Mostrando postagens com marcador Modismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Modismo. Mostrar todas as postagens

sábado, setembro 26, 2026

Canetas Emagrecedoras: O Outro Lado da Febre do Emagrecimento


Por Enéas Bispo 

Popularização acelerada de medicamentos como semaglutida e tirzepatida acende alerta internacional sobre automedicação, erros de dose, produtos clandestinos e complicações potencialmente graves

Durante anos, emagrecer foi associado a dietas, exercícios físicos e mudanças de hábitos. Agora, uma nova geração de medicamentos transformou o combate à obesidade em um dos fenômenos mais comentados da medicina e das redes sociais. As chamadas “canetas emagrecedoras”, que incluem medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, ganharam enorme popularidade e passaram a ser apresentadas, muitas vezes, como uma solução rápida para perder peso.

Mas por trás da promessa de poucos quilos a menos existe uma questão que não pode ser ignorada: esses medicamentos não são inofensivos e não devem ser tratados como simples produtos para emagrecimento.

Semaglutida, tirzepatida, liraglutida e dulaglutida são medicamentos que interferem em mecanismos importantes do organismo. Eles podem reduzir o apetite, aumentar a sensação de saciedade e retardar o esvaziamento do estômago. Por isso, também podem provocar efeitos adversos no sistema gastrointestinal e em outros órgãos. A Organização Mundial da Saúde reconhece sua utilidade no tratamento da obesidade, mas ressalta que não são medicamentos destinados a todas as pessoas e que devem ser prescritos levando em consideração o histórico clínico individual.

O alerta que veio das autoridades

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, em fevereiro de 2026, um alerta específico sobre o risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido dos agonistas de GLP-1.

Pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode assumir formas graves, inclusive necrotizantes e fatais.

Os números apresentados pela própria Anvisa mostram a dimensão da preocupação. Segundo dados da autoridade britânica, entre 2007 e outubro de 2025 foram registradas no Reino Unido 1.296 notificações de pancreatite em pessoas que utilizavam medicamentos dessa classe, incluindo 19 notificações com desfecho de morte.

No Brasil, entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de suspeitas de eventos adversos, sendo seis delas com suspeita de desfecho fatal. É fundamental destacar que uma notificação de farmacovigilância não significa, automaticamente, que o medicamento tenha sido comprovadamente responsável pela morte. A investigação de causalidade é necessária em cada caso.

O problema não está apenas no medicamento

Um dos aspectos mais preocupantes da atual onda de consumo é o uso sem acompanhamento médico.

A popularização das canetas criou um mercado gigantesco e, paralelamente, aumentou a circulação de produtos adquiridos por canais não autorizados, prescrições inadequadas e tentativas de ajustar doses por conta própria.

A Organização Mundial da Saúde chamou atenção justamente para esse fenômeno. Em 2026, especialistas da organização destacaram a crescente obtenção desses medicamentos fora das indicações aprovadas e dos ambientes médicos, inclusive por plataformas digitais e canais informais.

Segundo a OMS, produtos provenientes de fontes não regulamentadas podem apresentar problemas de identidade, qualidade, pureza e concentração, além do risco de serem falsificados ou adulterados.

Erros de dose também podem levar ao hospital

Nos Estados Unidos, a FDA também registrou problemas relacionados a versões manipuladas de semaglutida e tirzepatida.

A agência informou ter recebido diversos relatos de eventos adversos, alguns deles suficientemente graves para exigir hospitalização, associados possivelmente a erros de dosagem de produtos manipulados de semaglutida.

Até 31 de maio de 2026, a FDA havia recebido 990 relatos de eventos adversos relacionados à semaglutida manipulada e mais de 730 relacionados à tirzepatida manipulada.

A própria FDA, porém, faz uma ressalva importante: nem sempre é possível determinar se o evento adverso foi diretamente causado pelo medicamento ou se outros fatores contribuíram para o quadro. Além disso, a agência considera provável que os eventos relacionados a produtos manipulados estejam subnotificados.

Quando o emagrecimento vira risco

O perigo aumenta quando a busca por um corpo mais magro transforma um medicamento de prescrição em uma espécie de produto de consumo.

É nesse ponto que surgem comportamentos preocupantes: utilização sem indicação médica, aumento da dose por conta própria, combinação inadequada de medicamentos, compra de produtos de origem desconhecida e continuidade do tratamento mesmo diante de sintomas importantes.

Os efeitos adversos mais comuns incluem náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Entretanto, a OMS também aponta que eventos mais graves ou clinicamente relevantes, como doença da vesícula biliar, pancreatite aguda, obstrução intestinal e gastroparesia, estão associados a essa classe e continuam sendo avaliados.

Uma morte registrada não conta toda a história

Há uma diferença fundamental entre “houve mortes entre usuários” e “o medicamento matou essas pessoas”.

Na farmacovigilância, uma notificação de morte ou de reação adversa é um sinal que precisa ser investigado. O paciente pode ter outras doenças, utilizar outros medicamentos ou apresentar condições que também contribuam para o desfecho.

Documentos da Anvisa mostram, por exemplo, que entre 2019 e setembro de 2024 foram registradas no Brasil 524 notificações de suspeitas de eventos adversos relacionados à semaglutida. Destas, 12 tiveram desfecho fatal. A análise regulatória ressalta, entretanto, que os casos fatais não permitem automaticamente atribuir a morte ao medicamento; vários foram classificados como de causalidade não avaliável ou não classificável, por falta de informações suficientes.

Essa distinção é essencial para evitar tanto o alarmismo quanto a falsa sensação de segurança.

O outro perigo: a indústria da promessa rápida

O fenômeno também revela uma transformação cultural.

As redes sociais ajudaram a transformar medicamentos complexos em símbolos de uma nova estética corporal. Antes mesmo de uma avaliação médica, muitas pessoas entram em contato com relatos de celebridades, influenciadores e usuários que apresentam resultados expressivos de perda de peso.

A questão é que uma experiência individual não determina a segurança para outra pessoa.

O organismo, o histórico médico, os medicamentos utilizados simultaneamente, a dose e a indicação clínica fazem diferença.

Por isso, a OMS recomenda que os agonistas de GLP-1 sejam utilizados com orientação profissional e dentro das indicações aprovadas.

Brasil apertou o controle

Diante do crescimento das notificações e da preocupação com o uso inadequado, a Anvisa determinou, em 2025, que a dispensação desses medicamentos passasse a exigir retenção da receita nas farmácias e drogarias.

A regra busca justamente reduzir o uso indiscriminado e permitir maior controle sobre a utilização dos medicamentos.

A agência reforça que o tratamento deve ocorrer sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado.

O que fazer diante de sintomas preocupantes?

A Anvisa recomenda atenção especial a dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando pode irradiar para as costas e estiver acompanhada de náuseas ou vômitos.

Esses sintomas podem ser compatíveis com pancreatite e exigem avaliação médica imediata.

A orientação não é esperar o sintoma desaparecer nem simplesmente reduzir a dose por conta própria.

A verdadeira epidemia pode estar em outro lugar

Existe, de fato, uma expansão mundial extraordinária do uso desses medicamentos. A OMS reconhece o crescimento acelerado da utilização dos agonistas de GLP-1 e também manifesta preocupação com o consumo fora das indicações, a automedicação e a aquisição de produtos por canais não regulamentados.

Mas chamar essa situação de “epidemia de mortes provocadas pelas canetas emagrecedoras” seria ir além do que os dados disponíveis permitem afirmar.

O que os números demonstram é algo mais complexo — e talvez justamente por isso mais importante: há medicamentos eficazes, mas não isentos de riscos; há mortes notificadas, mas nem todas têm causalidade comprovada; há eventos adversos graves; há uso indevido; há erros de dose; há produtos falsificados ou de procedência duvidosa; e há uma corrida social pelo emagrecimento que pode levar pessoas a ignorarem os limites de um tratamento médico.

O problema, portanto, não é simplesmente a existência das canetas.

É a transformação de uma ferramenta terapêutica em objeto de consumo, desejo e automedicação.

Em uma época na qual perder peso rapidamente pode parecer mais importante do que compreender o próprio organismo, a pergunta que deveria acompanhar cada aplicação talvez seja menos “quantos quilos vou perder?” e muito mais: “Este medicamento é realmente indicado para mim, e quem está acompanhando minha saúde enquanto eu o utilizo?”

Porque emagrecer pode ser um objetivo legítimo.

Mas nenhum número na balança deveria valer mais do que a própria vida.