Por Enéas Bispo
Há coisas que deixei por resolver e que, de vez em quando, voltam a bater à porta da memória. Conversas que não tive, palavras que engoli, despedidas que adiei, sentimentos que não compreendi a tempo e decisões que fui empurrando para um amanhã que nunca parecia chegar. Há também sonhos que ficaram pela metade, caminhos que abandonei sem entender muito bem por quê e pessoas às quais talvez eu devesse ter dito mais alguma coisa — ou simplesmente ter dito adeus.
Com o tempo, aprendi que nem tudo o que fica pendente precisa ser retomado. Algumas questões merecem uma resposta; outras, apenas a coragem de aceitar que não a teremos. Existem portas que ainda podemos abrir, mas há aquelas diante das quais precisamos aprender a não permanecer eternamente. Resolver nem sempre significa consertar, recuperar ou voltar atrás. Às vezes, significa reconhecer o que aconteceu, assumir a nossa parte, perdoar o que for possível e seguir sem carregar a obrigação de mudar o passado.
Talvez a maturidade consista justamente nisso: olhar para a própria história sem fugir dos capítulos inacabados. Admitir os erros sem fazer deles uma sentença, reconhecer as omissões sem transformar a culpa em morada e compreender que a vida não nos concede tempo suficiente para concluir tudo perfeitamente. Algumas coisas ficarão sem resposta, algumas pessoas seguirão sem saber o que significaram para nós, e algumas versões de quem fomos jamais terão a oportunidade de se explicar.
Ainda assim, é preciso seguir. Não porque tudo esteja resolvido, mas porque a vida continua acontecendo enquanto tentamos encontrar as respostas. E não quero chegar ao futuro tão ocupado com aquilo que deixei para trás que me esqueça de viver o que ainda está diante de mim.
Há pendências que pedem coragem para serem enfrentadas. Outras pedem serenidade para serem encerradas dentro de nós. O importante é aprender a distinguir umas das outras.
Afinal, não preciso resolver tudo o que passou para merecer a paz. Preciso apenas deixar de fugir daquilo que ainda posso transformar e encontrar sabedoria para aceitar aquilo que já não depende de mim.
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