quinta-feira, junho 04, 2026

Marjane Satrapi, autora de Persépolis, morre aos 56 anos — família diz que ela "morreu de tristeza"


A artista franco-iraniana não resistiu ao luto pela perda do marido, Mattias Ripa, morto em abril de 2025

Por Enéas Bispo*

A artista franco-iraniana Marjane Satrapi, mundialmente conhecida por Persépolis, morreu nesta quinta-feira (4), aos 56 anos, em Paris. O falecimento foi anunciado por seus familiares e amigos próximos à agência AFP.

A causa da morte, segundo a família, não poderia ser mais humana — e mais desoladora. Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, os familiares informaram que Satrapi "morreu de tristeza, pouco mais de um ano após o falecimento de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida".

Ripa, sueco radicado em Paris, era ator, roteirista, produtor e também tradutor das histórias em quadrinhos de Satrapi para o inglês. Os dois chegaram a criar juntos, nos últimos anos, a Fundação para o Cinema Mattias e Marjane Ripa-Satrapi, vinculada à Academia de Belas Artes da França, com o objetivo de ajudar estudantes estrangeiros a se instalar em Paris para estudar cinema.Ripa havia falecido em abril de 2025.

Nos últimos meses de vida, o Instagram de Satrapi tornou-se o espelho de seu luto, com a mensagem recorrente: "Porque perdi o amor da minha vida".

A socióloga franco-iraniana Azadeh Kian, amiga da artista, declarou à France Info que a morte de Ripa foi um golpe do qual Satrapi jamais chegou a se recuperar. "Desde a morte dele, ela já não era a mesma", disse Kian. Segundo ela, a autora repetia em suas conversas que havia "deixado de lutar" e que queria "ir embora".

Uma vida em quadrinhos e resistência

Nascida em Rasht, no Irã, em 22 de novembro de 1969, Marjane Satrapi chegou à França em 1994 e foi naturalizada francesa em 2006. Ela conquistou a fama com a publicação de Persépolis, uma história em quadrinhos autobiográfica em quatro volumes na qual narra sua infância e juventude entre o Irã da Revolução Islâmica e a Europa dos anos 1980 e 1990.

A obra tornou-se um fenômeno global — um retrato intimista e politicamente poderoso de uma jovem rebelde crescendo sob um regime autoritário. Para especialistas, Persépolis é considerada uma das melhores graphic novels já publicadas, uma obra que "poucas vezes teve tanta capacidade de permear a cultura popular e, ao mesmo tempo, ser uma das melhores narrativas históricas de nosso tempo".

Satrapi publicou outras obras marcantes, como Bordados (2003) e Frango com Ameixas (2004), vencedor do prêmio de melhor álbum do Festival de Angoulême, que ela adaptou para o cinema em 2011 com Mathieu Amalric, Edouard Baer e Maria de Medeiros no elenco. Também dirigiu o filme Radioactive (2019), sobre a vida de Marie Curie.

Em 2024, recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades, sendo descrita pela fundação como "uma voz essencial na defesa dos direitos humanos e da liberdade" e "um símbolo de engajamento cívico liderado por mulheres".
No mesmo ano, foi eleita membro da Academia de Belas Artes da França. 
Poucos meses depois, em janeiro de 2025, Satrapi recusou a prestigiosa Legião de Honra francesa, rejeitando o que chamou de "atitude hipócrita da França em relação ao Irã", em solidariedade às mulheres e à sociedade civil iraniana.

Engajamento até o fim
Mesmo durante o período de luto, Satrapi não abandonou sua vocação política. Segundo sua amiga Azadeh Kian, apesar do delicado estado de saúde, a artista seguia atenta à situação no Irã, um país ao qual permaneceu profundamente ligada por toda a vida: "Amava enormemente seu país, embora fosse muito crítica com o regime."

Para Kian, Satrapi foi uma "artista comprometida" que utilizou tanto seus livros quanto seus filmes para levar ao mundo uma mensagem universal de democracia, igualdade e liberdade.

Marjane Satrapi deixa uma obra que atravessa fronteiras — geográficas, culturais e geracionais. Com traços simples em preto e branco e uma voz que nunca cedeu ao silêncio, ela deu rosto e história a milhões de pessoas que viveram — e sobreviveram — sob regimes que tentaram apagá-las. Morreu, como viveu: inteiramente.

*Fontes: AFP, France Info, El Español, El Diario, Sortiraparis

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