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terça-feira, setembro 29, 2026

O Mecanismo da Utopia


Por Enéas Bispo

No pulso, ele não marca apenas o transcorrer do tempo; marca uma era inteira sintetizada em latão, vidro e acrílico. Um círculo vermelho denso, da cor das bandeiras que um dia hastearam a promessa de um mundo moldado pelo suor e pela engrenagem.

​Ao olhar para a esfera do relógio, o ponteiro das horas se revela um raio estilizado, cortando os minutos com a imponência do progresso elétrico e da indústria. Já o ponteiro maior curva-se no formato exato de uma foice, cruzando-se a cada hora com as espigas de trigo douradas que se erguem no canto esquerdo. É a física da precisão relojoeira a serviço da iconografia do trabalho: o campo e a fábrica, o grão e a faísca, girando em ciclo perpétuo sobre o veludo escarlate do mostrador.

Há uma poesia quase melancólica nesse mecanismo de corda manual. Enquanto o calibre tic-taca sob a caixa cromada, lembra-nos de que o tempo soviético não era medido apenas em segundos, mas em planos quinquenais, colheitas coletivas e na marcha cadenciada do trabalho. Dar corda a este relógio é um ritual de reconexão: a cada volta na coroa, tensiona-se a mola de um tempo que pretendia ser eterno, mas que acabou guardado em vitrines de colecionadores e gavetas de memória.

​Ver a foice e o raio se encontrarem às doze horas é testemunhar a pontualidade de uma utopia congelada no pulso. O relógio continua a andar, indiferente ao fim do império que o projetou, provando que enquanto os regimes passam, a beleza do design e o curso do tempo permanecem inabaláveis.