A decisão da Lupo, uma das maiores e mais tradicionais fabricantes de meias e moda íntima do Brasil, de instalar uma nova fábrica no Paraguai não é um mero plano de expansão, mas sim um diagnóstico contundente e avassalador da doença que consome a indústria brasileira: o famigerado Custo Brasil. É o sintoma mais claro de que o ambiente de negócios no país se tornou tão hostil que até gigantes centenárias são forçadas a buscar refúgio além das fronteiras.
O que assistimos não é uma "fuga" voluntária, mas um êxodo forçado, nas palavras da própria CEO da Lupo, Liliana Aufiero: "Não é que a Lupo foi para o Paraguai, o Brasil empurrou a gente para o Paraguai".
A Lógica Cruel dos Números: O Fator "Custo Brasil"
A mudança para Ciudad del Este, com um investimento de R$ 30 milhões, não é motivada por um capricho, mas por uma necessidade brutal de sobrevivência e competitividade. Os números falam por si e desnudam o abismo:
- Redução de Custo: Produzir meias no Paraguai é, segundo a Lupo, cerca de 28% mais barato do que no Brasil.
- Ataque da Concorrência Asiática: A diferença de custo é o escudo necessário para enfrentar a avalanche de produtos asiáticos. Enquanto o Brasil exporta a US$ 20 por quilo (em um grupo de produtos), a China consegue vender a US$ 11 a US$ 13 por quilo. Sem a redução de custo, a indústria nacional perde a capacidade de competir no seu próprio quintal.
O Peso Insustentável da Carga Tributária
O principal motor a "empurrar" a Lupo e mais de 200 outras indústrias brasileiras para o país vizinho é, inquestionavelmente, o excessivo e complexo sistema tributário nacional.
- Impostos Asfixiantes: A alta carga de impostos sobre a produção e a folha de pagamento no Brasil pressiona as margens a um ponto insustentável. A empresária critica que, ao mesmo tempo que o governo tenta taxar importações para proteger o mercado, ele continua a onerar a indústria nacional, beneficiando apenas o varejo e enfraquecendo quem, de fato, produz e gera empregos de maior qualidade.
- O "Paraíso" Fiscal Paraguaio: O Paraguai, por outro lado, oferece um ambiente infinitamente mais atrativo, especialmente para empresas com foco em exportação, através da Lei da Maquila. Essa legislação prevê um regime simplificado e altamente vantajoso, com imposto único de 1% sobre o valor agregado e a suspensão de taxas alfandegárias e impostos sobre remessas ao exterior. É uma estabilidade fiscal garantida por lei por até 10 anos.
Mão de Obra e Energia: Outros Ganhos Essenciais
Além da questão tributária, outros fatores de custo demonstram a fragilidade da infraestrutura e da economia brasileira:
- Mão de Obra e Energia Baratas: O Paraguai oferece mão de obra e energia elétrica mais baratas do que no Brasil, reduzindo ainda mais o custo operacional total.
- Vantagem Logística e Aduaneira: A localização estratégica em Ciudad del Este, próxima à fronteira, e a desburocratização dos processos aduaneiros paraguaios garantem ganhos logísticos cruciais para a agilidade do negócio no Mercosul.
O Alerta Ignorado
O movimento da Lupo é mais do que a história de uma empresa; é um monumento à ineficiência econômica brasileira. A fábrica no Paraguai, com capacidade de produzir 20 milhões de pares de meias por ano, serve de sinal de fumaça para o debate sobre a desindustrialização.
Se o Brasil não fizer uma reforma tributária radical (e não apenas uma simplificação superficial) e não criar um ambiente de negócios que recompense o investimento e a produção, continuaremos a "exportar" nossas fábricas, talentos e a capacidade de gerar riqueza. A indústria nacional precisa de um governo que a veja como parceira estratégica e não apenas como uma fonte inesgotável de arrecadação.
A tragédia da Lupo é o espelho onde o Brasil precisa urgentemente se enxergar antes que a desindustrialização se torne irreversível.
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