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domingo, outubro 18, 2026

O Medo que Encolhe e a Coragem que Faz Voar: Uma Reflexão com Rubem Alves


Por Enéas Bispo 

Quantas vezes você já deixou de seguir um sonho, aceitar um desafio ou iniciar um novo projeto por causa do medo do fracasso ou do incerto? O medo é uma das emoções mais intrínsecas à condição humana — ele tenta nos convencer de que permanecer onde estamos é a opção mais segura e prudente.

​Contudo, como observou brilhantemente o escritor e pensador brasileiro Rubem Alves, escolher a prudência excessiva movida pelo medo é, na verdade, uma forma de abdicar da própria vida.

​"Quem por causa do medo prefere o caminho prudente de fugir do risco, já nesse ato estará morto. Porque o medo lhe terá roubado aquilo de mais precioso que existe na vida humana: a capacidade de se arriscar para viver intensamente." — Rubem Alves

​O Medo Faz Parte da Alma

​Muitas vezes, tentamos combater ou ignorar o medo como se ele fosse uma falha ou fraqueza. No entanto, o medo faz parte da nossa essência. A grande questão não é eliminar a sensação de medo, mas sim definir qual o papel que daremos a ele no nosso dia a dia.

​Quando deixamos o medo tomar as rédeas, nós nos encolhemos. Passamos a rastejar e viver uma existência limitada pelo receio de errar. Por outro lado, quando reconhecemos a presença do medo, mas decidimos agir mesmo assim, nós nos permitimos voar.

​O Verdadeiro Significado da Coragem

​Existe uma falsa crença de que pessoas corajosas não sentem medo. A verdade é exatamente o oposto: a coragem só existe porque o medo está presente.

​A verdadeira coragem consiste em:

  • ​Aceitar os riscos: Entender que a vida é feita de incertezas e que o erro faz parte do aprendizado.
  • ​Agir apesar do receio: Tomar decisões alinhadas aos seus desejos mais profundos, sem se paralisar pelas dúvidas.
  • ​Viver plenamente: Escolher a intensidade e a realização em vez da estagnação segura.

​Ao abraçar o risco de viver plenamente, triunfamos sobre as limitações do cotidiano e garantimos uma vida vivida de forma autêntica.​

domingo, setembro 20, 2026

Onde não puderes ser Místico, Inteligente, Espontâneo e Engraçadinho, não te demores


Por Enéas Bispo*

Há lugares onde a nossa presença parece sempre exigir uma versão editada de nós mesmos. Lugares onde é preciso medir as palavras, esconder o entusiasmo, controlar o riso, diminuir a inteligência e até pedir licença para simplesmente existir. E talvez uma das maiores formas de sabedoria seja perceber quando estamos diante de um ambiente que não nos permite ser inteiros.

Não precisamos pertencer a todos os lugares. Não precisamos ser compreendidos por todas as pessoas. E, sobretudo, não precisamos transformar nossa essência em uma personagem para caber em espaços que não foram feitos para acolher aquilo que somos. A autenticidade tem um preço, mas a ausência dela custa muito mais. Viver permanentemente sob o olhar de quem nos censura é uma maneira silenciosa de abandonar a própria identidade.

Ser místico é enxergar profundidade onde muitos enxergam apenas superfície. É conservar algum encantamento diante da vida, acreditar no invisível, perceber os detalhes, respeitar os silêncios e compreender que nem tudo precisa ser explicado para ser sentido. Ser inteligente é questionar, pensar, aprender, discordar e continuar curioso. Ser espontâneo é permitir que a vida aconteça sem transformar cada gesto em cálculo. E ser engraçadinho é também uma forma de inteligência: aquela capacidade rara de encontrar leveza mesmo quando o mundo insiste em ser pesado.

Por isso, onde não puderes ser místico, inteligente, espontâneo e engraçadinho, não te demores. Não transforme a sua permanência em uma negociação diária com aquilo que você é. Existem ambientes que nos fazem florescer e outros que nos obrigam a sobreviver. Existem pessoas diante das quais nossa presença se expande e outras que parecem precisar da nossa diminuição para se sentirem confortáveis.

Ir embora, nesses casos, não é arrogância. É discernimento. É compreender que nem toda porta merece ser atravessada e nem toda mesa merece a nossa cadeira. Às vezes, partir é o gesto mais elegante de amor-próprio. Não porque o outro esteja necessariamente errado, mas porque você finalmente compreendeu que não precisa permanecer onde sua autenticidade é tratada como inconveniência.

A vida é curta demais para gastarmos nossos melhores anos tentando convencer alguém de que somos dignos de ser exatamente quem somos. Procure lugares onde sua inteligência seja celebrada, sua espontaneidade seja acolhida, seu humor encontre eco e sua sensibilidade não precise pedir desculpas por existir. Procure pessoas diante das quais você possa rir alto, pensar profundamente, falar bobagens, compartilhar silêncios e ainda assim sentir-se em casa.

Não se demore onde você precisa diminuir para caber.

Há lugares esperando pela sua presença inteira. E há encontros que só acontecem depois que temos coragem de deixar para trás aqueles que nos ensinavam, todos os dias, a sermos menos.

No fim, talvez maturidade seja justamente isso: saber quando ficar, saber quando partir e, principalmente, nunca confundir pertencimento com apagamento.

*Na Foto: Papa Francisco