Dizer que a nova campanha da Havaianas é um "erro de marketing" é de uma ingenuidade atroz. Para o espectador comum, a polêmica resume-se a uma frase ambígua sobre "não começar 2026 com o pé direito", interpretada pela direita como um ataque e pela esquerda como uma metáfora de ousadia. Mas, para quem observa o fluxo do capital, a conversa é outra.
Não é sobre chinelos. É sobre quem dita o ritmo da economia.
1. O Aceno ao Poder: A comunicação como contrato
Empresas do porte da Alpargatas (controladora da marca) não dão "tiros no pé". Elas fazem escolhas de posicionamento. Ao escolher Fernanda Torres — um símbolo da "intelectualidade progressista" e queridinha da temporada pós-Oscar — a Havaianas não está apenas tentando vender borracha para o consumidor final. Ela está enviando um sinal de rádio de alta frequência para o Palácio do Planalto.
O recado é institucional: a marca está alinhada com a estética e os valores do governo vigente. Em um país onde a regulação, os subsídios e as linhas de crédito dependem da proximidade com a pauta oficial, o ativismo corporativo é, na verdade, uma apólice de seguro.
2. A Matemática por trás da "Ideologia"
Muitos se perguntam: "Por que arriscar um boicote de metade dos consumidores?". A resposta está no balanço financeiro.
- A Alpargatas vem de uma reestruturação severa: Após prejuízos bilionários em 2023, a empresa reverteu o jogo em 2024 e 2025 com lucros recordes e foco em eficiência.
- O Lucro dos Juros: Para os grandes acionistas (como o grupo Itaú/Moreira Salles), o varejo é apenas uma das pontas. O que realmente move o ponteiro são as decisões sobre a Taxa Selic e a política industrial.
Quem vive de dividendos e gestão de grandes fortunas não se abala se o "Tio do Zap" parou de comprar um par de chinelos de 50 reais. O que importa é estar na mesa onde se decide o futuro dos juros. A campanha é um salvo-conduto político para manter a influência onde o dinheiro realmente "nasce".
3. O Fetiche do Conflito
A polarização serve como cortina de fumaça. Enquanto o público se digladia nas redes sociais sobre o "simbolismo do pé direito", a marca ganha:
- Mídia Espontânea: Milhões em exposição gratuita gerada pela indignação.
- Reposicionamento Premium: Ao se afastar do "povão" polarizado e se abraçar à "elite cultural", a Havaianas reforça sua estratégia de ser um item de moda global e não apenas um utilitário doméstico.
4. O Alvo é 2026
A menção direta ao ano de 2026 na campanha não é coincidência. É o ano eleitoral. Antecipar o discurso é marcar território. A Havaianas está escolhendo o seu lado na trincheira econômica muito antes da primeira urna ser aberta.
Empresas desse tamanho não fazem política por paixão; fazem por cálculo de risco. Se elas decidiram que o "pé direito" é descartável, é porque já calcularam que o lucro vindo do alinhamento com o sistema atual compensa qualquer perda nas prateleiras.
Veredito: Chamar a campanha de "lacração" ou "erro" é o que eles querem que você faça. A verdade é que a Havaianas não está falando com você. Ela está falando com o Rei. E, nesse jogo, o consumidor é apenas o cenário.
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