domingo, setembro 20, 2026
Onde não puderes ser Místico, Inteligente, Espontâneo e Engraçadinho, não te demores
quinta-feira, fevereiro 12, 2026
O Grande Desatar
O Sena corria indiferente sob a Pont Neuf, como sempre fez, mas para Eve, aquelas águas não eram mais um espelho de melancolia romântica. Eram apenas hidrogênio e oxigênio seguindo um caminho que ela não pretendia mais trilhar.
Paris tem essa mania de se vender como um abraço eterno, mas Eve sentia o aperto de um torniquete.
Por Enéas Bispo
Naquela manhã de cinza pálido, o ar carregava o cheiro de manteiga queimada e asfalto úmido — o perfume oficial das promessas não cumpridas. Eve não arrumou as malas com a delicadeza de quem planeja voltar. Ela as socou com a fúria silenciosa de quem corta amarras.
- Os Laços: As agendas cheias de nomes que soavam como música, mas pesavam como chumbo.
- Os Monumentos: A Torre Eiffel, que outrora parecia um farol, agora não passava de um esqueleto de ferro vigiando sua estagnação.
- Os Sabores: O confit de canard, o vinho encorpado de Bordeaux, o queijo que derretia na boca — tudo aquilo agora tinha o gosto metálico da obrigação.
O Som do Silêncio
Enquanto caminhava em direção à Gare du Nord, vozes se ergueram. Eram os protestos dos "amigos" de galeria, os clamores dramáticos de amantes que confundiam posse com paixão, os apelos da própria cidade que sussurrava em cada esquina: "Ninguém deixa Paris e sai ileso".
Eve não ouviu. Ou melhor, ouviu e escolheu o vácuo.
Não houve o "olhar para trás" cinematográfico. Não houve a lágrima furtiva ao ver o Sacré-Cœur sumindo no horizonte. Para ela, a cidade luz tinha acabado de queimar a última lâmpada. O toque daqueles que tentaram retê-la pelo braço deslizou por sua pele como se ela estivesse untada em desapego.
A Liberdade é um Trem em Movimento
Ao sentar-se na poltrona do trem, o estalo das portas fechando foi o som mais bonito que ouviu em décadas. Não era apenas uma partida; era uma exorcização.
Paris ficava para trás com seus museus empoeirados de memórias e suas ruas que exigiam uma elegância que lhe exauria a alma. Eve Daut não estava fugindo; ela estava, finalmente, ocupando o próprio espaço.
Pela janela, o borrão cinza da capital deu lugar ao verde cru do campo. Ela fechou os olhos. Pela primeira vez, o oxigênio não tinha gosto de croissant, nem de fumaça, nem de passado. Tinha gosto de nada. E o nada, para Eve, era o começo de tudo.
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sábado, abril 06, 2024
Ziraldo, o Menino Maluquinho que encantou o Brasil, morre aos 91 anos
Ziraldo Alves Pinto, o cartunista, escritor e dramaturgo que nos presenteou com o inesquecível Menino Maluquinho e tantas outras obras memoráveis, faleceu neste sábado (6) aos 91 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. A causa da morte não foi divulgada.
Ziraldo era um artista completo, que transitava com maestria entre a literatura, o humor, a crítica social e a política. Sua obra, marcada pela criatividade, irreverência e humor inteligente, encantou e inspirou gerações de brasileiros.
O Menino Maluquinho, um ícone da literatura infantil brasileira
Em 1969, Ziraldo deu vida ao Menino Maluquinho, personagem que se tornou um ícone da literatura infantil brasileira. O menino de cabelos espetados e imaginação fértil conquistou o coração de crianças e adultos com suas aventuras, travessuras e reflexões sobre a vida.
O livro "O Menino Maluquinho" foi traduzido para mais de 10 idiomas e vendeu milhões de exemplares, tornando-se um clássico da literatura mundial. As histórias do personagem também foram adaptadas para o cinema, teatro e televisão.
Um legado de criatividade e arte
Ziraldo foi um artista prolífico, que produziu uma vasta obra que inclui livros infantis e adultos, quadrinhos, charges, cartuns, peças de teatro e roteiros de cinema.
Algumas de suas obras mais famosas:
Livros infantis: O Menino Maluquinho, Flicts, A Turma do Pererê, O Bichinho da Maçã
Livros para adultos: O Pasquim, A Supermãe, O Corvo, O Gerente
Quadrinhos: Turma do Pererê, Jeremias Sem-Chão
Charges: publicadas em diversos jornais e revistas brasileiras
Ziraldo, uma voz crítica e engajada
Ziraldo era um artista engajado nas questões sociais e políticas do Brasil. Sua obra frequentemente abordava temas como a desigualdade social, a censura e a defesa da democracia.
Um artista que deixa saudades
A morte de Ziraldo é uma grande perda para a cultura brasileira. Ele deixa um legado de criatividade, humor e inteligência que continuará a inspirar e encantar pessoas de todas as idades.
Homenagens
Nas redes sociais, diversas personalidades e instituições lamentaram a morte de Ziraldo e prestaram homenagens ao artista.
"Ziraldo foi um gênio da nossa literatura e do nosso humor. Sua obra marcou a vida de milhões de brasileiros", escreveu o presidente da República em seu Twitter.
"O Brasil perde hoje um de seus maiores artistas. Ziraldo, obrigado por tudo", disse a escritora Ana Maria Machado.
Despedida
Ziraldo será velado neste domingo (7) no Rio de Janeiro. O enterro será realizado no dia seguinte em um cemitério da cidade.
Fica a saudade e a gratidão por um artista que nos ensinou a ver o mundo com mais humor, criatividade e amor.