Então, você começou a subversão. Não podendo de azul pintar as avenidas, as calçadas, os postes, você me apareceu com a ideia mais absurda e mais linda: pintar os sapatos.
“Então, pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas,”
E não era um azul-marinho discreto, não. Era um azul-ultramarino, quase elétrico, berrando no meio do asfalto. O primeiro passo da nossa revolução particular. Depois, a loucura contagiou o resto. Você vestiu seus gestos insensatos, aqueles que desafiavam o bom senso e o medo, e me puxou para o centro do palco. Foi um ato de coragem quase infantil.
“depois, vesti meus gestos insensatos e colori as minhas mãos e as tuas.”
Nossas mãos, antes pálidas de indecisão, ficaram manchadas com o pigmento vibrante. Mãos unidas, comprometidas com a mesma paleta, empenhadas em uma missão simples: extinguir o azul ausente. Aquele que faltava nos sorrisos, nas conversas, na maneira como o sol se punha sem emoção.
Nós decidimos que as coisas boas, as raras alegrias que nos visitavam, não podiam mais ser efêmeras. Precisavam de uma moldura, de uma âncora.
“Para extinguir em nós o azul ausente e aprisionar no azul as coisas gratas,”
E a partir daí, não houve mais freio. O azul virou torrente. Ele jorrou sobre a vida como uma chuva torrencial e libertadora. As barreiras da formalidade caíram por terra, rendidas à intensidade da nossa escolha. Nossas roupas — o último vestígio de uma vida "normal" — não escaparam.
“enfim, nós derramamos simplesmente azul sobre os vestidos e as gravatas.”
Era um espetáculo. Dois seres imersos, banhados, saturados. O azul escorria pelas golas e pelos tecidos, tingindo a própria atmosfera ao nosso redor. E foi nesse mergulho profundo, nesse afogamento voluntário em uma cor, que a gente se perdeu de si mesmo para se encontrar um no outro.
Afogados em nós, na bolha densa e azulada que criamos, esquecemos a moderação. A ideia de que até o excesso de beleza pode ser exaustivo se desvaneceu. Quem se importa com o cansaço quando se está criando um novo universo?
“E afogados em nós, nem nos lembramos que no excesso que havia em nosso espaço pudesse haver de azul também cansaço.”
E assim ficamos, contemplando-nos naquele mar de cor. Não era mais só o azul das ruas, dos sapatos ou das roupas. Era o tom fundacional da nossa relação, o pigmento-base da nossa alma a dois. E enquanto o mundo lá fora seguia cinza, nós vimos nascer um novo ponto cardeal em nós.
“E perdidos de azul nos contemplamos e vimos que entre nós nascia um sul vertiginosamente azul.”
Um sul improvável, quente e profundo. Não um norte de direção óbvia, mas um sul de vertigem e descoberta. Um lugar que só existia entre nós, um abismo de possibilidades. Onde o tédio havia morrido, as ruas haviam sido pintadas, e a vida, enfim, tinha se tornado vertiginosamente azul.
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