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quinta-feira, julho 16, 2026

O homem que trocou o breaking news pelo terroir


|Por Enéas Bispo 

Há vozes que a gente reconhece antes de olhar para a tela. A de Renato Machado era uma delas. Entrava pela manhã na casa dos brasileiros com a compostura de quem já tinha visto o mundo — e visto mesmo: cobriu a Guerra das Malvinas, testemunhou Chernobyl à distância de um continente, esteve em Paris quando o terror bateu à porta do Charlie Hebdo. Passou por Londres como correspondente, por Jornal Nacional, Jornal da Globo, RJTV, Bom Dia Brasil. Quatro décadas dizendo ao país o que estava acontecendo lá fora, com aquela dicção que parecia ensaiada e não era: era apenas respeito pelo ofício.

Mas o jornalismo, para quem o exerce direito, não é só notícia. É também escuta, curiosidade, sensibilidade para o que dura depois que a manchete passa. E Renato Machado descobriu, em algum ponto da estrada — talvez entre um plantão e outro, talvez numa tarde livre na Provença —, que havia outra linguagem que também valia a pena traduzir: a dos vinhos.

Não foi um hobby de aposentado entediado. Foi extensão do mesmo olhar repórter, só que virado para dentro da taça. Em 2014, ainda na ativa, levou as câmeras da Globo para os vinhedos franceses e voltou com uma série sobre a Provença que não falava só de uvas: falava do mistral que varre os Alpes e protege as vinícolas, da mesa, da paisagem, do jeito como um território inteiro pode estar dissolvido dentro de uma garrafa. Quem cobre guerra sabe reconhecer o que é frágil e precisa de cuidado. Talvez por isso ele tenha entendido tão bem uma videira.

Quando deixou a Globo, em 2021, não desapareceu — trocou de plataforma, não de vocação. Continuou contando histórias, agora nas redes, agora sobre rótulos e regiões, viagens e boas mesas. Em 2024, fechou o círculo com um documentário sobre aquela mesma Provença que o havia seduzido dez anos antes. Não era mais breaking news. Era memória, era gosto, era tempo — a matéria de que são feitas as crônicas, e da qual ele, sem talvez planejar, virou também um pequeno personagem.

Morreu nesta quinta-feira, aos 83 anos, no Rio de Janeiro. Fica a voz que abriu tantas manhãs. Fica também a lição, menos óbvia, de que uma vida de notícias urgentes pode desembocar, com sorte e bom gosto, numa taça servida devagar. Que ele descanse onde o vento seja parecido com o mistral — e que, se houver mesa lá, tenha vinho bom e conversa longa.

quinta-feira, outubro 03, 2024

Morre Cid Moreira, Ícone do Jornalismo Televisivo Brasileiro, aos 97 Anos


Por Enéas Bispo*

Na manhã desta quinta-feira, 3 de outubro de 2024, o Brasil perdeu um dos maiores ícones do jornalismo televisivo. Cid Moreira, conhecido por sua voz inconfundível e presença marcante na televisão, faleceu aos 97 anos. Ele estava internado no Hospital Santa Teresa, em Petrópolis, tratando de uma pneumonia.

Cid Moreira iniciou sua carreira no rádio, mas foi na televisão que se consagrou. Ele foi o primeiro apresentador do "Jornal Nacional", da TV Globo, onde permaneceu por 27 anos, tornando-se uma figura emblemática para milhões de brasileiros. Sua voz grave e serena marcou uma era e trouxe credibilidade e confiança ao telejornalismo nacional.

Além do "Jornal Nacional", Cid também teve passagens memoráveis pelo programa "Fantástico", onde narrou quadros icônicos como o do Mister M, o mágico mascarado que revelava truques de ilusionismo. Nos últimos anos, dedicou-se à locução de passagens bíblicas, um trabalho que considerava sua missão de vida.

Cid Moreira deixa um legado inestimável para o jornalismo e a comunicação no Brasil. Sua trajetória é um exemplo de dedicação, profissionalismo e paixão pela notícia. O velório e o sepultamento ainda não tiveram detalhes divulgados pela família.

O Brasil se despede de Cid Moreira com gratidão e saudade, lembrando-se sempre do seu inconfundível "Boa noite" que ecoou por décadas nas casas de todo o país.

*Fonte: Estadão