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domingo, janeiro 25, 2026

A Geometria do Absurdo: Por que a Loucura é o Tempero da Arte


Por Enéas Bispo 

Dizia Erasmo de Roterdã, em seu célebre Elogio da Loucura, que a razão é como um mestre severo, enquanto a estultícia é o que dá sabor à vida. Se transportarmos essa ideia para as telas, palcos e páginas, chegamos a uma conclusão inevitável: um grão de loucura não é apenas um adorno da arte, é o seu motor fundamental.

​A arte que se limita estritamente à lógica corre o risco de se tornar meramente técnica — um espelho fiel, porém frio, da realidade. É o desvio, o "parafuso a menos", que permite ao artista enxergar o que a sobriedade insiste em ignorar.

​Onde o Real se Dobra

​O que seria do Surrealismo sem a obsessão quase delirante de Salvador Dalí por seus relógios derretidos? Ou da literatura sem o fluxo de consciência caótico de Virginia Woolf? A arte precisa desse elemento de imprevisibilidade para romper a crosta do cotidiano.

  • A Quebra da Expectativa: A loucura permite que o artista ignore as leis da física, da gramática e do comportamento social para expressar verdades emocionais.
  • A Coragem do Erro: Quem opera sob a lógica pura teme o erro. O "louco" abraça o acidente, transformando uma mancha de tinta em uma nova galáxia.
  • A Conexão Humana: Todos temos um lado irracional, medos inexplicáveis e desejos abstratos. A arte "louca" conversa diretamente com essa nossa parte indomada.

​O Equilíbrio Delicado

​É importante notar que esse "grão" não é o caos absoluto, mas sim uma faísca de subversão. É a capacidade de manter um pé na realidade para ser compreendido e o outro no abismo para ser relevante.

​Como escreveu o poeta Ferreira Gullar, "a arte existe porque a vida não basta". E se a vida comum é regida por horários, boletos e normas, a arte precisa ser o espaço onde o impossível é convidado para o café da manhã.

​"Não existe grande gênio sem um toque de demência." — Aristóteles

​No fim das contas, a arte que nos toca profundamente é aquela que nos faz duvidar da nossa própria lucidez. Ela nos lembra que ser perfeitamente normal é, talvez, a forma mais triste de mediocridade. O grão de loucura é o que impede a beleza de ser apenas decorativa e a transforma em algo revolucionário.