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terça-feira, setembro 01, 2026

Lembra do que te faz feliz. Fala dos teus sonhos. Alimenta o que te fortalece. Não deixa o mundo te engolir.


Por Enéas Bispo 

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, é uma das vozes mais autênticas e atemporais da literatura brasileira. Sua vida, marcada por desafios e uma tardia consagração literária, é um testemunho da resiliência e da capacidade humana de florescer em qualquer idade. Nascida na antiga Vila Boa de Goiás, Cora Coralina transformou as experiências do cotidiano, as paisagens de sua terra natal e a sabedoria popular em poesia e prosa que tocam a alma. Suas palavras, simples e profundas, ecoam verdades universais sobre a existência, a busca por sentido e a preservação da essência individual. Entre suas muitas pérolas de sabedoria, uma citação em particular ressoa com uma força singular, servindo como um verdadeiro guia para a vida em tempos de incerteza e constante transformação: "Lembra do que te faz feliz. Fala dos teus sonhos. Alimenta o que te fortalece. Não deixa o mundo te engolir." Esta frase, que condensa em poucas palavras uma filosofia de vida robusta e inspiradora, será o fio condutor deste ensaio. Através de quatro capítulos distintos, exploraremos cada um desses pilares, desvendando suas camadas de significado e refletindo sobre como podemos aplicá-los em nossa jornada pessoal. A obra de Cora Coralina nos convida a um mergulho introspectivo, a um reencontro com o que há de mais genuíno em nós, e esta citação é um convite irrecusável a viver com propósito, autenticidade e alegria.

Capítulo 1: Lembra do que te faz feliz. 

Em um mundo que frequentemente nos impulsiona a buscar a felicidade em conquistas externas, bens materiais ou validação social, a primeira parte da citação de Cora Coralina nos convida a um movimento inverso: "Lembra do que te faz feliz." Esta frase é um poderoso lembrete de que a verdadeira alegria muitas vezes reside nas memórias, nas experiências passadas e na capacidade de reconhecer e valorizar o que já possuímos e vivemos. Não se trata de uma nostalgia paralisante, mas de um exercício consciente de autoconsciência e gratidão, uma busca ativa pelas fontes internas de contentamento. Lembrar do que nos faz feliz é um ato de resiliência. Em momentos de adversidade, quando o presente se mostra desafiador e o futuro incerto, a memória afetiva se torna um refúgio e uma fonte de força. Ao revisitar mentalmente aqueles instantes de pura alegria ‒ um abraço apertado, uma paisagem que nos encantou, uma risada compartilhada, uma conquista pessoal, o sabor de uma comida que nos remete à infância ‒ ativamos em nosso cérebro as mesmas sensações de bem-estar. Essa capacidade de evocar emoções positivas não apenas alivia o peso do momento presente, mas também nos reconecta com a nossa essência, com aquilo que verdadeiramente importa e nos nutre. Além das grandes celebrações, Cora Coralina, com sua sensibilidade aguçada para o cotidiano, nos ensina a encontrar a felicidade nas pequenas coisas. Um raio de sol que entra pela janela, o cheiro de café fresco, o canto de um pássaro, a leitura de um bom livro, a simplicidade de um pão de milho recém-assado. São esses detalhes, muitas vezes imperceptíveis na correria do dia a dia, que compõem a tapeçaria da nossa felicidade. Valorizá-los é um exercício de atenção plena, de estar presente e de reconhecer a beleza e a magia que permeiam a existência. É um convite a desacelerar, a observar e a sentir, transformando o ordinário em extraordinário. A gratidão emerge como uma ferramenta essencial nesse processo. Quando nos lembramos do que nos faz feliz, naturalmente cultivamos um sentimento de gratidão pelas experiências, pelas pessoas e pelas oportunidades que moldaram nossa jornada. A gratidão não é apenas um sentimento; é uma postura diante da vida que nos permite enxergar o lado positivo das situações, mesmo as mais difíceis. Ela nos ajuda a construir uma base emocional sólida, a fortalecer nossa autoestima e a desenvolver uma perspectiva mais otimista. Assim, "Lembra do que te faz feliz" não é apenas uma sugestão, mas um imperativo para a construção de uma vida plena e consciente, onde a felicidade não é um destino distante, mas uma jornada contínua de descobertas e valorização do próprio ser. 

Capítulo 2: Fala dos teus sonhos

Após o mergulho nas memórias felizes e na valorização do presente, Cora Coralina nos impulsiona para o futuro com a segunda parte de sua citação: "Fala dos teus sonhos." Esta frase transcende a mera idealização e nos convida à ação, à verbalização de nossas aspirações mais profundas. Sonhar é um ato intrínseco à condição humana, um combustível que nos move e nos dá propósito. No entanto, o sonho guardado, o desejo silenciado, corre o risco de permanecer no campo da abstração, sem nunca ganhar forma ou direção. Falar dos sonhos é, antes de tudo, um ato de coragem. Significa expor uma parte vulnerável de nós mesmos, nossos anseios, medos e esperanças. É tirar o sonho do recôndito da mente e lançá-lo ao mundo, permitindo que ele seja ouvido, questionado e, eventualmente, apoiado. Essa verbalização inicial é um passo fundamental para a materialização. Ao expressarmos nossos sonhos, eles ganham contornos mais definidos, deixam de ser apenas uma névoa de desejos e se transformam em objetivos tangíveis. É como acender uma luz sobre um mapa ainda em branco, começando a traçar o caminho.

Além disso, a comunicação dos sonhos tem um poder catalisador. Quando compartilhamos nossas visões com outras pessoas, abrimos portas para a colaboração, para o surgimento de novas perspectivas e para a atração de recursos e oportunidades que talvez não estivessem ao nosso alcance sozinhos. Um sonho falado pode inspirar, motivar e conectar. Pode encontrar eco em corações e mentes que compartilham anseios semelhantes ou que possuem as ferramentas e o conhecimento necessários para nos auxiliar. É a força da coletividade em prol da realização individual. É crucial, contudo, diferenciar o simples ato de sonhar do compromisso de falar e agir em prol desses sonhos. Falar dos sonhos não é apenas divagar; é um compromisso público (ainda que para um pequeno círculo de confiança) que nos impele a dar os próximos passos. É a ponte entre a imaginação e a realidade. A poetisa goiana, com sua própria trajetória de vida ‒ publicando seu primeiro livro aos 75 anos ‒ é um exemplo vivo de que nunca é tarde para verbalizar e perseguir o que se almeja. Seus sonhos, falados e vividos, se tornaram um legado. Portanto, "Fala dos teus sonhos" é um convite à ousadia, à crença no próprio potencial e à construção ativa de um futuro alinhado com as mais autênticas aspirações do ser. 

Capítulo 3: Alimenta o que te fortalece

Se lembrar do que nos faz feliz nos ancora no passado e falar dos sonhos nos projeta para o futuro, a terceira parte da citação de Cora Coralina nos traz para o presente, para a ação contínua e consciente: "Alimenta o que te fortalece." Esta é uma exortação ao autocuidado em sua forma mais ampla, um convite a nutrir aquilo que nos edifica, que nos dá vigor e que nos permite florescer em todas as dimensões da vida. Não se trata apenas de alimentação física, mas de um banquete para a alma, para a mente e para o espírito. Alimentar o que nos fortalece implica em uma seleção consciente. Assim como escolhemos os alimentos que colocamos em nosso corpo, devemos ser igualmente seletivos com as informações que consumimos, as companhias que mantemos, os ambientes que frequentamos e as atividades às quais dedicamos nosso tempo. Pessoas que nos inspiram, leituras que expandem nossa mente, experiências que nos desafiam e nos fazem crescer, momentos de silêncio e introspecção que nos conectam com nossa essência ‒ tudo isso é alimento. Por outro lado, fofocas, ambientes tóxicos, pensamentos negativos e atividades que drenam nossa energia são venenos que devemos evitar. O desenvolvimento pessoal é um pilar fundamental dessa alimentação. Investir em novas habilidades, buscar conhecimento, praticar a meditação, exercitar a criatividade, cuidar da saúde física e mental ‒ são todas formas de fortalecer nosso ser. Cora Coralina, que se dedicou à escrita e à culinária com paixão, compreendia a importância de cultivar talentos e paixões. Cada nova aprendizagem, cada desafio superado, cada momento de autodescoberta adiciona uma camada de força e resiliência à nossa estrutura interna, tornando-nos mais aptos a enfrentar os percalços da vida. Além disso, alimentar o que nos fortalece significa também proteger nossa energia vital. Em um mundo que constantemente nos exige e nos bombardeia com estímulos, é fácil se sentir exaurido. Aprender a estabelecer limites, a dizer "não" quando necessário e a priorizar nosso bem-estar são atos de amor-próprio. É reconhecer que somos os guardiões de nossa própria força e que temos a responsabilidade de protegê-la e cultivá-la. Ao fazermos isso, não apenas nos fortalecemos individualmente, mas também nos tornamos capazes de oferecer o melhor de nós ao mundo, irradiando vitalidade e propósito. "Alimenta o que te fortalece" é, portanto, um chamado à autogestão, à disciplina e à busca incessante por tudo aquilo que nos torna mais plenos e capazes. 

Capítulo 4: Não deixa o mundo te engolir

Chegamos ao último e talvez mais desafiador preceito da citação de Cora Coralina: "Não deixa o mundo te engolir." Esta frase é um grito de alerta, um apelo à preservação da individualidade e da autenticidade em meio às pressões avassaladoras da sociedade. Em um cenário onde a padronização, o consumo desenfreado e a busca incessante por validação externa parecem ditar as regras, manter-se fiel a si mesmo é um ato de resistência e coragem. O "mundo" a que Cora Coralina se refere pode ser interpretado de diversas formas: as expectativas sociais, as tendências passageiras, as opiniões alheias, as demandas excessivas do trabalho, a incessante comparação com os outros, ou até mesmo a própria rotina que nos consome. Deixar-se engolir pelo mundo significa perder a própria voz, abrir mão dos próprios valores, esquecer os sonhos que um dia foram falados e as felicidades que um dia foram lembradas. É permitir que a essência individual seja diluída e que a vida seja vivida no piloto automático, sem propósito ou paixão. Para não ser engolido, é fundamental cultivar a resiliência e a capacidade de estabelecer limites. Isso implica em aprender a dizer "não" ao que não ressoa com nossos princípios, a proteger nosso tempo e energia, e a nos afastar de situações ou pessoas que tentam nos moldar a algo que não somos. É um exercício contínuo de autoconhecimento e autoafirmação, onde a voz interior se torna o guia mais confiável, acima do burburinho externo. A autenticidade, nesse contexto, não é um luxo, mas uma necessidade para a saúde mental e emocional. A trajetória de Cora Coralina é um exemplo luminoso desse preceito. Ela viveu à margem dos círculos literários tradicionais por muitos anos, dedicando-se à sua vida simples, à sua casa de doces e à sua escrita, sem se deixar abater pela falta de reconhecimento imediato. Sua obra, carregada de regionalismo e de uma visão de mundo particular, é a prova de que a originalidade e a fidelidade à própria verdade são mais poderosas do que qualquer tentativa de conformidade. Ela não permitiu que o mundo a engolisse, e por isso, sua voz se tornou atemporal e universal. "Não deixa o mundo te engolir" é, portanto, um chamado à liberdade. A liberdade de ser quem se é, de pensar por si mesmo, de seguir o próprio caminho, mesmo que ele seja diferente da maioria. É um convite a defender a própria individualidade com unhas e dentes, a nutrir a alma com aquilo que a fortalece e a viver uma vida que seja verdadeiramente nossa, e não um reflexo das expectativas alheias. É a coroação de uma filosofia de vida que valoriza a memória, o sonho e o autocuidado como ferramentas essenciais para uma existência plena e autêntica.

Jornada de Reflexão 

A citação de Cora Coralina ‒ "Lembra do que te faz feliz. Fala dos teus sonhos. Alimenta o que te fortalece. Não deixa o mundo te engolir." ‒ revela-se, ao final desta jornada de reflexão, como um verdadeiro manual de sabedoria para a vida. Em sua aparente simplicidade, a poetisa goiana condensa uma filosofia profunda e atemporal, capaz de guiar-nos na complexidade da existência contemporânea. Cada uma de suas frases, como pilares de uma construção sólida, sustenta a ideia de uma vida vivida com propósito, autenticidade e plenitude. Começamos pela importância de "Lembra do que te faz feliz", um convite à introspecção e à valorização das memórias afetivas como fonte de resiliência e gratidão. Em seguida, fomos impulsionados a "Fala dos teus sonhos", reconhecendo o poder da verbalização e da coragem para transformar aspirações em realidade, abrindo caminhos para a colaboração e a materialização de objetivos. O terceiro pilar, "Alimenta o que te fortalece", nos trouxe para o presente, enfatizando a necessidade do autocuidado consciente, da seleção de influências positivas e do investimento contínuo no desenvolvimento pessoal, nutrindo corpo, mente e espírito. Finalmente, a exortação "Não deixa o mundo te engolir" surge como a coroação dessa filosofia, um chamado à preservação da individualidade e da autenticidade. É a defesa intransigente da própria essência contra as pressões da padronização e do conformismo, um ato de liberdade e autoafirmação. A interconexão desses quatro preceitos é inegável: a felicidade lembrada nos dá força para sonhar, os sonhos falados nos impulsionam a buscar o que nos fortalece, e o fortalecimento contínuo nos capacita a resistir às investidas do mundo, mantendo nossa integridade. A mensagem de Cora Coralina, portanto, transcende a mera poesia; é um convite à ação, à reflexão e à construção de uma vida que seja verdadeiramente nossa. É um lembrete de que, em meio ao turbilhão da vida, temos o poder de escolher o que nutrimos, o que expressamos e o que protegemos. Que suas palavras continuem a inspirar gerações a viverem com mais consciência, coragem e alegria, honrando a própria história e construindo um futuro que ressoe com a mais profunda verdade de cada ser.