Uma crônica sobre uma mulher que cansou de ser eterna.
Por Enéas Bispo
Em 2026, depois de mais de cinco séculos sorrindo para desconhecidos, Monalisa tomou uma decisão: queria ver o mundo.
Estava cansada.
Cansada de permanecer imóvel, de fingir que aquele sorriso enigmático era suficiente para uma existência inteira. Cansada dos flashes, dos turistas que lhe apontavam celulares, dos especialistas que discutiam seu olhar como se ela não tivesse direito a guardar os próprios segredos. Cansada, sobretudo, de ser a mulher mais observada do mundo e, paradoxalmente, uma das que menos liberdade tinham para viver.
Certa manhã, enquanto o Louvre ainda despertava, ela olhou para a moldura dourada e pensou:
— Se Leonardo me pintasse hoje, será que me daria pernas para correr?
Foi quando percebeu que não precisava pedir licença ao artista. O quadro era uma obra-prima, mas não era uma prisão com escritura registrada.
Desceu da moldura, ajeitou o vestido e caminhou em direção à saída.
Na portaria, um segurança ergueu os olhos.
— Madame, seu ingresso?
Monalisa sorriu.
— Meu filho, passei quinhentos anos aqui dentro. Acho que já paguei o suficiente.
E saiu.
A primeira coisa que fez foi respirar fundo. Não aquele ar condicionado dos museus, cuidadosamente administrado para preservar obras antigas, mas o ar desobediente da rua, misturado ao cheiro de café, gasolina, pão quente e chuva anunciada.
Paris estava viva. E ela, pela primeira vez em séculos, também.
O disfarce de uma celebridade
Monalisa sabia que não poderia sair por aí com o rosto original. Bastaria um turista reconhecê-la para que, em minutos, a cidade inteira estivesse atrás dela.
Precisava de um disfarce.
Entrou numa pequena loja de roupas e escolheu um jeans, uma blusa preta, tênis confortáveis e um casaco largo. Prendeu os cabelos, colocou óculos escuros enormes e um boné que lhe escondia a testa.
Diante do espelho, examinou o resultado.
— Agora, sim. Uma mulher comum.
Fez uma pausa.
— Ou quase. Esse sorriso ainda vai me comprometer.
Decidiu também abandonar o próprio nome. Nas ruas, seria apenas Lisa, uma turista italiana que gostava de caminhar sozinha, tomar café sem pressa e não dar explicações sobre a própria vida.
O problema era que seu disfarce funcionava perfeitamente até alguém olhar para ela por mais de três segundos.
Havia alguma coisa naquele rosto. Uma familiaridade inexplicável. Uma expressão que parecia dizer: eu sei algo que você não sabe.
Era o suficiente para despertar suspeitas.
O que faria Monalisa nas ruas de Paris?
Monalisa descobriria que o mundo continuava cheio de mistérios, embora agora todos carregassem um telefone capaz de fotografá-los.
Pegaria o celular de uma moça distraída e perguntaria como funcionava aquela pequena máquina que fazia as pessoas sorrirem para uma tela enquanto ignoravam quem estava sentado diante delas.
Aprenderia a usar as redes sociais. Publicaria uma fotografia sem mostrar o rosto e escreveria:
“Hoje resolvi sair da moldura. Recomendo.”
Em menos de uma hora, a publicação teria milhões de visualizações.
Depois, caminharia às margens do Sena, observaria os barcos, entraria numa livraria e compraria um romance policial. Queria ler uma história em que não fosse ela o enigma.
Ao meio-dia, sentaria num banco de praça para comer um sanduíche. Talvez dividisse algumas migalhas com os pombos. Ficaria surpresa ao perceber que ninguém exigia dela um sorriso permanente para que o dia continuasse.
E, se alguém lhe perguntasse por que estava tão feliz, responderia:
— Porque hoje ninguém está pagando ingresso para me olhar.
A mulher que queria ser anônima
No começo da tarde, Monalisa resolveu entrar no próprio museu.
Não pela entrada principal, naturalmente. Entrou pela loja de lembranças, misturada aos visitantes, e ficou espantada com a quantidade de objetos que estampavam seu rosto.
Havia canecas, camisetas, chaveiros, bolsas, cadernos e até imãs de geladeira.
Ela pegou uma caneca com a própria imagem e examinou-a cuidadosamente.
— Meu Deus! Nem morta me deixam em paz.
Uma menina passou por ela, segurando a mão da mãe. Parou, olhou para a caneca e depois para Monalisa.
Olhou novamente.
Aproximou-se devagar.
— Mamãe, aquela moça parece a Monalisa!
A mãe sorriu, sem sequer levantar os olhos do celular.
— Parece, querida. Todo mundo parece alguém na internet.
A menina não se convenceu.
Monalisa abaixou o rosto, ajeitou o boné e saiu antes que a pequena detetive convocasse o mundo inteiro.
Foi nesse instante que compreendeu a ironia da própria existência: durante séculos, as pessoas haviam atravessado oceanos para contemplá-la. Agora, que ela desejava contemplar o mundo, precisava esconder-se delas.
A fama era uma espécie de moldura invisível. Não tinha madeira nem vidro, mas limitava seus movimentos com a mesma eficiência.
E se ela viesse ao Brasil?
No fim da tarde, enquanto observava o movimento de uma estação de trem, Monalisa teve uma ideia ainda mais ousada.
Por que limitar sua liberdade a Paris?
Compraria uma passagem para o Brasil.
Desembarcaria no Nordeste, onde descobriria que a vida também pode ser uma festa, mesmo quando o dinheiro é curto e o sol não oferece trégua.
Em alguma cidade do Cariri paraibano, por exemplo, entraria numa padaria, pediria café, cuscuz com queijo coalho e ficaria conversando com as pessoas.
Ali, ninguém teria tempo para discutir a técnica de sfumato de Leonardo da Vinci. Perguntariam de onde ela vinha, se tinha família, se era casada e o que fazia da vida.
— Sou artista — responderia.
— Artista de quê?
Ela pensaria um pouco.
— De ficar parada.
O padeiro cairia na gargalhada.
E Monalisa descobriria que fazer alguém rir era muito mais gratificante do que passar séculos sendo analisada por especialistas.
À noite, iria a uma praça, ouviria um sanfoneiro, comeria uma tapioca e observaria as famílias reunidas. Talvez dançasse forró, ainda que seus movimentos fossem desajeitados. Afinal, ninguém nasce sabendo dançar, nem mesmo uma obra-prima.
E se alguém reconhecesse seu rosto?
Ela inventaria uma desculpa:
— Sou prima distante daquela mulher do quadro. A família é italiana, sabe como é...
Talvez funcionasse.
Talvez não.
No Brasil, uma boa história, quando contada com convicção, às vezes consegue chegar mais longe do que a verdade.
O sorriso, finalmente, teria um motivo
Naquela noite, depois de um dia inteiro andando, conversando, comendo e descobrindo o mundo, Monalisa se sentaria num banco de praça.
Estaria cansada, com os pés doloridos, os cabelos desalinhados e o vestido amassado.
Pela primeira vez em mais de quinhentos anos, sentiria o cansaço de quem viveu um dia de verdade.
Pensaria em Leonardo, no Louvre, nos críticos, nos turistas e em todas aquelas pessoas que haviam tentado decifrar seu sorriso.
Talvez ele nunca tivesse sido um mistério.
Talvez fosse apenas o sorriso de uma mulher que sabia que havia muito mais vida do lado de fora do quadro.
Pegaria o celular e tiraria uma selfie.
Sem filtros.
Sem moldura.
Sem autorização de museu.
Publicaria a fotografia com uma legenda simples:
"Não sei quando volto. Por enquanto, estou ocupada vivendo.”
Em Paris, os alarmes do Louvre começariam a tocar. Especialistas discutiriam o desaparecimento. Jornalistas interromperiam a programação. As redes sociais entrariam em colapso.
E, em algum lugar do Nordeste brasileiro, uma mulher de boné, óculos escuros e sorriso suspeitamente familiar pediria mais um café.
Quando o atendente perguntasse se ela queria açúcar, Monalisa responderia:
— Hoje, meu filho, quero tudo o que a vida puder adoçar.
E sorriria.
Dessa vez, não para a eternidade.
Mas para o instante.
Porque, depois de quinhentos anos sendo admirada por milhões de pessoas, Monalisa finalmente descobrira que a maior obra de arte não era aquela que todos queriam ver.
Era a vida que ela ainda não tinha vivido.
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