Por Enéas Bispo
A máxima de que "o problema não é o acesso, é a permanência" ressoa como um grito de alarme nos corredores da educação, do mercado de trabalho e das políticas de inclusão social. É um reconhecimento doloroso de que a franqueza da entrada não é sinônimo de garantia de sucesso. Como conhecedor do tema, afirmo: este não é um mero detalhe; é o ponto nevrálgico onde a promessa de igualdade falha sutilmente e, por vezes, de forma catastrófica.
🚪 O Engodo do "Acesso Facilitado"
A sociedade moderna, em um esforço louvável para corrigir iniquidades históricas, tem focado grande parte de sua energia e recursos em políticas de acesso. Vemos isso na criação de cotas, em programas de subsídio para o ensino superior, na eliminação de barreiras físicas e, teoricamente, na desburocratização de processos seletivos.
O acesso se torna a métrica de sucesso: mais pessoas de grupos sub-representados em universidades, mais mulheres em cargos de liderança, mais minorias em grandes empresas. Essa é a etapa da Esperança. Contudo, ao celebrarmos a abertura do portão, frequentemente ignoramos a qualidade e a estrutura do ambiente dentro da muralha.
O acesso, por si só, é apenas a licença para competir em um campo que, para muitos, ainda está profunda e desigualmente inclinado.
⚖️ A Estrutura Invisível da Desistência
A permanência, em contraste, exige a desativação de uma rede complexa de obstáculos que não são explicitamente proibitivos, mas são cumulativamente exaustivos e desmotivadores. Estes são os "detalhes sutis" que definem o fracasso:
1. O Custo Oculto da Meritocracia
Para muitos, o acesso é garantido, mas a infraestrutura de suporte não. Um estudante de baixa renda pode ter a vaga na universidade pública, mas luta com o custo de transporte, alimentação, material e, crucialmente, a necessidade de trabalhar para auxiliar a família. Enquanto seus colegas podem dedicar 100% de seu tempo aos estudos, ele divide sua energia e foco, resultando em um desempenho acadêmico inferior, não por falta de capacidade, mas por déficit de tempo e recurso. A evasão é, muitas vezes, uma decisão econômica, não intelectual.
2. O Isolamento e o Pertencimento (ou a Falta Dele)
Pessoas que acessam ambientes historicamente homogêneos (como mulheres em engenharias ou negros em posições de diretoria) frequentemente enfrentam a Síndrome do Impostor amplificada pela falta de representatividade e um clima institucional hostil ou indiferente. Não basta estar presente; é preciso pertencer. A ausência de mentores que compartilham sua vivência, a microagressão diária e a invisibilidade de sua cultura ou história minam a saúde mental e a perseverança, transformando a permanência em um ato de resistência exaustivo.
3. A Inflexibilidade Institucional
Muitas estruturas foram desenhadas para um perfil de indivíduo que hoje é minoritário: o estudante em tempo integral sem responsabilidades familiares, o profissional que pode dedicar longas horas sem interrupção. Quando indivíduos com necessidades diversas – pais e mães solteiros, pessoas com deficiência, estudantes trabalhadores – acessam esses espaços, a rigidez curricular, a falta de políticas de licença ou o desrespeito às acomodações necessárias tornam o caminho insustentável. A permanência é barrada por um sistema que se recusa a se adaptar ao diverso que ele mesmo acolheu.
💡 A Solução: Do Acesso à Sustentação
O "sutil detalhe" da permanência clama por uma mudança de paradigma nas políticas públicas e institucionais. Devemos migrar de um foco no "Recrutamento" para um foco na "Sustentação":
▪︎Bolsas e Suporte Abrangente: Substituir bolsas esparsas por um suporte financeiro que cubra integralmente os custos de vida para estudantes de baixa renda, permitindo a dedicação integral.
▪︎Mentorias Estruturadas e Representativas: Criar programas de mentoria obrigatórios, onde a diversidade dos mentores espelhe a dos mentorados, fomentando o senso de pertencimento.
▪︎Clima e Cultura Inclusiva: Instituições devem investir em treinamento contínuo para líderes e docentes sobre preconceito implícito e microagressões, transformando o ambiente em um lugar de acolhimento ativo, e não de mera tolerância.
▪︎Flexibilidade Estrutural: Implementar políticas de ensino híbrido, horários flexíveis e licenças parentais ou de saúde sem penalização, reconhecendo a complexidade da vida adulta e familiar.
🚀 A Permanência Como Verdadeiro Indicador de Sucesso
O acesso é a porta. A permanência é o alicerce que permite que o indivíduo não apenas entre, mas floresça.
Se continuarmos a medir o sucesso apenas pela taxa de entrada, mas ignorarmos o número alarmante de evasões, desistências e esgotamentos, estaremos apenas construindo um cenário de inclusão ilusória. Estaremos vendendo a promessa de igualdade, mas entregando a realidade de uma luta individual desigual.
A verdadeira igualdade não se estabelece quando se abre a porta para o oprimido; ela se concretiza quando se removem as pedras do caminho para que ele possa caminhar com a mesma dignidade e velocidade dos que já estavam lá. O problema não é o acesso, é o compromisso social e estrutural com a permanência. E é neste compromisso que reside o futuro genuinamente equitativo.
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