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segunda-feira, março 23, 2026

Trump Perdeu o Controle da Guerra: Bélica, Diplomática e Política


Por Enéas Bispo – Análise Independente | 23 de março de 2026

Quando Donald Trump assumiu o segundo mandato prometendo “acabar com as guerras idiotas” e trazer “paz através da força”, poucos imaginavam que, em menos de 14 meses, os Estados Unidos estariam imersos na quarta semana de uma guerra com o Irã que ele próprio ajudou a desencadear. A Operation Epic Fury, iniciada em 28 de fevereiro de 2026 com ataques conjuntos EUA-Israel, deveria ser um “golpe rápido e decisivo”. Hoje, o conflito escapa das mãos do presidente: o Estreito de Ormuz bloqueado, preços do petróleo em disparada, baixas americanas, Israel agindo por conta própria e uma base MAGA rachada. Trump perdeu o controle — bélico, diplomático e político. Esta não é uma opinião partidária; é o retrato factual de uma estratégia que desmoronou.

1. Dimensão Bélica: De “vitória rápida” a guerra de atrito sem saída

Trump e seus assessores calcularam mal a resposta iraniana. Os primeiros 900 ataques destruíram parte da liderança (incluindo o aiatolá Khamenei) e instalações nucleares e de mísseis. Parecia o script perfeito. Mas o Irã optou pela guerra assimétrica: drones baratos, minas, lanchas rápidas e mísseis balísticos contra alvos civis e energéticos no Golfo, Israel, Qatar e Emirados. O Estreito de Ormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial — está parcialmente paralisado.
O Pentágono já fala em pedir mais US$ 200 bilhões ao Congresso. Há 13 soldados americanos mortos e mais de 200 feridos confirmados. Trump ameaçou atacar usinas elétricas iranianas e até ocupar a ilha de Kharg, mas recuou após vazamentos e pressão interna. Israel intensifica ataques diários (incluindo o campo de gás South Pars sem prévio aviso a Washington), forçando Trump a pedir moderação pública. Resultado: uma operação que deveria durar “4 a 5 semanas” (declaração do próprio Trump) entra na quarta semana sem plano de saída claro. O controle militar evaporou porque subestimou a resiliência iraniana e superestimou a capacidade de impor vontade unilateral.

2. Dimensão Diplomática: Aliado indomável, inimigo inflexível, aliados ausentes

Trump sempre se gabou de “conhecer os líderes”. Com Putin, Zelensky e Netanyahu, ele usou telefonemas e pressão pessoal. No Irã, falhou. Teerã rejeita qualquer “ponto de acordo” que Trump anuncia (e que o Irã imediatamente desmente como “guerra psicológica”).

O maior problema é Israel: Netanyahu ignora apelos americanos para não atingir infraestrutura energética iraniana, sabendo que Trump não pode — ou não quer — romper a aliança. O resultado é isolamento: a OTAN se recusa a ajudar a reabrir Ormuz (“covardes”, segundo Trump), Europa e China criticam, e até países árabes do Golfo sofrem retaliações iranianas. A “Board of Peace” que funcionou parcialmente em Gaza agora está paralisada exatamente por causa desta guerra. Trump, que prometia diplomacia transacional, hoje é refém de um aliado que não controla e de um adversário que não cede. A diplomacia pessoal que tanto funcionou em 2017-2021 hoje expõe seus limites: sem alavancas reais de coerção coletiva, o presidente americano parece solitário.

3. Dimensão Política: O custo doméstico que Trump não previu

No plano interno, o estrago é maior. O “America First” que ele vendeu virou “America in Another Forever War”. Marjorie Taylor Greene e Joe Kent já renunciaram ou criticaram publicamente o conflito como traição ao isolacionismo. Pesquisas mostram independentes fugindo do GOP; o risco de perder Câmara e Senado nas midterms de novembro de 2026 é real.

O preço da gasolina dispara (Brent acima de US$ 119, projeções de US$ 147), inflação volta a assombrar e famílias americanas sentem no bolso o que Trump chamou de “pequeno incômodo temporário”. Senadores democratas como Chris Murphy repetem: “Trump perdeu o controle desta guerra”. Até dentro da própria administração, Tulsi Gabbard e John Ratcliffe teriam admitido que não havia ameaça nuclear iminente iraniana — minando a justificativa original. Trump agora oscila entre “estamos obliterando eles” e “estamos considerando encerrar”. A narrativa escapa: ele não controla mais nem a mensagem.

O mito da “arte do acordo” encontra seus limites

Trump não é um presidente belicista por ideologia; é um pragmático que odeia guerras longas porque custam dinheiro e votos. Exatamente por isso, o fracasso atual é mais doloroso: ele entrou na guerra convencido de que poderia replicar o modelo Gaza (cessar-fogo rápido + reconstrução) ou o “deal” com o Talibã. Subestimou a psicologia iraniana (“quando encurralado, não recua”), superestimou a obediência israelense e ignorou que o mundo multipolar de 2026 não aceita mais ditados unilaterais americanos.

Não se trata de torcer contra os EUA ou contra Israel. Trata-se de constatar que a abordagem “eu decido, vocês obedecem” funciona em negociações comerciais ou em reality shows, mas falha quando o adversário joga xadrez assimétrico e o aliado joga damas por conta própria.

Trump ainda pode recuperar o controle: uma desescalada negociada com mediação chinesa ou saudita, acompanhada de retirada gradual e pressão real sobre Israel para respeitar o teto, poderia limitar os danos. Mas cada dia que passa sem decisão clara aprofunda o buraco. A história recente mostra: presidentes que perdem o controle de uma guerra no Oriente Médio raramente saem ilesos — nem política nem historicamente.

Trump prometeu “paz através da força”. Hoje, a força está lá, mas a paz — e o controle — fugiram. O presidente que jurou nunca repetir os erros dos antecessores agora vive o clássico: entrou em uma guerra que não sabe como terminar. E o relógio — bélico, diplomático e eleitoral — não para.

quarta-feira, outubro 02, 2024

Irã Adverte EUA a Não se Envolverem em Conflito com Israel


Por Enéas Bispo*

Teerã, 2 de outubro de 2024 - O governo iraniano emitiu um alerta aos Estados Unidos, pedindo que não se envolvam no recente conflito entre Irã e Israel. A advertência veio após uma série de ataques com drones e mísseis balísticos lançados pelo Irã contra alvos israelenses, em retaliação à morte de líderes de grupos armados alinhados a Teerã.

O Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que qualquer intervenção americana poderia agravar ainda mais a situação. "Este é um assunto que deve ser resolvido entre Irã e Israel. A interferência dos EUA só complicará as coisas", disse Araghchi em uma coletiva de imprensa.

Enquanto isso, o governo americano declarou que está em contato com Israel para coordenar uma resposta adequada aos ataques iranianos. O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Matthew Miller, enfatizou que os Estados Unidos estão prontos para apoiar Israel, mas não especificou que tipo de apoio seria oferecido.

A comunidade internacional está acompanhando de perto os desdobramentos, com a ONU convocando uma reunião de emergência para discutir a escalada das tensões na região.

Fontes: UOL, CNN Brasil, Info Money

terça-feira, novembro 20, 2012

Estou tão farto dos keynesianos!

Foto: Enéas Bispo de Oliveira

A mecanização aumenta o lucro, exceto para quem tenha perdido o seu emprego a favor de uma máquina.

Tenho ouvido argumentos keynesianos e acho-os enfadonhos. Nos EUA, no Reino Unido e na Suécia, os keynesianos criticam a suprema estupidez da agenda da austeridade. Mas os problemas são mais profundos do que admitem. É certo que reduzir défices faz o dinheiro circular apenas entre financeiros e detentores estrangeiros de dívidas (particulares ou Estados), sem garantir um estímulo relevante. É a parte "não errada" da lógica keynesiana. Ao mesmo tempo, quem não cria riqueza fica sem meios para pagar dívidas substanciais. Teoricamente, espera-se que um estímulo crie riqueza. Mas não basta.
Primeiro, a mecanização destruiu muitos postos de trabalho. Faz crescer o lucro, mas não para quem perde o emprego para uma máquina. Fica melhor, na "nova economia", aquele que trabalha numa firma que, aproveitando os benefícios da mecanização, conserva e recicla o trabalhador. O estímulo keynesiano não resolve, necessariamente, este problema fundamental de mobilidade descendente ou descartabilidade econômica.
Em segundo lugar, alguns keynesianos têm uma visão ingênua, distinguindo as firmas pequenas das firmas grandes, mas não as firmas domésticas da multinacionais. Ora, parte do dinheiro do último estímulo saiu dos EUA para as mãos de empresas estrangeiras. Logo, não basta o Governo ganhar dinheiro para fomentar emprego. Estimular sem criar ou alargar as plataformas de produção nacional é desperdiçar oportunidades. Em terceiro lugar, alguns keynesianos acreditam que a procura cria a sua oferta. Pensam que, se o Governo gastar o suficiente, florescerão empresas. É verdade, em parte, mas não na economia mais sofisticada, a montante. Na Grande Depressão tivemos uma crise de procura insuficiente. Agora temos uma crise de procura e oferta interna insuficientes.
Os keynesianos não percebem que, nos EUA ou no Reino Unido, a oferta interna de muitas categorias de bens e serviços criou uma desvantagem competitiva devido a anos de subinvestimentos e apoio estatal fracassado. Ou, caso percebam, não percebem como se pode pagá-la sem empréstimos. Por fim, sobrevalorizam as vantagens de um estímulo que se limite a colocar funcionários dos serviços a trabalhar, em vez de reindustrializar. É certo que é melhor pagar o salário a um professor do que pagar-lhe um subsídio desemprego. Há, porém, empregos mais e menos produtivo no que toca à criação de riqueza e receita fiscal que servirá para pagar salários e ainda mais professores.
Vários marxistas distinguem trabalho "produtivo" e "não produtivo". Cobrar impostos sobre os salários de uma escola garante potencialmente menos receita do que taxar o rendimento de um parque eólico, fábrica ou outro fornecedor de bens ou serviços industriais. Os ganhos produtivos da indústria ultrapassam os dos serviços. Há que expandir a indústria para eliminar os défices comerciais. Em estados como o Michigan, afetados por tremendas quebras na produção, o despedimento de professores é epidêmico.
Keynesianos como Paul Krugman apresentam argumentos mais diferenciados, que combinam maior regulação, apoio ao movimento Occupy e outras propostas. Mas deixam fora realidades básicas como: a) os gastos militares insuflados que roubam oportunidades de estimular empresas civis e financiar a reindustrialização; b) a distinção entre empresas nacionais e multinacionais; c) a necessidade de coordenação e planificação à antiga ou de um Estado desenvolvimentista que promova modernização industrial e competitividade; e d) as vantagens de uma economia mais democrática. A ideia de que um consórcio de pequenas empresas possa tornar-se uma grande cooperativa virtual, que pressione o Estado a realizar reformas estruturais, está para lá da imaginação de muitos economistas e politólogos. Se a Irlanda teve pior desempenho do que a Islândia, foi em parte por ter escolhido a austeridade: a Islândia não é uma Coréia do Sul. Esta tem um Estado que apoia o setor secundário e a competitividade industrial. Investe mais no "New Deal Verde" e pode fazê-lo precisamente por produzir mais. É aqui que a oferta cria a sua procura.
A miopia macroeconômica de muitos keynesianos resulta do patrimônio intelectual da Guerra Fria, da pulverização das ciências sociais, do pós-modernismo e do financiamento empresarial ao ensino superior. A Grande Depressão terá desacreditado economistas institucionais mais radicais, incapazes de competir  com a lógica de aumentar a procura numa economia em baixa. Vivemos, contudo, numa economia em que as realidades institucionais limitam a nossa capacidade de produzir oferta que cubra a procura acrescida. Onde iremos buscar o capital político para aumentar a procura, sem criar novas instituições que multipliquem o capital político dos cidadãos?

Texto de: Jonathan M.Feldman, da Universidade de Estocolmo, é um dos principais dinamizadores do site www.globalteachin.com, uma rede de localidades que procura soluções institucionais para as crises econômicas, energéticas e ecológicas.

P.S_Texto publicado na Revista Courrier Internacional/Portugal em Junho de 2012