No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, em fevereiro de 2026, um alerta específico sobre o risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido dos agonistas de GLP-1.
Pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode assumir formas graves, inclusive necrotizantes e fatais.
Os números apresentados pela própria Anvisa mostram a dimensão da preocupação. Segundo dados da autoridade britânica, entre 2007 e outubro de 2025 foram registradas no Reino Unido 1.296 notificações de pancreatite em pessoas que utilizavam medicamentos dessa classe, incluindo 19 notificações com desfecho de morte.
No Brasil, entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, foram registradas 145 notificações de suspeitas de eventos adversos, sendo seis delas com suspeita de desfecho fatal. É fundamental destacar que uma notificação de farmacovigilância não significa, automaticamente, que o medicamento tenha sido comprovadamente responsável pela morte. A investigação de causalidade é necessária em cada caso.
O problema não está apenas no medicamento
Um dos aspectos mais preocupantes da atual onda de consumo é o uso sem acompanhamento médico.
A popularização das canetas criou um mercado gigantesco e, paralelamente, aumentou a circulação de produtos adquiridos por canais não autorizados, prescrições inadequadas e tentativas de ajustar doses por conta própria.
A Organização Mundial da Saúde chamou atenção justamente para esse fenômeno. Em 2026, especialistas da organização destacaram a crescente obtenção desses medicamentos fora das indicações aprovadas e dos ambientes médicos, inclusive por plataformas digitais e canais informais.
Segundo a OMS, produtos provenientes de fontes não regulamentadas podem apresentar problemas de identidade, qualidade, pureza e concentração, além do risco de serem falsificados ou adulterados.
Erros de dose também podem levar ao hospital
Nos Estados Unidos, a FDA também registrou problemas relacionados a versões manipuladas de semaglutida e tirzepatida.
A agência informou ter recebido diversos relatos de eventos adversos, alguns deles suficientemente graves para exigir hospitalização, associados possivelmente a erros de dosagem de produtos manipulados de semaglutida.
Até 31 de maio de 2026, a FDA havia recebido 990 relatos de eventos adversos relacionados à semaglutida manipulada e mais de 730 relacionados à tirzepatida manipulada.
A própria FDA, porém, faz uma ressalva importante: nem sempre é possível determinar se o evento adverso foi diretamente causado pelo medicamento ou se outros fatores contribuíram para o quadro. Além disso, a agência considera provável que os eventos relacionados a produtos manipulados estejam subnotificados.
Quando o emagrecimento vira risco
O perigo aumenta quando a busca por um corpo mais magro transforma um medicamento de prescrição em uma espécie de produto de consumo.
É nesse ponto que surgem comportamentos preocupantes: utilização sem indicação médica, aumento da dose por conta própria, combinação inadequada de medicamentos, compra de produtos de origem desconhecida e continuidade do tratamento mesmo diante de sintomas importantes.
Os efeitos adversos mais comuns incluem náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Entretanto, a OMS também aponta que eventos mais graves ou clinicamente relevantes, como doença da vesícula biliar, pancreatite aguda, obstrução intestinal e gastroparesia, estão associados a essa classe e continuam sendo avaliados.
Uma morte registrada não conta toda a história
Há uma diferença fundamental entre “houve mortes entre usuários” e “o medicamento matou essas pessoas”.
Na farmacovigilância, uma notificação de morte ou de reação adversa é um sinal que precisa ser investigado. O paciente pode ter outras doenças, utilizar outros medicamentos ou apresentar condições que também contribuam para o desfecho.
Documentos da Anvisa mostram, por exemplo, que entre 2019 e setembro de 2024 foram registradas no Brasil 524 notificações de suspeitas de eventos adversos relacionados à semaglutida. Destas, 12 tiveram desfecho fatal. A análise regulatória ressalta, entretanto, que os casos fatais não permitem automaticamente atribuir a morte ao medicamento; vários foram classificados como de causalidade não avaliável ou não classificável, por falta de informações suficientes.
Essa distinção é essencial para evitar tanto o alarmismo quanto a falsa sensação de segurança.
O outro perigo: a indústria da promessa rápida
O fenômeno também revela uma transformação cultural.
As redes sociais ajudaram a transformar medicamentos complexos em símbolos de uma nova estética corporal. Antes mesmo de uma avaliação médica, muitas pessoas entram em contato com relatos de celebridades, influenciadores e usuários que apresentam resultados expressivos de perda de peso.
A questão é que uma experiência individual não determina a segurança para outra pessoa.
O organismo, o histórico médico, os medicamentos utilizados simultaneamente, a dose e a indicação clínica fazem diferença.
Por isso, a OMS recomenda que os agonistas de GLP-1 sejam utilizados com orientação profissional e dentro das indicações aprovadas.
Brasil apertou o controle
Diante do crescimento das notificações e da preocupação com o uso inadequado, a Anvisa determinou, em 2025, que a dispensação desses medicamentos passasse a exigir retenção da receita nas farmácias e drogarias.
A regra busca justamente reduzir o uso indiscriminado e permitir maior controle sobre a utilização dos medicamentos.
A agência reforça que o tratamento deve ocorrer sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado.
O que fazer diante de sintomas preocupantes?
A Anvisa recomenda atenção especial a dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando pode irradiar para as costas e estiver acompanhada de náuseas ou vômitos.
Esses sintomas podem ser compatíveis com pancreatite e exigem avaliação médica imediata.
A orientação não é esperar o sintoma desaparecer nem simplesmente reduzir a dose por conta própria.
A verdadeira epidemia pode estar em outro lugar
Existe, de fato, uma expansão mundial extraordinária do uso desses medicamentos. A OMS reconhece o crescimento acelerado da utilização dos agonistas de GLP-1 e também manifesta preocupação com o consumo fora das indicações, a automedicação e a aquisição de produtos por canais não regulamentados.
Mas chamar essa situação de “epidemia de mortes provocadas pelas canetas emagrecedoras” seria ir além do que os dados disponíveis permitem afirmar.
O que os números demonstram é algo mais complexo — e talvez justamente por isso mais importante: há medicamentos eficazes, mas não isentos de riscos; há mortes notificadas, mas nem todas têm causalidade comprovada; há eventos adversos graves; há uso indevido; há erros de dose; há produtos falsificados ou de procedência duvidosa; e há uma corrida social pelo emagrecimento que pode levar pessoas a ignorarem os limites de um tratamento médico.
O problema, portanto, não é simplesmente a existência das canetas.
É a transformação de uma ferramenta terapêutica em objeto de consumo, desejo e automedicação.
Em uma época na qual perder peso rapidamente pode parecer mais importante do que compreender o próprio organismo, a pergunta que deveria acompanhar cada aplicação talvez seja menos “quantos quilos vou perder?” e muito mais: “Este medicamento é realmente indicado para mim, e quem está acompanhando minha saúde enquanto eu o utilizo?”
Porque emagrecer pode ser um objetivo legítimo.
Mas nenhum número na balança deveria valer mais do que a própria vida.
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