Mostrando postagens com marcador Dramaturgia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dramaturgia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, agosto 18, 2026

Laura Cardoso: a memória da dramaturgia brasileira


Por Enéas Bispo 

O Brasil se despede nesta terça-feira de uma de suas maiores artistas. Laura Cardoso, aos 98 anos, partiu na noite de segunda-feira em São Paulo, cidade onde nasceu, viveu e construiu, ao longo de mais de oito décadas, uma das trajetórias mais extensas e admiradas da história da televisão, do cinema, do teatro e do rádio brasileiros. A notícia foi compartilhada pela família em suas redes sociais, com uma mensagem simples e comovente: a grande estrela se despedia do público que a acompanhou por gerações.

Uma vida que começou antes da própria televisão brasileira

Laurinda de Jesus Cardoso — nome de batismo de Laura Cardoso — nasceu em 1927, filha de imigrantes portugueses, mais de duas décadas antes de a televisão sequer existir no país. Ainda menina, no bairro do Bixiga, em São Paulo, encontrou nas brincadeiras de "teatrinho" com os amigos o primeiro sinal de um destino que se confirmaria pouco depois. Aos 15 anos, decidiu que era hora de seguir para o rádio. A mãe resistiu, mas o pai, com quem sempre teve grande cumplicidade, apoiou a escolha e a viu começar como atriz de radionovelas na Rádio Cosmos.

O salto para as telas veio em 1952, quando estreou na TV Tupi na produção "Tribunal do Coração", ao lado de nomes que ajudariam a fundar a própria linguagem da televisão brasileira, como Lima Duarte, Lolita Rodrigues e Vida Alves. Dali em diante, sua carreira não parou mais: passou por TV Excelsior, RecordTV, TV Cultura e, a partir de 1981, pela TV Globo, onde viveria seus papéis mais icônicos.

A arte em Laura Cardoso — e Laura Cardoso na arte

Poucas trajetórias resumem tão bem o que significa dedicar uma vida inteira à interpretação. Foram mais de 150 personagens somados entre teatro, cinema, rádio e televisão, e um recorde que a consagrou: a atriz que mais fez novelas na história da TV brasileira, com 65 produções — número que superou até a marca que havia levado Regina Duarte ao Guinness Book em 1997.

Isaura, em "Mulheres de Areia"; Dona Guiomar, em "A Viagem", papel que ela mesma pediu para não ser morto na trama, de tão entregue que estava à personagem; Soraya, a matriarca cigana de "Explode Coração"; Dona Carmem, a avó bem-humorada de "Chocolate com Pimenta"; e Laksmi Ananda, a matriarca rígida de "Caminho das Índias" — cada papel carregava a marca de uma atriz que fazia da preparação um ritual quase sagrado. Leitura constante e estudo profundo de cada personagem eram, para ela, a base de tudo. Não à toa, colegas como Lima Duarte e Glória Pires a tratavam publicamente como referência e exemplo de profissionalismo para todas as gerações de artistas do país.

Curiosamente, sua voz também atravessou gerações de outra forma: foi ela quem deu vida, em português, à Betty, dos desenhos animados "Os Flintstones" — prova de que seu talento não cabia apenas nas telenovelas.

Amores e afetos de uma vida longa

Foi ainda nos primórdios da TV Tupi que Laura conheceu Fernando Balleroni, ator com quem se casou em 1949 e formou família, tendo dois filhos. Foram décadas de parceria, encerradas pela partida dele em 1980. Depois disso, Laura seguiu dedicada à profissão que sempre foi, em suas próprias palavras, sua grande paixão — o teatro, palco onde colecionou incontáveis prêmios ao longo de dezenas de espetáculos.

Nos últimos anos, era comum vê-la em programas como "Encontro" e "É de Casa", recebendo homenagens e relembrando, com humor e lucidez impressionantes, mais de setenta anos de carreira. Encerrou sua trajetória na televisão em "A Dona do Pedaço", em 2019, fechando um ciclo que atravessou o rádio, o cinema mudo da telinha em preto e branco e a era digital das novelas em alta definição.

Um legado que atravessa gerações

O legado de Laura Cardoso não se mede apenas em números — embora eles sejam, por si só, impressionantes. Mede-se sobretudo na forma como ela encarou a profissão: com seriedade, humildade e uma curiosidade que nunca se esgotou. Ela testemunhou e ajudou a construir a própria história da dramaturgia televisiva brasileira, desde os estúdios pioneiros da TV Tupi até as superproduções da Globo, sempre com a mesma entrega de quem fazia seu primeiro papel.

Para as novas gerações de atores, atrizes, diretores e roteiristas, Laura deixa um exemplo raro: o de que talento se cultiva com disciplina, que carreira longeva se constrói com respeito ao ofício, e que envelhecer nas artes pode ser sinônimo de reinvenção, não de esquecimento. Ela mostrou que não existe idade para continuar surpreendendo o público, e que os grandes personagens muitas vezes chegam depois dos setenta, dos oitenta, dos noventa anos.

O Brasil perde hoje um de seus maiores ícones culturais, mas guarda, em cada novela reprisada, em cada cena de teatro lembrada e em cada depoimento emocionado de colegas de profissão, a certeza de que a arte de Laura Cardoso seguirá viva — inspirando quem sonha em contar histórias, tanto quanto ela contou, por mais de oito décadas, as histórias do Brasil.

terça-feira, julho 07, 2026

Benedito Ruy Barbosa — o homem que fez da terra brasileira um palco, e do palco, um pedaço de chão para todos nós


Por Enéas Bispo 

Ele partiu hoje.

Mas antes de partir, plantou. Plantou histórias como quem planta lavoura: fundo, com paciência, esperando a estação certa para florescer na tela de milhões de casas brasileiras. Nasceu em Gália, interior de São Paulo, filho de jornalista, neto do sertão, e desde cedo aprendeu que a vida do caboclo, do imigrante, do homem que lavra a terra com as próprias mãos, também merecia ser contada com a dignidade de uma ópera.

Começou pelo teatro, com Fogo Frio, e logo a televisão o chamou — e ele respondeu com um Brasil inteiro. Escreveu sobre irmãos que não se conheciam, sobre anjos disfarçados de vagabundos, sobre imigrantes italianos que atravessaram o oceano com uma mala e um sonho. Deu nome e rosto ao Pantanal antes que o Pantanal virasse destino turístico — fez dele personagem, fez dele lenda, fez dele espelho da alma brasileira.

Renasceu com Renascer. Ensinou o país a cantar com O Rei do Gado. Levou Terra Nostra além das fronteiras. E, quando a saúde vacilou, passou a pena adiante — para as filhas, para o neto — porque sabia que uma boa história é maior do que quem a escreve, e merece continuar viva mesmo quando o autor descansa.

Não escreveu para a elite. Escreveu para a cozinha, para a sala, para quem chegava cansado do trabalho e encontrava, na tela, um retrato do próprio Brasil: rural, sofrido, teimoso, mas sempre com esperança guardada no bolso do avental.

Hoje, o roteirista da vida real também escreveu seu último capítulo. Mas como em toda boa novela sua, sabemos que isso não é o fim — é apenas o momento em que a história muda de mãos, e o Brasil, comovido, vira mais uma página.

Obrigado, Benedito. Pela terra que você nos ensinou a amar, e pelas histórias que ainda vão nascer, porque você as plantou fundo demais para morrerem com você.