Por Enéas Bispo
Era uma vez, nas encostas fumegantes do vulcão Nevado del Ruiz, em 1981, uma menina nasceu gritando um riff de guitarra que fez o chão tremer por três dias seguidos. Os médicos juraram que era um terremoto. A mãe, uma curandeira indígena, sabia a verdade: aquilo não era choro. Era o primeiro solo de Nayara Vargas – que o mundo inteiro aprenderia a chamar de Nayara Tormenta.
Aos doze anos, ela já tocava uma Stratocaster roubada com as cordas feitas de arame farpado de uma fazenda de café. O primeiro show foi num boteco de Medellín chamado “El Infierno”. Quando ela atacou o acorde inicial de “Fogo nos Andes”, a luz da cidade inteira apagou. Não foi blecaute: foi a eletricidade se rendendo. O dono do bar, um velho narco arrependido, ajoelhou-se e disse: “Menina, você não é humana. Você é a deusa que o diabo tem medo.”
Aos dezenove, Nayara formou a banda Tormenta Eterna e gravou o disco que mudou a Colômbia para sempre. Durante a sessão de “Reina del Caos”, o estúdio pegou fogo cinco vezes. Ela não parou de cantar. Gravou os vocais dentro das chamas, com o cabelo queimando nas pontas e um sorriso de quem acabara de beijar o próprio Apocalipse. O álbum vendeu mais que qualquer coisa na história do rock latino – e isso porque, em cada show de lançamento, a plateia saía com marcas de queimadura de cigarro no peito que formavam o logotipo da banda.
Mas as histórias realmente loucas começaram depois.
Dizem que, numa noite de 2003, em Cartagena, Nayara desafiou o próprio Lúcifer para um duelo de solos no Forte de San Felipe. O Diabo apareceu de terno branco, guitarra feita de ossos de anjo. Nayara, vestida só com um macacão de couro vermelho e botas de cobra, tocou com os dentes. Quando o demônio errou uma nota, ela riu tão alto que o mar se abriu por dez minutos. Lúcifer fugiu deixando a guitarra dele – que Nayara usa até hoje. É por isso que, em todo show, a terceira corda sangra de verdade.
Em 2012, o helicóptero dela caiu na selva amazônica durante a turnê “Selva Eléctrica”. Em vez de pedir socorro, Nayara pegou o violão carbonizado e começou a tocar “Jaguar de Fogo”. Os índios da tribo que a encontrou juram que viram jaguares, araras e até uma anaconda de seis metros formarem um círculo e uivarem o refrão junto. Ela saiu da selva três dias depois, com um colar feito de presas de onça e um novo single na cabeça que, quando tocado, faz as plantas crescerem mais rápido.
Seus amores são lendas à parte. Namorou um xamã que prometeu dar a ela o poder da imortalidade. Ela aceitou, mas quando ele tentou controlá-la, Nayara cantou uma música tão pesada que o homem virou fã número um e hoje vende camisetas dela na porta dos shows. Depois veio o affair com o fantasma de um roqueiro colombiano morto nos anos 70 – ele aparecia no camarim, de jaqueta de couro rasgada, e tocava harmônica invisível. O romance terminou quando ela o mandou “voltar pro além, que aqui tem que pagar entrada”.
Hoje, aos 45 anos (mas parecendo eternamente 28), Nayara Tormenta prepara o álbum “Apocalipse Colombiano”. O primeiro single, “Deusa que Não Perdoa”, já causou um mini-terremoto de 4.2 na escala Richter quando foi tocado pela primeira vez na rádio de Bogotá. Ela promete que, no show de lançamento no Estádio Nemesio Camacho, o palco vai explodir de verdade – e os bombeiros já estão contratados com antecedência de seis meses.
Porque Nayara não é só uma diva do rock colombiano.
Ela é a deusa que desceu para lembrar que o rock não se faz com amplificador.
Se faz com raiva, com fogo, com selva, com vulcão e com um riso que faz o Diabo tremer.
E o melhor?
Ela ainda está só começando.