Pela janela, a cidade lá fora continuava sua corrida insana de faróis, buzinas e pressa. Ali dentro, não. A casa era um santuário. A casa era só sua.
Tirou os saltos e ficou descalça, sentindo o frio do piso sob os pés. Com a pele alva contrastando com o vestido escuro de trabalho, Clara caminhou pela penumbra sem acender as luzes principais. Passou pelo espelho do corredor e nem sequer se olhou; não precisava da validação do próprio reflexo para saber quem era. Havia uma beleza natural e altiva no modo como se movia pela própria vida — uma independência conquistada centímetro a centímetro, sem pedir licença ou desculpas a ninguém.
Caminhou até a cozinha americana e serviu-se de uma cerveja em um copo alto. A espuma densa subiu lenta, teimando em continuar ali, intacta, enquanto o vidro gelava suas mãos. Ela não ligou a televisão. Não colocou uma música de fundo para mascarar o silêncio. Não abriu o celular para ver as notificações.
Nenhum ruído. Nenhuma voz cobrando prazos, sentimentos ou expectativas. Apenas a iluminação morna do abajur de canto, aceso como uma pequena lua particular sobre a poltrona de leitura.
Aquele momento não era solidão; era solitude. Um manto doce, feito sob medida. Para muitos, a imagem de uma mulher bonita e jovem sozinha em uma noite de sexta-feira parecia um enigma ou um desperdício. Para Clara, era o ápice da liberdade. Uma liberdade inteira, que cabia no minimalismo da cena: um gole lento, o teto acima da cabeça e o peito inteiramente sem espanto.
Sentou-se na poltrona, encolhendo as pernas sob o corpo. Não havia relógio marcando a hora de ir ou de voltar. Havia apenas o agora. E, pela primeira vez na semana, seu coração finalmente descansava no único lugar onde realmente pertencia: dentro dela mesma, na sua casa, sob a paz irrestrita de uma noite mansa.
◇◇◇
*Foto: Dra.Amanda Soares
Nenhum comentário:
Postar um comentário