Do que mais tenho medo
é do abraço das placas tectônicas.
Não do trovão,
que ao menos anuncia sua chegada,
nem do mar,
que grita antes de engolir.
Tenho medo do chão
quando ele decide se aproximar.
Duas gigantes se procuram
no escuro debaixo dos meus pés,
sem olhos,
sem mãos,
sem saber que eu existo.
E quando se encontram,
não há grito.
Há silêncio.
Um silêncio tão profundo
que faz as casas esquecerem seus nomes,
as montanhas dobrarem os joelhos
e os relógios perderem a coragem
de continuar.
Eu fico parado.
Escuto a terra respirando
por baixo da minha cama.
Ela se move devagar,
como quem abraça alguém
que ama demais
para deixar escapar.
Talvez seja isso que me assuste:
não a força da terra,
mas sua ternura.
Esse modo brutal
de apertar o mundo
até que tudo dentro dele
se torne poeira.
Do que mais tenho medo
é desse abraço sem braços,
desse carinho subterrâneo
que ninguém consegue recusar.
Porque um dia
as placas vão se encontrar novamente.
E talvez,
por alguns segundos,
o mundo inteiro
fique em silêncio
para ouvir
a terra
se abraçar.
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