João Pessoa, João Dantas e João Suassuna
Por Enéas Bispo
No fim da década de 1920, a Paraíba era um pequeno estado nordestino cuja política interna, aparentemente provinciana, viria a decidir os rumos do Brasil. Três homens batizados com o mesmo nome — João Suassuna, João Pessoa e João Duarte Dantas — protagonizaram um enredo de disputas de poder, ruptura partidária e crime passional que se tornaria o estopim da Revolução de 1930, movimento que encerrou a República Velha e conduziu Getúlio Vargas à Presidência da República. Este ensaio reconstitui as trajetórias desses três "Joões", a crise política paraibana que os uniu e opôs, e o desfecho sangrento que transformou uma rixa local em acontecimento de escala nacional.
João Suassuna: o sertanejo à frente do Partido Republicano
João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna nasceu em 9 de janeiro de 1886, em Catolé do Rocha, no sertão paraibano. Formado pela Faculdade de Direito do Recife, atuou como advogado no Rio Grande do Norte e como juiz em cidades paraibanas como Umbuzeiro, Campina Grande e Monteiro, além de procurador da Fazenda Nacional na Paraíba. Iniciou a carreira política como auxiliar dos governos estaduais de Castro Pinto e Camilo de Holanda, destacando-se cedo como uma liderança promissora e atraindo o apadrinhamento de Epitácio Pessoa, o paraibano que havia sido presidente da República entre 1919 e 1922.
Eleito deputado federal em 1921, Suassuna renunciou ao mandato em 1924 para assumir a presidência (equivalente a governo) do Estado da Paraíba, cargo que ocupou de outubro de 1924 a outubro de 1928, sucedendo Sólon de Lucena. Em 1926 foi eleito, por unanimidade, chefe do Partido Republicano da Paraíba (PRP) — a legenda hegemônica no estado, também chamada de "partido epitacista" por sua ligação com Epitácio Pessoa. Seu governo priorizou o sertão: incentivou a agricultura e a pecuária, ampliou a produção algodoeira e investiu em silos para estocagem de cereais e forragem, na tentativa de conter o êxodo rural para os centros urbanos. No plano cultural, apoiou o Movimento Regionalista nordestino e foi responsável pela publicação, no jornal oficial A União, do romance A Bagaceira, de José Américo de Almeida — obra saudada por Alceu Amoroso Lima e que inaugurou o chamado ciclo dos "romances de 30".
Ao fim de seu mandato, Suassuna articulou a sucessão indicando um nome de sua confiança, mas as forças do PRP voltaram-se para outro candidato: João Pessoa, sobrinho de Epitácio Pessoa. Suassuna retornou então à Câmara dos Deputados como representante paraibano, mantendo-se como liderança influente entre os chefes políticos do interior — os "coronéis" do sertão que compunham sua base de sustentação.
João Pessoa: o modernizador que rompeu com a velha política
João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque nasceu em janeiro de 1878, em Umbuzeiro, Paraíba. Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife, construiu carreira jurídica e política ligada ao tio, Epitácio Pessoa, chegando a ministro do Superior Tribunal Militar em 1920. Em 1928, na sucessão de João Suassuna, foi escolhido candidato único do PRP ao governo paraibano, tomando posse em outubro daquele ano com um discurso que prometia reformar os costumes políticos: defendia o voto secreto e obrigatório e a renovação dos quadros partidários, sinalizando proximidade com as ideias do recém-criado Partido Democrático paulista — de perfil mais urbano e reformista do que o PRP tradicional.
Diferentemente de Suassuna, cuja base era o sertão e os grandes proprietários rurais, João Pessoa representava a classe média urbana da capital e um projeto de modernização administrativa. O escritor Ariano Suassuna, filho de João Suassuna, sintetizaria décadas depois essa polaridade: "Pessoa representava a classe média das cidades e da capital, e estava na vanguarda. Meu pai, no entanto, representava os sertanejos e o status quo. Pode-se dizer que eles foram os dois últimos senhores feudais do sertão."
O atrito entre as duas alas do PRP azedou em 1929. Buscando consolidar seu controle sobre a bancada federal e enfraquecer a influência de Suassuna, João Pessoa defendeu a renovação total da representação paraibana na Câmara dos Deputados — medida que, na prática, visava afastar politicamente seu antecessor. Usando as prerrogativas de chefe do partido, assinou sozinho o manifesto que apresentava a nova chapa de candidatos, o que levou diversas lideranças do PRP a romperem com ele. Nesse mesmo período, João Pessoa aderiu à Aliança Liberal, coligação de oposição formada para lançar Getúlio Vargas à Presidência da República, e tornou-se candidato a vice-presidente na chapa vitoriosa apenas nos votos, mas derrotada no resultado oficial das eleições de março de 1930 pela chapa situacionista de Júlio Prestes.
A ruptura política teve reflexos violentos no interior do estado. No município de Princesa (atual Princesa Isabel), o chefe político local José Pereira iniciou, em fevereiro de 1930, uma revolta armada contra o governo estadual que se estenderia por meses, reunindo milhares de homens e contando com apoio, ainda que indireto, de setores ligados aos antigos correligionários de Suassuna. Em resposta aos levantes, a polícia de João Pessoa promoveu batidas e invasões às casas e escritórios de suspeitos de conspirar com os rebeldes — episódio que teria consequências decisivas para o desfecho da história.
João Dantas: o advogado, o escândalo e o crime
João Duarte Dantas nasceu em 12 de junho de 1888, em Mamanguape (PB). Advogado e jornalista, era aparentado por casamento com a família do próprio João Suassuna, tornando-se, por laços pessoais e políticos, um desafeto de João Pessoa. Dantas mantinha ainda um conflito direto com o coronel José Pereira, líder da revolta de Princesa, e essa disputa local — mais do que a política presidencial — estaria na origem imediata da tragédia.
Em meio à repressão aos apoiadores dos revoltosos de Princesa, a polícia paraibana, sob ordens do governo de João Pessoa, invadiu o escritório de Dantas, na Rua Duque de Caxias, em Parahyba do Norte (atual João Pessoa). Ali, além de documentos ligados às investigações, os agentes apreenderam correspondências íntimas trocadas entre Dantas e sua companheira, a jovem professora e poetisa Anayde Beiriz. O jornal oficial A União passou a insinuar diariamente a existência de material "imoral" apreendido, alimentando um escândalo público que expôs a vida privada do casal e humilhou Dantas perante a sociedade paraibana.
Tomado pela humilhação pessoal e pelo antagonismo político, João Dantas viajou ao Recife e, em 26 de julho de 1930, encontrou João Pessoa na Confeitaria Glória, ponto de encontro da elite nordestina situado no cruzamento das ruas Nova e da Palma, no centro da cidade. Ali efetuou três disparos que mataram o presidente paraibano. Dantas foi atingido de raspão por um tiro e imediatamente preso, junto de seu cunhado e colaborador, o engenheiro Augusto Moreira Caldas.
Anayde Beiriz: a mulher no centro da tempestade
Anayde da Costa Beiriz nasceu em 18 de fevereiro de 1905, na capital paraibana, filha de um tipógrafo do jornal A União. Formou-se professora pela Escola Normal em 1922 e lecionava para pescadores e suas famílias na então vila de Cabedelo, alfabetizando crianças de dia e adultos à noite — um trabalho pioneiro para uma mulher em uma sociedade extremamente conservadora. Paralelamente, publicava poemas e contos em jornais e revistas dentro e fora do estado, tornando-se uma figura conhecida nos círculos literários locais, com hábitos considerados modernos para a época, como o corte de cabelo "à la garçonne" e o uso de batom.
Em 1928, iniciou um relacionamento amoroso com João Dantas. A divulgação de suas cartas íntimas após a invasão do escritório do advogado, ainda que o conteúdo nunca tenha sido de fato publicado, bastou para transformá-la em alvo de perseguição moral: passou a ser apontada publicamente, de forma difamatória, como suposta responsável indireta pela tragédia. Pesquisas históricas recentes, como a de Valeska Asfora, contestam essa narrativa e reafirmam sua trajetória autônoma como professora e escritora, distinta do papel de mera coadjuvante sentimental que a memória popular lhe atribuiu.
Após o assassinato de João Pessoa, Anayde deixou sua casa na Paraíba e passou a viver isolada em um abrigo no Recife, visitando Dantas na prisão. Em 6 de outubro de 1930, já em pleno curso da Revolução, uma multidão exaltada invadiu a Casa de Detenção do Recife e assassinou brutalmente João Dantas e Augusto Moreira Caldas, decapitando-os — episódio que a versão oficial da época tentou apresentar como duplo suicídio. Isolada, rejeitada por parte da família e emocionalmente destroçada, Anayde Beiriz tirou a própria vida em 22 de outubro de 1930, ingerindo veneno em um asilo no Recife. Tornou-se, na memória histórica, a única mulher vitimada diretamente pela tragédia de 1930.
A Revolução de 1930 e a morte de João Suassuna
O assassinato de João Pessoa, somado à derrota eleitoral da Aliança Liberal, funcionou como catalisador da insatisfação de setores civis e militares com o governo de Washington Luís. A comoção popular em torno da morte do governador paraibano — instrumentalizada politicamente como um "martírio" da causa liberal, ainda que suas raízes fossem majoritariamente locais e pessoais — alimentou o movimento armado que eclodiu em 3 de outubro de 1930 em diversos estados, sob liderança de Getúlio Vargas, e culminou na deposição de Washington Luís e na ascensão de Vargas ao poder, encerrando a chamada Primeira República (ou República Velha).
Nesse mesmo turbilhão, João Suassuna, que como deputado federal havia permanecido próximo às lideranças do PRP e da resistência ao governo de João Pessoa, foi ele também vítima de violência política. Em 9 de outubro de 1930 — poucos dias após a morte de Dantas e Moreira Caldas na prisão — João Suassuna foi assassinado a tiros no Rio de Janeiro, então capital federal, no cruzamento das ruas Riachuelo e Inválidos, num crime que selou de forma dramática o encerramento simultâneo dos três destinos entrelaçados pela crise paraibana.
Legado e memória
A morte de João Pessoa teve efeitos simbólicos duradouros: em setembro de 1930, a capital paraibana, até então chamada Parahyba do Norte, foi rebatizada com seu nome. A bandeira do estado da Paraíba passou a trazer as cores preta e vermelha, associadas ao luto e ao sangue derramado, e a palavra "NEGO", em referência à recusa de João Pessoa em reconhecer a vitória de Júlio Prestes.
A tragédia também deixou marcas na cultura paraibana e brasileira. O escritor Ariano Suassuna, filho de João Suassuna, tornou-se uma das maiores vozes da literatura nordestina do século XX, e sua obra frequentemente evoca o mundo do sertão que seu pai representara politicamente. A figura de Anayde Beiriz, por sua vez, foi resgatada por historiadores e biógrafos — como José Joffily, autor de Anayde Beiriz, Paixão e Morte na Revolução de 30 (1980), e mais recentemente Valeska Asfora — como símbolo de uma mulher moderna sufocada pelo conservadorismo moral de sua época, tanto quanto pela violência política que a cercou.
Destinos Entrelaçados
A história dos três Joões condensa, em escala estadual, os mecanismos que levariam ao colapso da República Velha: o coronelismo e as alianças partidárias frágeis, personificados em João Suassuna; o projeto de modernização política que rompia com essas estruturas, encarnado por João Pessoa; e a violência privada, misturada a ressentimentos políticos, que João Dantas transformou em ato público de consequências nacionais. Anayde Beiriz, alheia às disputas de poder, pagou o preço mais alto por um escândalo que não era seu. Juntos, esses destinos entrelaçados na Paraíba de 1930 ilustram como episódios de fundo pessoal e local podem, em contextos de crise institucional aguda, precipitar transformações históricas de grande alcance — neste caso, o fim de uma república oligárquica e o início da Era Vargas.
Nota metodológica: este ensaio foi construído a partir de fontes jornalísticas, enciclopédicas e de divulgação histórica disponíveis publicamente na internet, incluindo os verbetes biográficos do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV). Para aprofundamento acadêmico, recomenda-se consulta a fontes primárias de arquivo e à bibliografia especializada sobre a Revolução de 1930, como as obras de José Joffily e os estudos do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano.