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domingo, setembro 20, 2026

Onde não puderes ser Místico, Inteligente, Espontâneo e Engraçadinho, não te demores


Por Enéas Bispo*

Há lugares onde a nossa presença parece sempre exigir uma versão editada de nós mesmos. Lugares onde é preciso medir as palavras, esconder o entusiasmo, controlar o riso, diminuir a inteligência e até pedir licença para simplesmente existir. E talvez uma das maiores formas de sabedoria seja perceber quando estamos diante de um ambiente que não nos permite ser inteiros.

Não precisamos pertencer a todos os lugares. Não precisamos ser compreendidos por todas as pessoas. E, sobretudo, não precisamos transformar nossa essência em uma personagem para caber em espaços que não foram feitos para acolher aquilo que somos. A autenticidade tem um preço, mas a ausência dela custa muito mais. Viver permanentemente sob o olhar de quem nos censura é uma maneira silenciosa de abandonar a própria identidade.

Ser místico é enxergar profundidade onde muitos enxergam apenas superfície. É conservar algum encantamento diante da vida, acreditar no invisível, perceber os detalhes, respeitar os silêncios e compreender que nem tudo precisa ser explicado para ser sentido. Ser inteligente é questionar, pensar, aprender, discordar e continuar curioso. Ser espontâneo é permitir que a vida aconteça sem transformar cada gesto em cálculo. E ser engraçadinho é também uma forma de inteligência: aquela capacidade rara de encontrar leveza mesmo quando o mundo insiste em ser pesado.

Por isso, onde não puderes ser místico, inteligente, espontâneo e engraçadinho, não te demores. Não transforme a sua permanência em uma negociação diária com aquilo que você é. Existem ambientes que nos fazem florescer e outros que nos obrigam a sobreviver. Existem pessoas diante das quais nossa presença se expande e outras que parecem precisar da nossa diminuição para se sentirem confortáveis.

Ir embora, nesses casos, não é arrogância. É discernimento. É compreender que nem toda porta merece ser atravessada e nem toda mesa merece a nossa cadeira. Às vezes, partir é o gesto mais elegante de amor-próprio. Não porque o outro esteja necessariamente errado, mas porque você finalmente compreendeu que não precisa permanecer onde sua autenticidade é tratada como inconveniência.

A vida é curta demais para gastarmos nossos melhores anos tentando convencer alguém de que somos dignos de ser exatamente quem somos. Procure lugares onde sua inteligência seja celebrada, sua espontaneidade seja acolhida, seu humor encontre eco e sua sensibilidade não precise pedir desculpas por existir. Procure pessoas diante das quais você possa rir alto, pensar profundamente, falar bobagens, compartilhar silêncios e ainda assim sentir-se em casa.

Não se demore onde você precisa diminuir para caber.

Há lugares esperando pela sua presença inteira. E há encontros que só acontecem depois que temos coragem de deixar para trás aqueles que nos ensinavam, todos os dias, a sermos menos.

No fim, talvez maturidade seja justamente isso: saber quando ficar, saber quando partir e, principalmente, nunca confundir pertencimento com apagamento.

*Na Foto: Papa Francisco 

sábado, maio 16, 2026

O Peso do Último Passo


Por Enéas Bispo 

A cafeteira terminou seu trabalho com aquele último suspiro de vapor, ecoando na cozinha silenciosa. Olhei para a tela do celular acesa sobre a mesa. Mais uma mensagem longa, daquelas que tentam justificar o injustificável, cheia de vírgulas que pareciam pedidos de desculpas, mas que, no fundo, guardavam o mesmo padrão de sempre.

​Por muito tempo, eu achei que as relações humanas fosrebound feitas de fôlego. Que insistir, explicar e desenhar o óbvio era uma prova de amor, de lealdade, fosse na amizade, no trabalho ou no afeto. "Deixa eu tentar mais uma vez", eu pensava, enquanto engolia em seco o desrespeito fantasiado de "foi sem querer" ou "você está exagerando".

​Mas a verdade é que, onde não existe respeito, não existe base para absolutamente nada. É tentar construir um edifício sobre a areia movediça.

​O Cansaço das Palavras

​Muita gente — e eu me incluo nisso por tempo demais — passa a vida tentando conversar. Explicamos didaticamente onde dói, damos novas chances, relevamos atitudes que já desenharam um padrão claro na parede. Só que chega um momento em que a ficha cai: não é falta de entendimento, é falta de limite. E limite, aprendi a duras penas, não se impõe com o gogó. Palavras gasta o vento leva. O limite se impõe com a sola do sapato. Com a atitude.

​Quem precisa ser convencido a te respeitar, na verdade, já escolheu não fazê-lo.

​Ficar ali, pedindo por um espaço que deveria ser seu por direito, é uma forma sutil de autofagia. É abrir mão de si mesmo em parcelas diárias, esperando que o outro mude só porque você pediu. Spoiler: não muda. Continuar no mesmo lugar só prolonga o desgaste e alimenta o monstro da invalidação.

​A Geometria da Distância

​Se afastar não tem nada a ver com fraqueza ou covardia. É, na verdade, o posicionamento mais firme que alguém pode adotar. É o instante sagrado em que você olha para o espelho, reconhece o próprio valor e decide que não aceita saldo devedor de dignidade.

​O distanciamento é a única resposta possível quando o outro esgota a sua paz. É uma Linha de Tordesilhas emocional que diz: “Até aqui você veio, daqui você não passa mais”.

  • ​O silêncio deixa de ser omissão e vira manifesto.
  • ​A ausência deixa de ser saudade e vira proteção.
  • ​A energia deixa de ser gasta no front de uma discussão inútil e volta para o próprio peito.

​A Hora de Sair

​Não há heroísmo em lutar por um lugar onde o respeito deveria ser o oxigênio básico, o ponto de partida, e não o prêmio de consolação. Às vezes, o silêncio e a distância dizem muito mais do que qualquer textão de indignação ou DR de cinco horas. Eles dizem, com elegância e crueza: "Eu cansei de te ensinar a cuidar de mim".

​Peguei o celular. Não digitei nenhuma resposta. Não apontei o dedo, não cobrei o que o outro não tinha capacidade de entregar. Apenas bloqueei a tela, tomei meu café e olhei pela janela.

​No fim das contas, quem se valoriza não faz barulho ao sair. Só calça os sapatos, fecha a porta sem bater e caminha em direção à própria paz.