Temos uma mania perigosa de acreditar que o universo é um relógio suíço e que nós somos os relojoeiros. Fomos ensinados que o mundo é governado por leis matemáticas imutáveis e que o ser humano é a unidade de medida universal — a régua pela qual o valor de todas as coisas deve ser aferido.
Mas e se essa for a nossa maior miopia? E se a matemática não for a estrutura do real, mas apenas uma tradução simplista, um rascunho feito a lápis sobre uma obra que é, na verdade, um óleo sobre tela infinito?
O Equívoco da Régua Humana
Proclamar o homem como unidade de medida é um exercício de narcisismo cósmico. Quando medimos a importância de uma floresta pelo seu crédito de carbono, ou a dignidade de uma vida pelo seu PIB, estamos apenas confessando nossa incapacidade de enxergar o que foge ao cálculo. O mundo não cabe na palma da mão humana; ele nos transborda.
A Fraude das Leis Matemáticas
A matemática é elegante, sim. Mas ela é uma abstração. Ela descreve a trajetória da maçã, mas é incapaz de explicar o desejo da terra pela fruta, ou a complexidade do solo que a acolhe. O mundo não é "governado" por números; os números são apenas a sombra que a realidade projeta na nossa parede mental.
Então, o que governa tudo?
Se retirarmos o cetro da Matemática e o trono do Homem, o que assume o comando? A resposta nos incomoda porque ela não aceita pontos finais: o que governa tudo é a Relação.
- A Contingência: O domínio do "talvez". A realidade é feita de encontros acidentais, de colisões que geram o novo. É o desvio, não a norma, que cria a história.
- A Interdependência (Simbicenos): Nada existe sozinho. O que governa o mundo não é uma lei fria de causa e efeito, mas uma teia de afetos biológicos e físicos. O átomo não é uma unidade isolada; ele é um nó de energia em relação a outro.
- O Fluxo da Diferença: Como diria Deleuze, a repetição é uma ilusão. Nenhuma manhã é igual à outra, nenhum batimento cardíaco replica o anterior com exatidão matemática. O que governa é a força da diferenciação.
O Desconforto do Mistério
Viver em um mundo que não é uma planilha de Excel é assustador. Exige que paremos de tentar "resolver" a vida para começarmos a habitá-la. Se o mundo não é um problema matemático, ele não tem solução; ele tem vivência.
Governa-nos, portanto, uma Harmonia Tensa. Um equilíbrio precário entre o que podemos nomear e o abismo do que jamais compreenderemos. E é justamente nesse desconforto, nessa recusa pelas respostas prontas, que a verdadeira humanidade — aquela que não quer medir, mas sentir — finalmente começa.
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