jogos?

A Teoria dos Jogos pode ser definida como o estudo de modelos matemáticos de conflito e cooperação entre tomadores de decisão racionais e inteligentes. Em sua essência, ela analisa como indivíduos ou grupos, denominados "jogadores", tomam decisões em ambientes onde o resultado de suas escolhas é interdependente. O termo "jogo" refere-se a qualquer situação em que o resultado é determinado pelas ações conjuntas de dois ou mais jogadores.

Wikipédia, a Teoria dos Jogos "estuda situações estratégicas onde jogadores escolhem diferentes ações na tentativa de melhorar seu retorno". A teoria ganhou proeminência com a publicação, em 1944, da obra "Theory of Games and Economic Behavior", de John von Neumann e Oskar Morgenstern, que estabeleceu as bases para a análise de jogos de soma zero e sua aplicação na economia.

Conforme a enciclopédia livre um dos conceitos mais célebres associados à Teoria dos Jogos é o Equilíbrio de Nash, desenvolvido pelo matemático John Nash. Um Equilíbrio de Nash ocorre quando cada jogador escolhe a melhor estratégia possível, dadas as estratégias escolhidas pelos outros jogadores. Nesse ponto, nenhum jogador tem incentivo para mudar sua estratégia unilateralmente.

Como Funciona a Teoria dos Jogos?

O funcionamento da Teoria dos Jogos baseia-se na modelagem de situações interativas, identificando os jogadores, suas estratégias disponíveis e os resultados (ou payoffs) associados a cada combinação de estratégias. A análise busca prever o comportamento dos jogadores e o resultado provável do jogo.

Um artigo da Suno sobre o tema explica que "a chave para a teoria dos jogos é que a recompensa de um jogador depende da estratégia implementada por outro jogador". 

Isso significa que, ao tomar uma decisão, um jogador racional deve antecipar as possíveis reações dos demais. Por exemplo, se uma empresa decide baixar os preços para ganhar mercado, ela deve considerar a probabilidade de seus concorrentes fazerem o mesmo, o que poderia anular a vantagem inicial.

Os jogos podem ser classificados de diversas formas, sendo as principais distinções:

Clique no infografico para ampliá-lo

O famoso Dilema do Prisioneiro é um exemplo clássico de um jogo simultâneo de informação imperfeita, que ilustra como a busca pelo interesse próprio pode levar a um resultado pior para todos os envolvidos.

Aplicações da Teoria dos Jogos no Viver Cotidiano

A Teoria dos Jogos não se restringe a modelos abstratos ou a grandes decisões corporativas e militares. Seus princípios podem ser observados em inúmeras situações do cotidiano, desde negociações salariais até a escolha de um caminho no trânsito.

Um artigo da Forbes Brasil destaca que a aplicação da Teoria dos Jogos na vida profissional deve ser feita com moderação e empatia.  O  autor sugere que, em vez de tentar "vencer" cada interação, o objetivo deve ser entender o "jogo" para jogá-lo da melhor forma possível, buscando resultados que beneficiem a todos . Por exemplo, ao negociar um projeto em equipe, entender as motivações e os objetivos de cada colega pode levar a uma solução cooperativa que maximize o sucesso do projeto como um todo, em vez de focar em ganhos individuais.

Outras aplicações práticas incluem:

● Negociações: Seja em uma negociação salarial, na compra de um carro ou em um acordo comercial, entender a perspectiva da outra parte e antecipar suas reações é fundamental para alcançar um resultado favorável.

● Relacionamentos: As interações sociais podem ser vistas como jogos cooperativos, onde a comunicação e a confiança são essenciais para construir relacionamentos saudáveis e duradouros.

● Trânsito: Ao escolher uma rota, os motoristas estão participando de um jogo complexo. Uma rota que parece mais rápida pode ficar congestionada se muitos motoristas fizerem a mesma escolha. A decisão ótima depende das escolhas dos outros.

● Esportes: Em qualquer esporte competitivo, a estratégia é fundamental. Um time de futebol, por exemplo, deve antecipar a formação e as táticas do adversário para definir sua própria estratégia de jogo.

Equilíbrio, Empatia e Bom Senso

A Teoria dos Jogos oferece uma lente poderosa para analisar e compreender as interações humanas em uma variedade de contextos. Ao modelar situações estratégicas e prever o comportamento de indivíduos racionais, ela nos ajuda a tomar decisões mais informadas e a antecipar as consequências de nossas ações. Embora sua aplicação no cotidiano deva ser equilibrada com empatia e bom senso, os princípios da Teoria dos Jogos podem nos tornar mais conscientes das dinâmicas sociais e mais eficazes em nossas interações, seja no ambiente de trabalho, em nossas relações pessoais ou em simples decisões do dia a dia.

sábado, setembro 26, 2026

Canetas Emagrecedoras: O Outro Lado da Febre do Emagrecimento


Por Enéas Bispo 

Popularização acelerada de medicamentos como semaglutida e tirzepatida acende alerta internacional sobre automedicação, erros de dose, produtos clandestinos e complicações potencialmente graves

Durante anos, emagrecer foi associado a dietas, exercícios físicos e mudanças de hábitos. Agora, uma nova geração de medicamentos transformou o combate à obesidade em um dos fenômenos mais comentados da medicina e das redes sociais. As chamadas “canetas emagrecedoras”, que incluem medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, ganharam enorme popularidade e passaram a ser apresentadas, muitas vezes, como uma solução rápida para perder peso.

Mas por trás da promessa de poucos quilos a menos existe uma questão que não pode ser ignorada: esses medicamentos não são inofensivos e não devem ser tratados como simples produtos para emagrecimento.

Semaglutida, tirzepatida, liraglutida e dulaglutida são medicamentos que interferem em mecanismos importantes do organismo. Eles podem reduzir o apetite, aumentar a sensação de saciedade e retardar o esvaziamento do estômago. Por isso, também podem provocar efeitos adversos no sistema gastrointestinal e em outros órgãos. A Organização Mundial da Saúde reconhece sua utilidade no tratamento da obesidade, mas ressalta que não são medicamentos destinados a todas as pessoas e que devem ser prescritos levando em consideração o histórico clínico individual.

O alerta que veio das autoridades

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, em fevereiro de 2026, um alerta específico sobre o risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido dos agonistas de GLP-1.

Pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode assumir formas graves, inclusive necrotizantes e fatais.

Os números apresentados pela própria Anvisa mostram a dimensão da preocupação. Segundo dados da autoridade britânica, entre 2007 e outubro de 2025 foram registradas no Reino Unido 1.296 notificações de pancreatite em pessoas que utilizavam medicamentos dessa classe, incluindo 19 notificações com desfecho de morte.

No Brasil, entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de suspeitas de eventos adversos, sendo seis delas com suspeita de desfecho fatal. É fundamental destacar que uma notificação de farmacovigilância não significa, automaticamente, que o medicamento tenha sido comprovadamente responsável pela morte. A investigação de causalidade é necessária em cada caso.

O problema não está apenas no medicamento

Um dos aspectos mais preocupantes da atual onda de consumo é o uso sem acompanhamento médico.

A popularização das canetas criou um mercado gigantesco e, paralelamente, aumentou a circulação de produtos adquiridos por canais não autorizados, prescrições inadequadas e tentativas de ajustar doses por conta própria.

A Organização Mundial da Saúde chamou atenção justamente para esse fenômeno. Em 2026, especialistas da organização destacaram a crescente obtenção desses medicamentos fora das indicações aprovadas e dos ambientes médicos, inclusive por plataformas digitais e canais informais.

Segundo a OMS, produtos provenientes de fontes não regulamentadas podem apresentar problemas de identidade, qualidade, pureza e concentração, além do risco de serem falsificados ou adulterados.

Erros de dose também podem levar ao hospital

Nos Estados Unidos, a FDA também registrou problemas relacionados a versões manipuladas de semaglutida e tirzepatida.

A agência informou ter recebido diversos relatos de eventos adversos, alguns deles suficientemente graves para exigir hospitalização, associados possivelmente a erros de dosagem de produtos manipulados de semaglutida.

Até 31 de maio de 2026, a FDA havia recebido 990 relatos de eventos adversos relacionados à semaglutida manipulada e mais de 730 relacionados à tirzepatida manipulada.

A própria FDA, porém, faz uma ressalva importante: nem sempre é possível determinar se o evento adverso foi diretamente causado pelo medicamento ou se outros fatores contribuíram para o quadro. Além disso, a agência considera provável que os eventos relacionados a produtos manipulados estejam subnotificados.

Quando o emagrecimento vira risco

O perigo aumenta quando a busca por um corpo mais magro transforma um medicamento de prescrição em uma espécie de produto de consumo.

É nesse ponto que surgem comportamentos preocupantes: utilização sem indicação médica, aumento da dose por conta própria, combinação inadequada de medicamentos, compra de produtos de origem desconhecida e continuidade do tratamento mesmo diante de sintomas importantes.

Os efeitos adversos mais comuns incluem náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Entretanto, a OMS também aponta que eventos mais graves ou clinicamente relevantes, como doença da vesícula biliar, pancreatite aguda, obstrução intestinal e gastroparesia, estão associados a essa classe e continuam sendo avaliados.

Uma morte registrada não conta toda a história

Há uma diferença fundamental entre “houve mortes entre usuários” e “o medicamento matou essas pessoas”.

Na farmacovigilância, uma notificação de morte ou de reação adversa é um sinal que precisa ser investigado. O paciente pode ter outras doenças, utilizar outros medicamentos ou apresentar condições que também contribuam para o desfecho.

Documentos da Anvisa mostram, por exemplo, que entre 2019 e setembro de 2024 foram registradas no Brasil 524 notificações de suspeitas de eventos adversos relacionados à semaglutida. Destas, 12 tiveram desfecho fatal. A análise regulatória ressalta, entretanto, que os casos fatais não permitem automaticamente atribuir a morte ao medicamento; vários foram classificados como de causalidade não avaliável ou não classificável, por falta de informações suficientes.

Essa distinção é essencial para evitar tanto o alarmismo quanto a falsa sensação de segurança.

O outro perigo: a indústria da promessa rápida

O fenômeno também revela uma transformação cultural.

As redes sociais ajudaram a transformar medicamentos complexos em símbolos de uma nova estética corporal. Antes mesmo de uma avaliação médica, muitas pessoas entram em contato com relatos de celebridades, influenciadores e usuários que apresentam resultados expressivos de perda de peso.

A questão é que uma experiência individual não determina a segurança para outra pessoa.

O organismo, o histórico médico, os medicamentos utilizados simultaneamente, a dose e a indicação clínica fazem diferença.

Por isso, a OMS recomenda que os agonistas de GLP-1 sejam utilizados com orientação profissional e dentro das indicações aprovadas.

Brasil apertou o controle

Diante do crescimento das notificações e da preocupação com o uso inadequado, a Anvisa determinou, em 2025, que a dispensação desses medicamentos passasse a exigir retenção da receita nas farmácias e drogarias.

A regra busca justamente reduzir o uso indiscriminado e permitir maior controle sobre a utilização dos medicamentos.

A agência reforça que o tratamento deve ocorrer sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado.

O que fazer diante de sintomas preocupantes?

A Anvisa recomenda atenção especial a dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando pode irradiar para as costas e estiver acompanhada de náuseas ou vômitos.

Esses sintomas podem ser compatíveis com pancreatite e exigem avaliação médica imediata.

A orientação não é esperar o sintoma desaparecer nem simplesmente reduzir a dose por conta própria.

A verdadeira epidemia pode estar em outro lugar

Existe, de fato, uma expansão mundial extraordinária do uso desses medicamentos. A OMS reconhece o crescimento acelerado da utilização dos agonistas de GLP-1 e também manifesta preocupação com o consumo fora das indicações, a automedicação e a aquisição de produtos por canais não regulamentados.

Mas chamar essa situação de “epidemia de mortes provocadas pelas canetas emagrecedoras” seria ir além do que os dados disponíveis permitem afirmar.

O que os números demonstram é algo mais complexo — e talvez justamente por isso mais importante: há medicamentos eficazes, mas não isentos de riscos; há mortes notificadas, mas nem todas têm causalidade comprovada; há eventos adversos graves; há uso indevido; há erros de dose; há produtos falsificados ou de procedência duvidosa; e há uma corrida social pelo emagrecimento que pode levar pessoas a ignorarem os limites de um tratamento médico.

O problema, portanto, não é simplesmente a existência das canetas.

É a transformação de uma ferramenta terapêutica em objeto de consumo, desejo e automedicação.

Em uma época na qual perder peso rapidamente pode parecer mais importante do que compreender o próprio organismo, a pergunta que deveria acompanhar cada aplicação talvez seja menos “quantos quilos vou perder?” e muito mais: “Este medicamento é realmente indicado para mim, e quem está acompanhando minha saúde enquanto eu o utilizo?”

Porque emagrecer pode ser um objetivo legítimo.

Mas nenhum número na balança deveria valer mais do que a própria vida.

quarta-feira, setembro 23, 2026

O segredo do jardim de Adelaide


Por Enéas Bispo 
◇◇◇

Numa dessas tardes de primavera em que o mundo parece respirar mais devagar, Adelaide resolveu abrir os portões do seu jardim.

Não era exatamente um jardim como os outros. Havia quem dissesse que ali as rosas tinham cores mais intensas, que as folhas eram de um verde quase insolente e que as frutas amadureciam com uma alegria que não se via nos quintais vizinhos. Alguns atribuíam aquilo ao solo. Outros, à água. Havia ainda os que, mais práticos, diziam que Adelaide devia possuir algum segredo de jardinagem que jamais revelara a ninguém.

Foi justamente para acabar com a curiosidade que ela chamou os vizinhos.

Entraram todos um pouco desconfiados, como quem visita uma casa onde se suspeita existir um mistério. Mas bastaram alguns passos para que as perguntas desaparecessem. As rosas espalhavam pelo ar um perfume quase hipnótico. As árvores frutíferas balançavam os galhos ao sabor do vento, parecendo dançar uma música que somente elas conheciam. Entre as flores, abelhas trabalhavam diligentemente, enquanto os pássaros, indiferentes à presença dos visitantes, continuavam seus pequenos concertos.

— Mas como você consegue? — perguntou alguém.

Adelaide sorriu.

Era um sorriso de quem já ouvira aquela pergunta muitas vezes e, talvez, tivesse demorado anos para descobrir a resposta.

— O segredo não está apenas no cuidado que dou às plantas — disse ela. — Está na maneira como aprendi a conviver com tudo aquilo que vive aqui.

Os vizinhos se entreolharam.

Então Adelaide começou a explicar que conversava com as plantas. Não exatamente como quem espera uma resposta em palavras, mas como quem reconhece que o silêncio também pode ser uma forma de diálogo. Agradecia às árvores pela sombra, às flores pela beleza, às abelhas pelo trabalho, aos pássaros pela música. Quando alguma planta adoecia, ela não a tratava como um objeto defeituoso, mas como parte de uma vida que precisava ser compreendida.

— E elas respondem? — perguntou uma menina, quase sussurrando.

Adelaide se abaixou, tocou delicadamente uma folha e respondeu:

— De uma maneira ou de outra, tudo aquilo que recebe cuidado acaba respondendo.

Naquele momento, talvez os vizinhos tenham entendido que o jardim nunca fora o verdadeiro segredo.

Adelaide não cultivava apenas flores. Cultivava relações.

Havia ali uma espécie de pacto silencioso: ela oferecia cuidado, respeito e presença; a natureza devolvia beleza, alimento, sombra, perfume e companhia. Nada acontecia isoladamente. A flor precisava da abelha. A árvore precisava da terra. O pássaro precisava da árvore. E Adelaide precisava de todos eles.

Quando deixaram o jardim, os vizinhos levaram consigo muito mais do que uma lição de jardinagem. Alguns passaram a cuidar melhor de seus quintais. Outros começaram a observar os pássaros. Houve quem, naquela mesma noite, regasse uma planta esquecida num canto da casa.

Adelaide, porém, continuou ali, entre suas flores, como sempre.

Talvez soubesse que o verdadeiro encanto nunca esteve nas rosas mais bonitas, nas frutas mais doces ou no verde mais vivo.

O encanto estava em compreender uma coisa simples, embora frequentemente esquecida: a natureza floresce melhor quando, em vez de tentarmos dominá-la, aprendemos a fazer parte dela.

E talvez seja assim também com a vida.

Há coisas que não florescem porque lhes falta água, sol ou adubo. Florescem quando encontram presença, cuidado e respeito.

Adelaide apenas descobrira isso antes de nós.

domingo, setembro 20, 2026

Onde não puderes ser Místico, Inteligente, Espontâneo e Engraçadinho, não te demores


Por Enéas Bispo*

Há lugares onde a nossa presença parece sempre exigir uma versão editada de nós mesmos. Lugares onde é preciso medir as palavras, esconder o entusiasmo, controlar o riso, diminuir a inteligência e até pedir licença para simplesmente existir. E talvez uma das maiores formas de sabedoria seja perceber quando estamos diante de um ambiente que não nos permite ser inteiros.

Não precisamos pertencer a todos os lugares. Não precisamos ser compreendidos por todas as pessoas. E, sobretudo, não precisamos transformar nossa essência em uma personagem para caber em espaços que não foram feitos para acolher aquilo que somos. A autenticidade tem um preço, mas a ausência dela custa muito mais. Viver permanentemente sob o olhar de quem nos censura é uma maneira silenciosa de abandonar a própria identidade.

Ser místico é enxergar profundidade onde muitos enxergam apenas superfície. É conservar algum encantamento diante da vida, acreditar no invisível, perceber os detalhes, respeitar os silêncios e compreender que nem tudo precisa ser explicado para ser sentido. Ser inteligente é questionar, pensar, aprender, discordar e continuar curioso. Ser espontâneo é permitir que a vida aconteça sem transformar cada gesto em cálculo. E ser engraçadinho é também uma forma de inteligência: aquela capacidade rara de encontrar leveza mesmo quando o mundo insiste em ser pesado.

Por isso, onde não puderes ser místico, inteligente, espontâneo e engraçadinho, não te demores. Não transforme a sua permanência em uma negociação diária com aquilo que você é. Existem ambientes que nos fazem florescer e outros que nos obrigam a sobreviver. Existem pessoas diante das quais nossa presença se expande e outras que parecem precisar da nossa diminuição para se sentirem confortáveis.

Ir embora, nesses casos, não é arrogância. É discernimento. É compreender que nem toda porta merece ser atravessada e nem toda mesa merece a nossa cadeira. Às vezes, partir é o gesto mais elegante de amor-próprio. Não porque o outro esteja necessariamente errado, mas porque você finalmente compreendeu que não precisa permanecer onde sua autenticidade é tratada como inconveniência.

A vida é curta demais para gastarmos nossos melhores anos tentando convencer alguém de que somos dignos de ser exatamente quem somos. Procure lugares onde sua inteligência seja celebrada, sua espontaneidade seja acolhida, seu humor encontre eco e sua sensibilidade não precise pedir desculpas por existir. Procure pessoas diante das quais você possa rir alto, pensar profundamente, falar bobagens, compartilhar silêncios e ainda assim sentir-se em casa.

Não se demore onde você precisa diminuir para caber.

Há lugares esperando pela sua presença inteira. E há encontros que só acontecem depois que temos coragem de deixar para trás aqueles que nos ensinavam, todos os dias, a sermos menos.

No fim, talvez maturidade seja justamente isso: saber quando ficar, saber quando partir e, principalmente, nunca confundir pertencimento com apagamento.

*Na Foto: Papa Francisco