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segunda-feira, novembro 24, 2025

💙 Vertiginosamente Azul


Por Enéas Bispo 

O azul, para nós, nunca foi uma cor. Foi uma urgência, uma necessidade vital de preencher o vazio onde só havia o tom desbotado do "quase". As ruas... ah, as ruas! Eram cinzas de concreto e tédio impermeáveis a qualquer pincelada de sonho. Viver ali era respirar poeira e rotina. Mas a gente tinha uma mania: a mania de ser excesso.

Então, você começou a subversão. Não podendo de azul pintar as avenidas, as calçadas, os postes, você me apareceu com a ideia mais absurda e mais linda: pintar os sapatos.

“Então, pintei de azul os meus sapatos por não poder de azul pintar as ruas,”

​E não era um azul-marinho discreto, não. Era um azul-ultramarino, quase elétrico, berrando no meio do asfalto. O primeiro passo da nossa revolução particular. Depois, a loucura contagiou o resto. Você vestiu seus gestos insensatos, aqueles que desafiavam o bom senso e o medo, e me puxou para o centro do palco. Foi um ato de coragem quase infantil.

“depois, vesti meus gestos insensatos e colori as minhas mãos e as tuas.”

​Nossas mãos, antes pálidas de indecisão, ficaram manchadas com o pigmento vibrante. Mãos unidas, comprometidas com a mesma paleta, empenhadas em uma missão simples: extinguir o azul ausente. Aquele que faltava nos sorrisos, nas conversas, na maneira como o sol se punha sem emoção.

​Nós decidimos que as coisas boas, as raras alegrias que nos visitavam, não podiam mais ser efêmeras. Precisavam de uma moldura, de uma âncora.

“Para extinguir em nós o azul ausente e aprisionar no azul as coisas gratas,”

​E a partir daí, não houve mais freio. O azul virou torrente. Ele jorrou sobre a vida como uma chuva torrencial e libertadora. As barreiras da formalidade caíram por terra, rendidas à intensidade da nossa escolha. Nossas roupas — o último vestígio de uma vida "normal" — não escaparam.

“enfim, nós derramamos simplesmente azul sobre os vestidos e as gravatas.”

​Era um espetáculo. Dois seres imersos, banhados, saturados. O azul escorria pelas golas e pelos tecidos, tingindo a própria atmosfera ao nosso redor. E foi nesse mergulho profundo, nesse afogamento voluntário em uma cor, que a gente se perdeu de si mesmo para se encontrar um no outro.

Afogados em nós, na bolha densa e azulada que criamos, esquecemos a moderação. A ideia de que até o excesso de beleza pode ser exaustivo se desvaneceu. Quem se importa com o cansaço quando se está criando um novo universo?

“E afogados em nós, nem nos lembramos que no excesso que havia em nosso espaço pudesse haver de azul também cansaço.”

​E assim ficamos, contemplando-nos naquele mar de cor. Não era mais só o azul das ruas, dos sapatos ou das roupas. Era o tom fundacional da nossa relação, o pigmento-base da nossa alma a dois. E enquanto o mundo lá fora seguia cinza, nós vimos nascer um novo ponto cardeal em nós.

“E perdidos de azul nos contemplamos e vimos que entre nós nascia um sul vertiginosamente azul.”

​Um sul improvável, quente e profundo. Não um norte de direção óbvia, mas um sul de vertigem e descoberta. Um lugar que só existia entre nós, um abismo de possibilidades. Onde o tédio havia morrido, as ruas haviam sido pintadas, e a vida, enfim, tinha se tornado vertiginosamente azul.

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