|O texto aborda o tema sob uma perspectiva crítica e sociológica, focando na perda da individualidade e nos riscos da busca por um padrão estético artificial e extremo.|
Por Enéas Bispo
Vivemos um momento histórico em que a busca pela "perfeição" estética atravessou a fronteira do autocuidado para entrar no terreno da deformação sistemática. O que antes era chamado de procedimento estético tornou-se uma arquitetura de descaracterização. No Brasil, país que lidera rankings mundiais de cirurgias plásticas, assistimos a um fenômeno alarmante: a substituição da beleza natural e diversa por um padrão de estranheza industrializado.
A Era da "Beleza de Filtro" e a Perda da Identidade
O fenômeno, muitas vezes rotulado pejorativamente nas redes sociais devido à sua agressividade visual, reflete uma busca por traços hipermasculinizados ou exagerados em rostos femininos. Mandíbulas extremamente marcadas, lábios com volumes que desafiam a anatomia e maçãs do rosto projetadas ao limite criam uma estética que se distancia do humano e se aproxima do inorgânico.
Essa "ode ao bizarro" não é uma coincidência, mas o resultado de três fatores críticos:
- A Influência dos Algoritmos: A busca por um rosto que "funcione" em filtros de redes sociais (o chamado Instagram Face).
- A Dismorfia Corporal Digital: A incapacidade de aceitar o próprio rosto sem a edição de softwares, levando pacientes a buscarem resultados impossíveis na vida real.
- A Mercantilização da Medicina: Profissionais que priorizam o lucro em detrimento da ética e da harmonia anatômica.
A Homogeneização das Mulheres Brasileiras
O Brasil sempre foi celebrado por sua miscigenação e pela beleza de suas curvas e traços únicos. Hoje, o que vemos é uma pasteurização. De norte a sul, mulheres de diferentes etnias estão saindo de clínicas com a mesma fisionomia: o mesmo nariz, a mesma projeção de queixo e o mesmo olhar "paralisado".
Essa busca pelo "exótico artificial" acaba por apagar as ancestralidades. Quando a característica individual é vista como um defeito a ser corrigido por preenchedores, a identidade pessoal morre em favor de um padrão de beleza que beira o grotesco.
O Alerta: Saúde Mental e Riscos Físicos
Não se trata apenas de uma questão de gosto ou vaidade. É um problema de saúde pública e psicológica.
- Cegueira Estética: O paciente perde a noção de limite e, a cada novo procedimento, deseja mais, resultando em rostos inflamados e expressões endurecidas.
- Riscos Biológicos: O uso excessivo de PMMA e ácido hialurônico em grandes volumes pode causar necroses, cegueira e deformidades irreversíveis.
- Impacto Social: Que mensagem estamos enviando às novas gerações? A de que o rosto com o qual nascemos é apenas um rascunho imperfeito a ser descartado?
Considerações Finais
Precisamos resgatar o conceito de harmonia. A beleza reside na singularidade, não na conformidade com um molde de plástico. O alerta é urgente: quando o belo se torna indistinguível do bizarro, a sociedade perde sua conexão com a realidade e com a própria humanidade. É hora de parar de celebrar a deformidade e voltar a valorizar a vida que pulsa na imperfeição.
Nenhum comentário:
Postar um comentário