Por Enéas Bispo
Há uma cena que resume, em poucas linhas, décadas de debate filosófico sobre moral e religião. Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, José Saramago foi questionado por um repórter sobre como pessoas sem Deus poderiam ser boas. O escritor português devolveu a pergunta com a mesma lâmina afiada: como pessoas com Deus conseguem ser tão más?
A resposta não é apenas uma boa réplica de discurso. É um convite a repensar de onde vem, de fato, a bondade humana — e por que insistimos em amarrá-la a uma crença específica.
O pressuposto escondido na pergunta
A pergunta original carrega um pressuposto que raramente é examinado: a ideia de que a moral depende de uma autoridade externa e sobrenatural para existir. Sem um Deus que recompense o bem e puna o mal, o raciocínio sugere, o comportamento ético perderia seu fundamento.
Saramago, autor de romances como Ensaio sobre a Cegueira e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, era um ateu declarado que dedicou boa parte de sua obra a investigar exatamente esse ponto: o que sustenta a conduta humana quando não há um juiz celestial observando. Sua resposta ao repórner inverte o ônus da prova. Se a fé garantisse a bondade, a história — recheada de violência cometida em nome de religiões — não faria sentido.
Moral não é propriedade de nenhuma crença
A pesquisa em psicologia moral e antropologia tende a apontar em direção semelhante à intuição de Saramago: o comportamento cooperativo e o senso de justiça parecem ter raízes evolutivas e sociais que antecedem qualquer religião organizada. Empatia, reciprocidade e senso de comunidade aparecem em sociedades das mais variadas tradições espirituais — e também entre pessoas sem nenhuma.
Isso não significa que a religião seja irrelevante para a ética. Para bilhões de pessoas, ela oferece linguagem, ritual e comunidade que reforçam valores morais. O ponto de Saramago não é negar isso, mas desmontar a ideia de que ela seja a única fonte possível — ou que sua ausência condene alguém à maldade.
Quando a fé se torna justificativa para o mal
A segunda metade da provocação de Saramago é a mais desconfortável. Como pessoas que professam fé em um Deus de amor e justiça podem cometer atrocidades? A história oferece exemplos abundantes: guerras religiosas, perseguições, discriminações e violências justificadas em nome do sagrado.
Isso revela algo importante: a crença religiosa, por si só, não imuniza ninguém contra a crueldade. O que parece importar mais é a capacidade de reconhecer a humanidade do outro, de questionar as próprias certezas e de resistir à tentação de transformar convicções — religiosas ou não — em licença para o dano.
O que fica da provocação
A frase de Saramago não é um ataque à fé, mas um pedido de honestidade intelectual. Se a bondade e a maldade não estão distribuídas conforme a crença ou descrença em Deus, então a origem da ética precisa ser buscada em outro lugar: na educação, na empatia, na cultura, na capacidade humana de se colocar no lugar do outro.
Crentes e não crentes compartilham o mesmo desafio — construir, todos os dias, escolhas que aproximem o mundo um pouco mais da justiça e do cuidado mútuo. Nenhuma etiqueta, religiosa ou secular, garante isso de antemão. É preciso conquistá-lo na prática, um gesto ético de cada vez.