A imagem é um soco no peito, misturando o divino e o caos de forma tão crua que chega a ser poética. Não é só uma foto do Cristo Redentor; é a perspectiva dele.
Lá está Ele, de costas para a gente, mas de braços abertos para um horizonte que é pura contradição. A pedra-sabão, fria e monumental, abraça a cidade que ferve. Do alto do Corcovado, o Cristo não parece abençoar, mas sim testemunhar. Ele é o observador silencioso, o eterno vigia de uma tragédia.
Abaixo d'Ele, a multidão é um formigueiro de gente. Turistas, fiéis, curiosos — todos apertados na pequena plataforma, elevando seus olhos e celulares para o céu, buscando talvez um ângulo melhor, uma bênção, ou apenas a prova de que estiveram ali. Estão na base do Gigante de Pedra, mas o chão que pisam é a ponta de um vulcão urbano.
E então, o Rio. A cidade que se esparrama, um mar de concreto e telhas que engole morros e abraça a Baía de Guanabara. É a geometria do desejo contra a topografia da miséria. De um lado, o Pão de Açúcar e o azul atlântico, cartões-postais de uma beleza quase ofensiva. Do outro, o emaranhado das ruas, a promessa de vida e, inevitavelmente, a sombra do medo.
O Cristo, de costas, parece ter se cansado de encarar a luta de sua gente. Ou, quem sabe, seu olhar está fixo em algo que só Ele pode ver: a alma carioca, partida entre a alegria irresponsável e a dor de existir num lugar onde a beleza é tão extrema que se torna perigosa.
Não há santidade fácil nesta vista. A poesia está justamente nesta tensão: o maior símbolo de paz no mundo, erguido sobre uma das cidades mais turbulentas. Ele é a âncora, pesada e inamovível, que segura a cidade para que ela não se desfaça no próprio esplendor. Ele não julga; apenas existe, uma cicatriz branca e imponente no verde da montanha, lembrando a todos que, no Rio, o céu está sempre perto, mas o inferno também.
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