Por Enéas Bispo
Há uma Grécia que não cabe nos cartões-postais. Não tem mar azul-turquesa, nem casinhas caiadas de branco, nem sol impiedoso batendo em ruínas de mármore. É uma Grécia de neblina espessa, de neve que cobre telhados de ardósia, de castanheiras selvagens debruçadas sobre enco⁸stas — e o nome dela é Florina.
Fica lá em cima, quase encostada na fronteira com a Macedônia do Norte e a Albânia, na região da Macedônia Ocidental. Enquanto o resto do país suava sob o sol do Egeu, Florina sempre preferiu o frio. É, de fato, uma das cidades habitadas mais geladas da Grécia — e a mais fria entre as grandes. O inverno ali não é um detalhe de calendário: é personagem principal, o protagonista teimoso que organiza a vida da cidade em torno de lareiras, casacos pesados e um rio que, quando a temperatura despenca, chega a congelar em sua própria correnteza.
Esse rio corta o centro da cidade como uma linha de prata e é, talvez, o melhor lugar para começar a entender Florina. Às margens dele, cafés pequenos guardam o calor humano que o clima recusa oferecer lá fora. Foi justamente essa paisagem — o rio gelado, a bruma, as ruas silenciosas — que atraiu o cineasta grego Theodoros Angelopoulos, que escolheu a cidade como cenário de alguns de seus filmes, entre eles aquele estrelado por Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau. Não é difícil entender por quê: caminhar pelo centro histórico de Florina é como atravessar um estúdio de cinema abandonado no tempo, onde as casas neoclássicas de fachadas coloridas parecem esperar, imóveis, a próxima cena.
Essa é uma cidade que carrega várias Grécias dentro de si. Houve gregos ali desde a Antiguidade, quando a região pertencia ao antigo reino de Eordaia, possivelmente fundada por Filipe II da Macedônia. Depois vieram os bizantinos, os eslavos que se instalaram com a permissão de Constantinopla e, mais tarde, os otomanos, que dominaram a cidade a partir do fim do século XIV e mudaram profundamente sua composição populacional. Cada camada dessa história deixou vestígios: cerâmicas neolíticas e estátuas romanas dividem espaço no Museu Arqueológico local, enquanto o Museu de Arte Moderna, instalado num prédio neoclássico, reúne centenas de obras de artistas conhecidos internacionalmente — uma surpresa e tanto para quem espera de uma cidade de província apenas relíquias do passado.
Há também um outro tipo de memória em Florina, mais miúda e mais doce: a da apicultura. O Museu Folclórico do Clube de Cultura da cidade guarda uma das coleções mais completas da Grécia sobre a arte de criar abelhas — colmeias antigas de madeira e barro, ferramentas para colher mel e geleia real, fotografias de um ofício que atravessou gerações de camponeses macedônios. É um museu sem pressa, do tipo que não aparece em roteiros turísticos apressados, mas que revela mais sobre a alma de um lugar do que qualquer monumento grandioso.
Fora dos limites urbanos, a paisagem se estende para os lagos Mikri e Megali Prespa, encostados nas fronteiras com a Albânia e a Macedônia do Norte, e para as estações de esqui que fazem de Florina um ponto de partida natural para quem busca montanha em vez de praia. Não por acaso, muitos visitantes a descrevem como a versão "alpina" da Grécia — um microclima que lembra mais a Escandinávia ou o norte da Europa do que o imaginário mediterrâneo que o país costuma vender ao mundo.
Florina não pede pressa. Ela não é feita para quem quer riscar destinos de uma lista. É uma cidade que se entrega aos poucos, entre o vapor de um café quente, a névoa sobre o rio congelado e as ruas que parecem sussurrar séculos de gregos, eslavos e otomanos que por ali passaram e, de algum jeito, ainda ali permanecem. No fim, talvez seja isso: a Grécia também sabe ser fria, e essa frieza, em Florina, tem o rosto mais bonito do inverno.
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