A política brasileira acaba de encenar o seu próprio Götterdämmerung. O que se viu no plenário do Senado Federal no último 29 de abril não foi apenas uma votação burocrática de uma indicação para o Supremo Tribunal Federal; foi um abalo sísmico nas placas tectônicas que sustentam a República. Ao barrar Jorge Messias, o Senado não apenas negou uma cadeira a um jurista; ele rasgou o roteiro da hegemonia do Executivo e proclamou o fim da era das "indicações por osmose".
Friedrich Nietzsche, em sua lucidez implacável, nos alertou que "o Estado é o mais frio de todos os monstros frios". Ontem, esse monstro mostrou dentes que muitos julgavam estarem guardados sob o verniz da governabilidade. A derrota de Messias é a materialização do ressentimento transformado em força política — um Senado que, cansado de ser o apêndice carimbador do Planalto, resolveu exercer a sua própria "vontade de potência".
A Anatomia de uma Derrota Indelével
Para o governo Lula, a rejeição é mais do que um revés técnico; é uma ferida aberta no coração da sua estratégia de influência a longo prazo. Messias era o "fiel da balança", o guardião dos segredos e o elo com o mundo evangélico. Ao vê-lo cair por uma margem tão estreita, o governo descobre, da pior forma, que a "caneta" já não possui a tinta da infalibilidade.
O reflexo para o STF é imediato e gélido. A Corte, que se acostumou a um protagonismo quase monárquico nos últimos anos, agora observa o outro lado da Praça dos Três Poderes reivindicando o seu direito de veto. A cadeira de Luís Roberto Barroso permanece vazia, mas preenchida por um fantasma: o da incerteza. O próximo indicado não entrará sob o tapete vermelho da concordância, mas sob a lupa da desconfiança.
O Brasil entre o Caos e a Consciência
Para o Brasil, o cenário é de uma beleza caótica. Por um lado, assistimos ao fortalecimento do sistema de freios e contrapesos — a prova viva de que a democracia não é um monólogo. Por outro, o país mergulha em uma paralisia estratégica. Se o governo não consegue emplacar seu homem de confiança no Judiciário, como aprovará as reformas estruturais que o futuro exige?
Nietzsche dizia que "é preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela bailarina". O momento atual é puramente caótico. A derrota de Jorge Messias é o sintoma de uma transição de estilo e competências no poder. O "estilo" de negociação baseado na tradição e na lealdade pessoal está em xeque. A nova competência exigida é a da sobrevivência em um ambiente onde o adversário não quer apenas debater, mas sim afirmar sua existência através do "não".
A Cicatriz no Poder
A história não perdoa os desatentos. O episódio Messias deixa uma cicatriz indelével na pele do governo. Não é o fim do mundo, mas é o fim de um mundo onde o Executivo reinava absoluto sobre as escolhas da toga. O Brasil acorda hoje com um Senado que descobriu que pode dizer "não" — e o Planalto, agora, precisa aprender a ouvir.
A política, como a vida, é uma eterna superação. Resta saber se o governo terá a grandeza de se reinventar ou se continuará a olhar para o passado, enquanto o futuro, frio e potente, lhe fecha as portas na face.
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