Por Enéas Bispo
Não é o cosmos que atormenta Sócrates, mas o homem que finge compreendê-lo. Enquanto outros discutem se o "ser" é um ou múltiplo, se tudo se move ou nada se move, ele desce das nuvens para a praça pública — porque suspeita que tanta certeza sobre o céu esconde uma fuga das perguntas mais difíceis: quem sou eu, o que devo fazer, como devo viver.
O testemunho de Xenofonte é irônico e preciso: os sábios da Natureza discordam entre si como loucos furiosos, cada um seguro de sua verdade, nenhum capaz de convencer o vizinho. Sócrates não nega o valor do céu — nega que o homem tenha licença para especular sobre ele antes de conhecer a si mesmo.
É por isso que sua filosofia começa onde a dos outros termina: no cuidado de si, na ética, no exame da alma. Não por modéstia, mas por rigor. Só quem admite os limites do próprio saber pode começar, de fato, a pensar.
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